16-10-2026 às 10h28
Antenor Viera Salgado*
Esse debate está sendo considerado um confronto decisivo para o eleitor. Dessa forma, a corrida presidencial entra na etapa final mais importante.
Depois de anunciar que não pretendia participar do debate da TV Bandeirantes, o senador Flávio Bolsonaro (PL) voltou atrás e confirmou sua presença nesta quarta-feira (14). A mudança ocorreu após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmar que compareceria ao encontro.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Flávio afirmou que sua intenção era estimular Lula a confirmar a participação. Também prometeu confrontar o adversário com aquilo que considera serem as verdades sobre o governo petista. A confirmação encerrou, ao menos por enquanto, a incerteza sobre a presença dos dois candidatos no encontro. O debate está marcado para domingo, 18 de outubro, às 20h, com transmissão da Band e participação de outros veículos, entre eles a Jovem Pan.
O episódio inicial já oferece um elemento para análise: em uma eleição polarizada, até a decisão de comparecer a um debate pode se transformar em um teste de estratégia, credibilidade e disposição para prestar contas ao eleitor.
A questão central, entretanto, não deve ser saber qual candidato conseguirá provocar mais o adversário ou produzir a frase mais comentada nas redes sociais. O que importa é verificar quem estará mais preparado para explicar suas propostas, responder a perguntas difíceis e demonstrar como pretende governar o país.
Para o cidadão que ainda não decidiu seu voto, o debate representa uma oportunidade de avaliar não apenas o que cada candidato promete, mas também como reage quando precisa defender suas posições diante de um adversário.
O que os brasileiros devem observar
Há pelo menos quatro aspectos que merecem atenção especial durante o confronto.
O primeiro é a consistência das propostas. Prometer crescimento econômico, segurança pública, melhoria da saúde e educação é relativamente fácil. Mais difícil é explicar como essas metas serão alcançadas, quanto custarão, de onde virão os recursos e quais resultados poderão ser cobrados da administração federal.
O segundo aspecto é a capacidade de responder diretamente às perguntas. Um candidato pode demonstrar desenvoltura diante das câmeras e, ainda assim, evitar o assunto principal. Quando uma pergunta sobre economia recebe como resposta uma acusação sobre corrupção, ou quando uma questão sobre segurança é desviada para uma discussão ideológica, o eleitor precisa perceber que a pergunta original permaneceu sem resposta.
O terceiro ponto é a qualidade dos argumentos. Acusações contra adversários podem fazer parte do confronto político, sobretudo quando envolvem fatos relevantes para a administração pública. Entretanto, acusações graves precisam ser acompanhadas de informações verificáveis. Uma declaração repetida com convicção não se transforma automaticamente em verdade.
O quarto aspecto é o comportamento. Interrupções constantes, ataques pessoais, ironias e tentativas de desqualificar o oponente podem produzir momentos de repercussão nas redes sociais. Mas também podem prejudicar a compreensão das propostas e transmitir a impressão de que o candidato está mais preocupado em vencer uma discussão do que em esclarecer o eleitor.
Isso não significa que um presidenciável deva evitar o confronto. Um debate sem divergências seria pouco útil. A diferença está entre contestar com firmeza as ideias do adversário e substituir a discussão política por uma sequência de provocações.
O eleitor deve observar, portanto, não apenas quem fala melhor, mas quem consegue sustentar o que diz.
Lula e Flávio: quem tem mais a perder?
A pergunta sobre qual candidato poderá ser mais prejudicado pelo próprio comportamento não tem uma resposta absoluta. O risco depende do que cada um precisa demonstrar, das expectativas do eleitorado e da maneira como se comportará diante das perguntas e críticas.
No caso de Flávio Bolsonaro, o desafio é apresentar uma identidade política própria, além da associação com o ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador precisa demonstrar que tem propostas consistentes para governar o país e capacidade para responder a questões que ultrapassem os temas tradicionais de sua base eleitoral.
O analista político Beto Vasques, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), apontou anteriormente uma desvantagem potencial para Flávio em caso de ausência nos debates. Em análise publicada pelo UOL, em agosto, Vasques relatou que participantes de grupos focais consideravam Lula mais conhecido e demonstravam interesse em ouvir as propostas do senador. Na avaliação apresentada pelo analista, faltar poderia prejudicar mais Flávio justamente porque ele ainda precisava se apresentar ao eleitorado.
A confirmação de presença muda essa situação: Flávio passa a ter a oportunidade de mostrar suas propostas diretamente ao público. Em contrapartida, aumenta sua exposição a perguntas sobre sua trajetória, suas posições políticas e os compromissos que pretende assumir caso seja eleito.
Se recorrer predominantemente a ataques contra Lula, sem explicar como pretende governar, poderá desperdiçar uma oportunidade importante. Se conseguir apresentar propostas concretas, responder às críticas com dados verificáveis e manter o controle emocional, poderá fortalecer sua imagem de candidato preparado para a Presidência.
Para Lula, o desafio é diferente. Como presidente e figura política conhecida nacionalmente, ele tem a vantagem da experiência no Executivo, mas também carrega a responsabilidade de prestar contas de sua administração.
