09-10-2026 às 10h40
Por Samuel Arruda – Direto de Divinópolis MG
Cleitinho Azevedo (Republicanos) venceu a eleição para o governo de Minas Gerais no domingo, 4 de outubro, com 55,40% dos votos válidos e mais de 6,3 milhões de votos. Na primeira semana após a vitória, o senador começou a apresentar as prioridades de sua futura gestão e a reforçar o discurso que o levou ao Palácio Tiradentes: combate aos privilégios políticos, redução de impostos, valorização dos trabalhadores e aproximação com a população.
As primeiras declarações indicam que Cleitinho pretende preservar o estilo direto e popular que marcou sua trajetória política. Ao mesmo tempo, suas falas colocam em evidência uma questão que acompanhará o governador eleito até a posse, prevista para janeiro de 2027: como transformar promessas de campanha em medidas concretas para um estado com desafios fiscais, problemas de infraestrutura e demandas crescentes por saúde e segurança pública.
O que agrada: menos privilégios e mais dinheiro no bolso
Um dos principais pontos de identificação entre Cleitinho e seu eleitorado é a crítica à distância entre a classe política e a vida cotidiana dos cidadãos. A imagem de alguém que começou a trabalhar no comércio de hortifrúti, antes de entrar na política, é parte importante dessa narrativa.
Após a vitória, o governador eleito afirmou que não fez acordos ou conchavos para garantir cargos no futuro governo. Em entrevista à Rádio Itatiaia, no dia 5 de outubro, também defendeu a possibilidade de conversar com adversários políticos para aproveitar propostas que possam beneficiar Minas Gerais.
A mensagem tem potencial para agradar eleitores cansados das negociações partidárias tradicionais. A disposição de dialogar com diferentes grupos, mesmo depois de uma campanha marcada por ataques, também pode reforçar a imagem de independência que Cleitinho procura construir.
Outra promessa com apelo popular é a redução do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). Em entrevista ao jornal O TEMPO, no dia 5, Cleitinho apontou a diminuição da alíquota entre as prioridades de seu governo.
Para quem depende do carro ou da motocicleta para trabalhar, reduzir o imposto pode representar um alívio no orçamento familiar. A proposta, entretanto, precisará ser acompanhada de explicações sobre seu impacto na arrecadação estadual e sobre como o governo pretende compensar eventuais perdas de receita.
A renegociação da dívida de Minas Gerais com a União também foi apresentada como prioridade. Segundo Cleitinho, uma das primeiras iniciativas será conversar com o presidente da República eleito para buscar condições mais favoráveis para o estado.
A questão é decisiva: sem uma solução fiscal sustentável, o espaço para ampliar investimentos e atender às demandas da população pode ficar limitado.
O trabalhador entra no centro do discurso
Na quinta-feira, 8 de outubro, Cleitinho voltou a defender o fim da escala de trabalho 6 por 1, na qual o trabalhador cumpre seis dias de serviço para ter um de descanso.
Em entrevista ao Canal UOL, o governador eleito afirmou que pretende apoiar a votação da proposta enquanto ainda exerce o mandato de senador. Ele também declarou que continuará pressionando pela medida caso ela não seja aprovada antes de sua posse.
O posicionamento tem potencial para aproximá-lo de trabalhadores do comércio, dos serviços e de outras atividades que funcionam aos fins de semana. A defesa de mais tempo para a família e para o descanso é uma pauta de impacto direto na rotina de milhões de brasileiros.
O tema, porém, também expõe uma diferença importante entre discurso e atribuições institucionais. A mudança na jornada de trabalho depende de decisões no âmbito federal, e não apenas do governo de Minas Gerais. Cleitinho poderá apoiar a proposta politicamente, mas não terá poder para implementá-la sozinho como governador.
A pauta também o colocou em uma situação politicamente delicada: ele defende o fim da escala 6 por 1, enquanto Flávio Bolsonaro, seu aliado na disputa presidencial, é contrário à proposta. Cleitinho afirmou que o senador lhe garantiu apoio à votação da medida caso ela chegue ao plenário.
A divergência pode agradar quem espera que o governador eleito mantenha autonomia em relação às alianças políticas. Por outro lado, também poderá gerar questionamentos sobre a consistência de seus apoios e a capacidade de conciliar posições diferentes dentro do próprio campo político.
O que pode desagradar: promessas sem explicações suficientes
Se a linguagem simples e a postura de enfrentamento aproximam Cleitinho de parte da população, elas também alimentam questionamentos sobre a profundidade de suas propostas.
