Capa de "Os Carliadas" (à dir) autobiografia em versos de Carlos Domingos Mota Coelho - créditos: Carlos Mota
03-06-2026 às 07h40
Por Carlos de Dona Elisa de Zé Durval Coelho*
Nos livros de seu cartório, minha mãe, uma exímia calígrafa, escrevia com assombrosa perfeição, mas como memorialista que foi, a sua letra era minimalista, numa estratégia de espantar a nossa curiosidade acerca do que ela dizia naquele seu escrever ao longo do dia.
Ela nos legou baús com o diário que ela começou a escrever na década de 1930, assim que se alfabetizou, e só parou oitenta e três anos depois, quinze dias antes de falecer em 2013.
Ela, pressentindo que ia morrer, nos chamou, os seus dez filhos à altura vivos, teceu várias considerações acerca de sua “pos mortem”, sobretudo para que o seu inventário transcorresse sem brigas, nomeou inventariante a minha irmã Santinha, transferiu para ela os seus saldos bancários, pegou o último bloco do diário e escreveu, não com aquelas letrinhas quase invisíveis de tantas décadas, mas em letras enormes, a palavra FIM!
Vários anos passados e ninguém até hoje ousou abrir os baús e ler o que ela tanto escreveu, não por temer que tais escritos pudessem revelar algo que depusesse contra a sua ilibada reputação de esposa, mãe de doze filhos, por ela criados, embora trabalhando em seu cartório e na loja de meu pai.
A não ser suas idas ao cartório e à igreja ou eventualmente visitando parentes e pessoas enfermas, mamãe não saia de casa, não ia aos bailes do clube da cidade, não brincava Carnaval, nem tomava banhos de rio, passatempos preferidos do povo de Minas Novas, e como detestava fofocas e mexericos, com certeza os seus escritos passam ao largo disso!
Reclusa, todavia, em sua casa, mamãe adorava visitas, pois em nossa sala de jantar a mesa permanecia posta do amanhecer até altas horas da noite, nela se sentando pobres e ricos.
No subsolo de nossa casa, mamãe mandou construir um salão de festas, a princípio para sediar os nossos aniversários, bem assim as nossas reuniões políticas, mas ele virou o célebre Bar Quintal, com palco sonorizado e tudo, onde inclusive se apresentou por vários dias Paulinho Pedra Azul, bem como Rubinho do Vale, além de centenas de artistas locais e da região.
E o espaço cultural e social é até hoje disponibilizado para vários eventos em Minas Novas, numa espécie de centro de convenções da cidade.
Madrinha de batismo ou de casamento de centenas de conterrâneos, toda aquela sua extensa rede social real fez o meu irmão Felipe se tornar vice-prefeito várias vezes, também prefeito, e eu me eleger deputado federal, embora ela fosse alérgica a disputar eleições.
Mas leitora de livros, jornais, revistas e antenada em noticiosos de rádio, presume-se que a sua escrita refletia o que vinha dessas mídias, mas por suposto ela também narrava o seu quotidiano particular e até incorria em ficções e poesias, mas é nosso desejo – como foi o dela – que todo esse tesouro atravesse muito tempo sem que nós, os seus filhos, e os seus mais de cem netos, bisnetos e tataranetos ousem o espiolhar.
Mas por fim, mamãe não teria sido o que foi, sem um marido e companheiro como o meu pai, que nunca a subjugou ou levantou a voz para ela, uma esposa absolutamente dona de seu nariz, em meio a um Brasil misógino, machista e até pródigo em feminicídios, e ela teve por ele uma paixão que continuou após a sua morte precoce, se tornando uma relativamente jovem viúva aos quarenta e nove anos de idade, e com cinco filhos menores para criar!
E ai de quem a sugerisse novo casamento, pois, embora mansa, a sua tamanca iria troar na cacunda do abusado!
*Carlos Mota é procurador federal, ex-deputado federal, escritor, membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