O eleitor poderá cobrar explicações sobre a situação econômica, o poder de compra das famílias, a segurança pública, os serviços de saúde, a educação e os resultados das políticas implementadas pelo governo. Também poderá questionar promessas ainda não cumpridas ou decisões que tenham provocado controvérsia.
Lula corre o risco de prejudicar a própria candidatura se tratar as críticas como ataques pessoais, evitar respostas objetivas ou confiar excessivamente em sua experiência política. A familiaridade do eleitorado com sua trajetória não elimina a necessidade de apresentar resultados e justificar decisões.
Por outro lado, se conseguir demonstrar o que realizou, reconhecer dificuldades e explicar como pretende enfrentar os problemas que permanecem, poderá transformar a experiência administrativa em um argumento favorável.
Em síntese, Flávio precisa demonstrar capacidade para assumir o governo; Lula precisa demonstrar por que merece continuar nele. São desafios distintos, e cada um exige uma estratégia compatível com a posição que ocupa na disputa.
O que dizem os especialistas sobre o comportamento nos debates
A análise dos debates eleitorais não deve se limitar à impressão pessoal de quem pareceu mais simpático ou mais agressivo. Pesquisadores da comunicação política e da ciência política estudam como os candidatos utilizam argumentos, ataques, defesas e recursos de linguagem para conquistar a atenção do eleitor.
Uma pesquisa acadêmica de Fernanda Cavassana de Carvalho, Andressa Butture Kniess e Rafaela Mazurechen Sinderski, publicada em 2019 na Revista de Estudios Brasileños, examinou 795 intervenções de candidatos em sete debates presidenciais transmitidos pela televisão durante a eleição brasileira de 2018. O estudo identificou a presença expressiva de estratégias de ataque e defesa, com ataques frequentemente dirigidos às características políticas dos adversários. (Estudo acadêmico)
O trabalho ajuda a compreender uma característica recorrente das campanhas: candidatos não disputam apenas a preferência do eleitor por suas propostas; também procuram enfraquecer a imagem do adversário.
Entretanto, atacar não é necessariamente um erro. Questionar a coerência de uma promessa, apontar contradições ou cobrar explicações sobre decisões públicas faz parte do debate democrático. O problema surge quando o ataque substitui a argumentação ou quando acusações são apresentadas sem evidências suficientes.
Em reportagem publicada em setembro de 2026, o UOL reuniu avaliações de especialistas sobre a relevância dos debates. O cientista político Elias Tavares descreveu o confronto televisivo como uma espécie de teste de estresse das candidaturas: diante de perguntas inesperadas, tornam-se mais visíveis características como equilíbrio, improvisação e comunicação não verbal. O analista Beto Vasques também destacou a possibilidade de os debates influenciarem eleitores cuja decisão ainda não está consolidada.
Essa perspectiva permite estabelecer uma distinção importante: o candidato mais agressivo não é necessariamente o mais convincente, assim como o candidato mais calmo não é necessariamente o mais preparado.
A avaliação precisa considerar o conteúdo das respostas, a capacidade de argumentação e a correspondência entre aquilo que o candidato afirma e os fatos disponíveis.
É possível, por exemplo, que um candidato eleve a voz para enfatizar uma crítica legítima. Isso, isoladamente, não torna seu comportamento prejudicial. Da mesma forma, alguém pode manter um tom sereno enquanto evita deliberadamente responder à pergunta.
O critério mais útil é verificar se o comportamento contribui para esclarecer os assuntos em discussão ou se serve para desviar a atenção deles.
Qual comportamento é mais prejudicial: o de Lula ou o de Flávio?
A resposta mais equilibrada é que não existe um comportamento prejudicial exclusivamente a um dos candidatos. Existem riscos diferentes, de acordo com a posição política, a trajetória e as expectativas que recaem sobre cada um.
No caso de Flávio Bolsonaro, três comportamentos podem ser especialmente prejudiciais:
- Excesso de agressividade: transformar o confronto em uma sucessão de provocações pode reforçar a percepção de que o candidato está mais preocupado em atacar Lula do que em apresentar seu próprio projeto.
- Falta de respostas concretas: recorrer a slogans ou acusações sem explicar propostas econômicas, sociais e administrativas pode ampliar dúvidas sobre sua preparação para governar.
- Contradições não esclarecidas: mudar de posição sem apresentar uma justificativa convincente pode gerar questionamentos sobre sua previsibilidade e credibilidade.
No caso de Lula, os principais riscos são igualmente identificáveis:
- Excesso de confiança na experiência: ocupar a Presidência não dispensa o candidato de responder às críticas sobre sua gestão e apresentar resultados verificáveis.
- Desviar perguntas incômodas: responder com críticas ao adversário sem esclarecer o tema questionado pode transmitir uma imagem de evasão.
- Tratar divergências como ataques pessoais: uma postura excessivamente defensiva pode dificultar a apresentação dos argumentos e transmitir irritação diante do contraditório.
Há, porém, uma diferença relevante entre os dois casos. Flávio precisa aproveitar o debate para consolidar sua imagem como candidato presidencial. Lula, por sua vez, precisa defender seu histórico de governo e convencer o eleitor de que merece um novo mandato.
