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23-07-2026 às 09h43
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
A interpretação é ato multifacetado. Há uma espécie de contrato social, regras que subjazem atos de fala e convivência. É importante que as pessoas se entendam pela linguagem, que tenham mecanismos para defender um determinado ponto de vista, um argumento, que sejam capazes de ordenar as falas, encadear logicamente os pensamentos.
O ato interpretativo é desafiador por natureza, pois sobre o que não há dúvidas é desnecessário argumentar. Todos os seres humanos vivem inseridos num contexto histórico, social, político e econômico e nestes espaços de vivências há interpretações possíveis que são compartilhadas socialmente por uma determinada comunidade de pessoas, um grupo.
Às palavras não se podem atribuir significados aleatórios, elas denotam sentidos e guardam valores.
Um ato interpretativo pressupõe que se conheçam os argumentos exarados e se decodifiquem as mensagens. Interpretar é conceder significado, desdobrar, explicar com mais elementos. Porém, há limitadores de razoabilidade na defesa de pontos de vista. É preciso que as falas sejam racionais. Toda defesa de uma argumentação deve guardar limites de encadeamento lógico e ordenação das ideias.
Não é crível se estabelecer uma interpretação universal e absoluta sobre os fatos e ideias. Todo argumento comporta afirmações e negações. Existem ideias plausíveis e outras inaceitáveis.
Interpretar é conceder aos fatos uma leitura, decodificar contextos, estabelecer caminhos argumentativos lógicos e plausíveis que respeitem o contexto das falas. A linguagem é modo de ordenação e sistematização de ideias. Há modos comunicativos inadequados, complexos em demasia e desconexos.
Nada pode ser lido de uma única e inequívoca forma. Há interpretações várias possíveis, mas há o contraproducente, inverídico e falacioso. Não é possível interpretar tudo de qualquer maneira.
Um texto ou fala podem ser submetidos a diversas possibilidades interpretativas. Os significados devem estar associados a percursos lógicos.
O texto encontra em seu autor uma intenção, mas a intepretação extravasa em possibilidades, porém há exegeses aceitáveis e, de outro lado, outras inaceitáveis, desconexas, retóricas, falaciosas e desarrazoadas que devem ser evitadas e inibidas.
Todo ato interpretativo deveria condicionar seu intérprete a restrições lógicas, já que as compreensões podem se efetivar de várias formas. O leitor de um texto, por exemplo, deve tentar compreender sua mensagem e captar quais interpretações são legítimas, válidas e possíveis.
A intenção do autor importa, mas o destinatário do texto lê seu conteúdo também comparando seus significados com o tempo histórico em que vive e a carga de valores deste.
Há ordenações fixas de significados e outras sujeitas a uma pluralidade de significações. Para ter repertório de compreensão é indispensável a leitura e a observação.
O pensamento pode se externalizar pela fala. A oralidade se perfaz com símbolos, metáforas, nomeia objetos e sentimentos.
Enfim, se comunicar, ler e entender fatos e vivências são atos complexos, que envolvem signos, conhecimento de um idioma e sua gramática, sínteses, contextos e interpretações. Eis o desafio: compreender os fatos, apreender o sentido do mundo, comunicar de modo claro e compreensível as ideias e pensamentos.
*Doutora, Mestra e Especialista em Direito pela UFMG. Cursou Residência Pós-doutoral pela UFMG com financiamento público da FAPEMIG. Professora Universitária. Autodidata na arte da vida e da pintura.

