Créditos: Divulgação
02-06-2026 às 16h38
Carolina Lara*
A saúde mental ganhou peso definitivo nas decisões profissionais da Geração Z e passou a pressionar empresas a rever práticas de liderança, cultura organizacional e políticas internas. Levantamento global da Deloitte divulgado em 2025 mostra que o bem-estar psicológico está entre as principais prioridades dessa geração no ambiente de trabalho, enquanto uma parcela relevante afirma que o emprego contribui diretamente para níveis elevados de estresse. Nesse contexto, empresas que tratam a pauta como secundária começam a perder competitividade na disputa por talentos.
Para Jéssica Palin Martins, psicóloga, advogada, especialista em saúde mental corporativa e fundadora da IntegraMente, a mudança não representa uma tendência passageira, mas uma transformação estrutural na relação entre empresas e profissionais mais jovens. “A Geração Z não separa desempenho de saúde emocional. Se o ambiente gera insegurança psicológica, falta de escuta ou incoerência entre discurso e prática, a desconexão acontece rapidamente”, afirma.
A discussão ganhou ainda mais relevância após mudanças regulatórias recentes. A Lei nº 14.831/2024 instituiu o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, criando critérios para reconhecer organizações com políticas estruturadas de promoção do bem-estar emocional. Em paralelo, a Portaria nº 1.419/2024 do Ministério do Trabalho atualizou a NR-1 e reforçou a necessidade de gestão de riscos psicossociais no ambiente corporativo.
Saúde emocional entra no centro da gestão
A entrada mais intensa da Geração Z no mercado coincide com uma mudança prática na forma como as empresas precisam pensar na retenção. Benefícios tradicionais continuam relevantes, mas deixaram de ser suficientes diante de demandas ligadas a propósito, equilíbrio emocional, transparência e relações de trabalho mais saudáveis.
Segundo Jéssica, muitos desligamentos silenciosos começam antes do pedido formal de demissão. “A empresa percebe queda de produtividade, afastamento emocional e desengajamento, mas muitas vezes interpreta isso como falta de comprometimento, quando o problema está na cultura interna ou na forma de liderança.”
A especialista afirma que ambientes emocionalmente seguros não significam ausência de cobrança, mas estruturas em que profissionais consigam se posicionar, errar, pedir ajuda e participar sem medo de retaliação. “Segurança psicológica não reduz performance. Pelo contrário. Equipes que se sentem seguras tendem a colaborar melhor, inovar mais e permanecer por mais tempo.”
Pressão geracional acelera revisão das lideranças
A chegada dessa nova geração também expõe fragilidades em modelos hierárquicos tradicionais. Lideranças autoritárias, comunicação inconsistente e falta de clareza sobre expectativas tendem a gerar rejeição mais rápida entre jovens profissionais.
Para Jéssica, a resposta empresarial precisa ir além de campanhas internas de bem-estar. “Não adianta criar ações pontuais se o cotidiano continua emocionalmente hostil. O cuidado precisa estar incorporado à gestão, às lideranças e aos processos de tomada de decisão.”
Ela observa que empresas mais preparadas já passaram a investir em diagnósticos organizacionais, mapeamento psicossocial e desenvolvimento de gestores com foco em comunicação e inteligência emocional.
Competitividade também passa pela reputação empregadora
A percepção externa sobre como uma empresa trata seus colaboradores passou a influenciar diretamente sua capacidade de atrair talentos. “Essa geração pesquisa cultura, acompanha reputação e observa coerência. O discurso institucional precisa corresponder à experiência real de quem trabalha ali. Quando isso não acontece, a perda não é apenas de talentos, mas de credibilidade”, afirma Jéssica.
Para empresas brasileiras, a discussão sobre saúde mental deixa de ocupar espaço periférico no RH e passa a integrar estratégia de negócios, especialmente em um momento em que retenção, produtividade e reputação caminham de forma cada vez mais conectada.
Sobre Jéssica Palin
Jéssica Palin Martins é advogada, psicóloga e especialista em saúde mental no ambiente corporativo, graduada em Direito pela Universidade Paulista (UNIP) e em Psicologia pelo Centro Universitário do Norte Paulista (UNORP), mestre em Direito pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários (IBET) e especialista em Intervenção Familiar Sistêmica pela pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, FAMERP .
Fundadora da IntegraMente, desenvolveu uma metodologia que combina testes psicológicos validados com planos de ação estratégicos para lideranças e RHs. Sua atuação tem como foco no gerenciamento de riscos ocupacionais deve abranger os riscos que decorrem dos agentes físicos, químicos, biológicos, riscos de acidentes e riscos relacionados aos fatores ergonômicos, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.
Seu trabalho ganhou relevância especialmente após a publicação da Lei 14.831/2024, que instituiu o Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental. A norma, já aprovada e aguardando regulamentação, estabelece critérios claros para a promoção da saúde emocional no trabalho.
Paralelamente, a Portaria nº 1.419 do Ministério do Trabalho e Emprego, publicada em 27 de agosto de 2024 (DOU de 28 28/08/2024 – Seção 1), que aprova a nova redação do capítulo “1.5 Gerenciamento de Riscos Ocupacionais” e altera o “Anexo I – Termos e definições” da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) que incluiu oficialmente os fatores psicossociais como riscos ocupacionais, reforçando a necessidade de estratégias corporativas de prevenção.
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