Créditos: Divulgação
20-06-2026 às 08h34
Anna Marchesini*
Hoje li uma frase que me assustou. Era exatamente assim: “Lula 2026, hexa e mengão”.
À primeira vista, inofensivo. Três palavras, três paixões. Mas não é inofensivo. É um retrato cruel de como muitos de nós enxergamos a política hoje: como torcida de futebol.
Existem só duas torcidas. Os de direita e os de esquerda. Ponto final. Direita é Bolsonaro. Esquerda é Lula. A camisa define o voto. O grito da arquibancada abafa qualquer argumento. E triste ver como ainda existem seres humanos míopes, incapazes de enxergar além da bandeira que escolheram levantar.
A política não pode ser definida e tratada como está. País não é estádio. Governo não é campeonato. E povo não é torcida organizada.
Quando reduzimos o debate público a “nós contra eles”, perdemos a capacidade mais urgente da democracia: pensar. Pensar em nós, o povo. Pensar nas ruas esburacadas, na escola que falta professor, no posto de saúde sem remédio, no preço que sobe e no salário que não acompanha.
Teríamos que navegar em outros mares. Teríamos que aprender a ouvir. Interpretar a voz de cada um que aí está, mesmo quando essa voz discorda da nossa. Teríamos que trocar o grito de gol pela pergunta difícil: “Isso está melhorando a vida de quem trabalha, paga conta e educa filho?”
A miopia eleitoral é isso. É enxergar só o escudo do time e ficar cego para o resultado do jogo. É defender político como se defendesse ídolo. É justificar erro porque “o outro lado faz pior”. É votar contra alguém, e não a favor de um projeto.
Democracia exige maturidade. Exige que a gente tire a camisa, sente na arquibancada neutra e julgue o jogo pelos 90 minutos inteiros. Pelas propostas, pelos dados, pela execução. Não pelo sobrenome, não pela cor da bandeira, não pelo meme que viralizou.
Enquanto tratarmos eleição como final de Copa, vamos continuar perdendo o campeonato que realmente importa: o campeonato da vida real. Aquele que se joga todo dia, sem prorrogação, na casa de quem acorda cedo, paga imposto e só quer dignidade.
Precisamos enxergar melhor. Porque país não se ganha na arquibancada. País se constrói na mesa de discussão, com gente diferente, ouvindo, cedendo, propondo.
E isso, meus amigos, não tem torcida. Tem povo.
*Anna Marchesini é Palestrante e Educadora