Isso significa que um desempenho ruim pode produzir consequências diferentes. Uma resposta fraca de Flávio sobre temas fundamentais pode alimentar dúvidas sobre sua experiência e capacidade administrativa. Uma resposta insatisfatória de Lula sobre os resultados de seu governo pode enfraquecer o argumento de que a continuidade é a melhor escolha para o país.
Não é possível determinar antecipadamente qual desses riscos terá maior impacto. Isso dependerá dos temas abordados, da qualidade das respostas, das evidências apresentadas e da maneira como os eleitores interpretarão o confronto.
A armadilha das frases de efeito
Um dos desafios do debate de domingo será evitar que a disputa seja reduzida a pequenos trechos destinados a circular nas redes sociais.
Uma frase contundente pode resumir uma crítica legítima e ajudar o eleitor a compreender uma divergência. Mas também pode retirar uma declaração de contexto, exagerar uma acusação ou criar a impressão de que um candidato venceu apenas porque conseguiu constranger o adversário.
A dinâmica digital favorece mensagens curtas, emocionais e fáceis de compartilhar. Por isso, os candidatos podem ser tentados a formular respostas pensando menos no esclarecimento do público e mais na repercussão posterior.
Para o eleitor, a melhor defesa contra esse problema é acompanhar o debate completo sempre que possível e consultar a íntegra das declarações que pareçam controversas.
Também é importante distinguir três situações: uma promessa ainda não cumprida, uma divergência legítima de interpretação e uma afirmação factual que pode ser verificada. Cada uma exige uma avaliação diferente.
Um candidato não deve ser considerado desonesto simplesmente porque discorda de seu adversário. Da mesma forma, uma acusação não deve ser aceita como verdadeira apenas porque foi apresentada com segurança ou repetida por apoiadores.
O que realmente estará em jogo no domingo
O debate da Band, com transmissão também pela Jovem Pan e por outros veículos parceiros, está marcado para 18 de outubro, às 20h. Será uma oportunidade particularmente importante porque os dois candidatos não participaram de nenhum debate no primeiro turno, segundo a cobertura da Folha de S.Paulo sobre o encontro.
O confronto deverá permitir uma comparação mais direta entre as candidaturas, sobretudo em questões nas quais o eleitor ainda tenha dúvidas. A expectativa é que os candidatos procurem explorar as fragilidades do adversário, defender suas próprias propostas e produzir argumentos capazes de repercutir até a votação do segundo turno.
Mas o resultado político do debate não será definido apenas pelo número de ataques bem-sucedidos ou pela quantidade de frases que viralizarem.
O eleitor precisará avaliar se as propostas são viáveis, se as críticas têm fundamento, se as respostas são completas e se os candidatos demonstram condições de lidar com situações de pressão.
Também será necessário considerar que um debate isolado não oferece uma visão completa de uma candidatura. A avaliação deve ser complementada pela análise dos programas de governo, do histórico dos candidatos e das informações verificáveis sobre suas declarações e decisões.
Conclusão: menos espetáculo, mais responsabilidade
O Brasil não precisa que seus presidenciáveis concordem sobre tudo. Divergências sobre economia, segurança, políticas sociais, instituições e prioridades nacionais são naturais e necessárias em uma democracia.
O que o eleitor deve exigir é que essas divergências sejam apresentadas com argumentos, responsabilidade e respeito às regras do debate público.
Flávio Bolsonaro terá a oportunidade de mostrar que possui propostas próprias e preparo para assumir a Presidência. Lula poderá demonstrar que sua experiência administrativa é acompanhada de resultados e de capacidade para responder às críticas.
Ambos poderão se beneficiar de um confronto firme, desde que não confundam firmeza com hostilidade nem estratégia com evasão.
Se Flávio recorrer excessivamente a ataques pessoais, poderá reforçar dúvidas sobre sua capacidade de apresentar um projeto de governo. Se Lula evitar perguntas difíceis ou se apoiar apenas na experiência acumulada, poderá enfraquecer sua defesa da continuidade administrativa.
O comportamento mais prejudicial, portanto, será aquele que impedir o eleitor de compreender o que cada candidato pretende fazer, como pretende fazer e por que suas propostas merecem confiança.
Ao final, a pergunta mais importante não será quem humilhou o adversário, quem falou mais alto ou quem produziu a frase mais compartilhada. Será quem conseguiu oferecer respostas mais claras, argumentos mais consistentes e compromissos mais verificáveis.
É esse o padrão que melhor atende ao interesse público. E é por esse padrão, não pela intensidade dos aplausos ou das provocações, que os brasileiros deveriam avaliar o desempenho dos dois candidatos.
Nota editorial: este artigo distingue fatos noticiados de avaliações analíticas. As opiniões atribuídas aos especialistas são identificadas com suas respectivas fontes; as comparações sobre os possíveis erros de Lula e Flávio constituem análise prospectiva, e não previsões de comportamento ou de resultado eleitoral.
*Antenor Vieira Salgado é professor e analista politico