A principal dúvida não é se reduzir impostos ou melhorar os serviços públicos são objetivos desejáveis. É como fazer isso diante das limitações financeiras do estado.
A dívida bilionária de Minas com a União, as necessidades de investimento em estradas e a pressão sobre os serviços de saúde exigem decisões técnicas, negociação política e definição de prioridades. Reduzir receitas e, simultaneamente, ampliar despesas sem apresentar compensações pode tornar o planejamento fiscal mais difícil.
Até aqui, as declarações iniciais apontam direções, mas ainda será necessário conhecer o desenho detalhado das medidas, seus custos e os prazos de execução.
A experiência administrativa é outra questão que pode dividir opiniões. Antes de ser eleito governador, Cleitinho foi vereador, deputado estadual e senador. Sua trajetória legislativa lhe deu visibilidade política, mas governar um estado exige administrar orçamento, servidores, contratos, hospitais, escolas, forças de segurança e uma extensa rede de serviços públicos.
Durante a campanha, adversários questionaram sua preparação para o Executivo. Agora, a cobrança tende a mudar de natureza: mais do que responder às críticas dos concorrentes, ele precisará demonstrar que consegue montar uma equipe qualificada e transformar suas prioridades em políticas públicas.
A imagem de renovação e o desafio da conciliação
No discurso após a vitória, Cleitinho prometeu governar para todos os mineiros, inclusive para quem não votou nele. Também afirmou que pretende contribuir para a pacificação política.
A promessa é relevante porque os 55,40% dos votos válidos representam uma vitória expressiva, mas não eliminam a existência de uma parcela do eleitorado que escolheu outros candidatos ou não votou nele.
O governador eleito também declarou que não descarta conversar com nomes que estiveram em campos adversários durante a campanha, desde que as conversas possam contribuir para a administração estadual. Essa abertura pode facilitar a construção de uma base política e a aprovação de projetos na Assembleia Legislativa.
O risco está em como essa disposição será colocada em prática. Se o diálogo resultar em uma equipe tecnicamente preparada e em decisões transparentes, poderá fortalecer o governo. Se as escolhas parecerem contradizer o discurso contra os conchavos, a promessa de renovação poderá ser colocada em dúvida.
Redes sociais, popularidade e cobranças
Cleitinho construiu parte expressiva de sua projeção pública com vídeos, linguagem coloquial e comunicação direta nas redes sociais. Esse estilo ajudou a consolidar sua imagem de político próximo das pessoas comuns.
Na primeira semana após a eleição, porém, a comunicação pública passa a cumprir outra função. Além de manter a conexão com os eleitores, precisará informar decisões, explicar medidas e dar respostas a problemas concretos.
O interesse provocado por declarações e publicações não deve ser confundido com aprovação geral. Sem pesquisas específicas de avaliação realizadas depois da eleição, não é possível afirmar com segurança quais falas agradaram ou desagradaram à maioria dos mineiros. É possível identificar, entretanto, os grupos potencialmente beneficiados pelas propostas e os pontos que podem provocar resistência.
Trabalhadores favoráveis ao fim da escala 6 por 1, motoristas interessados na redução do IPVA e eleitores críticos dos privilégios políticos podem se identificar com as primeiras mensagens. Já cidadãos preocupados com a sustentabilidade das contas públicas, com a qualidade da equipe de governo ou com a viabilidade das promessas podem cobrar explicações mais detalhadas.
O teste começa antes da posse
A primeira semana de Cleitinho como governador eleito ainda é marcada pela continuidade do discurso de campanha. Redução de impostos, renegociação da dívida, melhoria da saúde e dos investimentos em infraestrutura formam o núcleo das prioridades anunciadas.
A próxima etapa será converter essas intenções em um plano de governo executável, com metas, orçamento, responsáveis e prazos. A escolha dos secretários, a relação com a Assembleia Legislativa e a capacidade de negociar com o governo federal estarão entre os primeiros indicadores da direção que sua administração pretende seguir.
Cleitinho chega ao governo com uma vitória expressiva e uma imagem política construída sobre a promessa de representar quem se sente distante do poder. Isso lhe dá capital político para iniciar a gestão, mas também eleva as expectativas.
A pergunta que fica para os mineiros não é apenas se o governador eleito continuará falando a linguagem do povo. É se conseguirá fazer com que essa linguagem se traduza em resultados.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

