Créditos: Reprodução/Band Minas
17-08-2026 às 12h17
Samuel Arruda*
Primeiro confronto entre os candidatos ao governo de Minas teve dívida do Estado, segurança pública, saúde, educação e impostos como principais temas; desempenho mostrou estilos distintos, mas faltou maior detalhamento sobre como as propostas seriam executadas
O primeiro debate entre os candidatos ao governo de Minas Gerais nas eleições de 2026, realizado pela Band neste domingo (16), serviu para colocar frente a frente cinco nomes que disputam espaço em uma corrida marcada pela fragmentação política: Alexandre Kalil (PDT), Cleitinho Azevedo (Republicanos), Flávio Roscoe (PL), Gabriel Azevedo (MDB) e o atual governador, Mateus Simões (PSD). O candidato do PT, Patrus Ananias, não participou do encontro porque estava em São Bernardo do Campo (SP), no lançamento da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
O debate teve como eixo principal problemas concretos de Minas, especialmente a situação fiscal do Estado. A dívida com a União, estimada em mais de R$ 180 bilhões, apareceu logo no início e voltou ao longo do programa. Também foram discutidos segurança pública, feminicídio, IPVA, saúde, educação, transporte por aplicativo, corrupção e privatizações.
Mas, além dos temas, o encontro permitiu perceber com mais clareza o estilo e a estratégia de cada candidato.
Mateus Simões: experiência administrativa, mas sob forte pressão
O governador Mateus Simões foi, desde os primeiros momentos, um dos principais alvos dos adversários. A estratégia era previsível: colocar o candidato à reeleição para responder pelos resultados da administração estadual e, ao mesmo tempo, associá-lo à gestão do ex-governador Romeu Zema.
Simões tentou fazer da experiência administrativa seu principal argumento eleitoral. Antes do debate, já havia afirmado que sua preparação e sua passagem pelo governo seriam diferenciais na disputa. Durante o encontro, defendeu a atuação de sua administração e criticou o governo federal, principalmente em relação à dívida de Minas e à demora para avançar com os ativos oferecidos no âmbito do Propag.
Sua performance transmitiu a imagem de alguém preparado para falar sobre a máquina pública, mas o fato de estar no governo também o colocou em uma posição naturalmente mais defensiva.
O momento mais tenso ocorreu quando Simões questionou Kalil sobre uma declaração relacionada ao feminicídio. Kalil reagiu de maneira dura, dizendo: “Você está em Nárnia?”. A troca colocou os dois em confronto direto e produziu um dos momentos mais marcantes da noite.
Impressão: Simões mostrou domínio da estrutura administrativa, mas ainda precisa transformar a defesa do governo em uma narrativa eleitoral mais convincente. O eleitor terá de decidir se sua experiência é suficiente para justificar a continuidade.
Alexandre Kalil: mais combativo e confortável no confronto
Kalil foi provavelmente o candidato que mais apostou no confronto direto. Em vez de adotar uma postura excessivamente protocolar, aproveitou os questionamentos para atacar a atual administração, especialmente na segurança pública.
Na discussão sobre feminicídio, desviou o foco da declaração que lhe foi apresentada por Simões e passou a criticar o que considera um sucateamento das forças de segurança. Segundo Kalil, Minas enfrenta déficit no efetivo policial e problemas de remuneração.
O candidato também atacou o acordo relacionado à dívida estadual, afirmando que as condições do Propag podem tornar Minas “ingovernável” e defendendo uma renegociação em Brasília.
Sua experiência como ex-prefeito de Belo Horizonte parece ter lhe dado segurança para o confronto político. Kalil mostrou que sabe ocupar espaço quando é provocado e tem facilidade para transformar uma pergunta em crítica ao adversário.
Impressão: foi um Kalil mais agressivo, político e experiente. O ponto que ficou faltando foi justamente aquilo que pode separar um bom debatedor de um candidato preparado para governar: explicar com maior profundidade como pretende colocar suas propostas em prática diante da crise financeira de Minas.
Cleitinho: discurso popular e tentativa de se apresentar como conciliador
Cleitinho chegou ao debate em uma posição diferente dos demais. Líder nas pesquisas de intenção de voto, segundo levantamentos recentes citados pela imprensa, ele precisava administrar uma situação curiosa: ao mesmo tempo em que tenta preservar seu discurso de oposição ao sistema político tradicional, precisa demonstrar capacidade para governar um Estado complexo e endividado.
Na discussão sobre a dívida, apresentou uma postura de negociação com o governo federal. Defendeu diálogo independentemente de quem ocupar a Presidência da República e falou em revisão de contratos, benefícios fiscais e despesas do Estado.
Esse talvez tenha sido seu principal mérito no debate: apresentar-se como alguém que pretende negociar, e não transformar a dívida em uma guerra política.
Por outro lado, justamente por ser líder nas pesquisas, era esperado que fosse mais pressionado a apresentar um projeto mais detalhado para Minas. O discurso de redução de impostos e revisão de gastos é eleitoralmente forte, mas exige respostas mais concretas quando se pergunta de onde virá o dinheiro para saúde, segurança, educação e infraestrutura.
Impressão: Cleitinho conseguiu preservar sua identidade política e seu discurso direto. O desafio é convencer o eleitor de que o estilo de senador combativo será suficiente para administrar uma máquina pública de grande complexidade.
Flávio Roscoe: discurso liberal e dificuldade de ocupar o centro do debate
Flávio Roscoe entrou no debate com uma característica muito clara: a defesa de uma agenda mais ligada ao setor produtivo, à economia e à redução do peso do Estado.
Sua presença também tem uma dimensão eleitoral importante. O candidato do PL disputa parte do eleitorado de direita que também é cortejado por Cleitinho e pelo próprio Mateus Simões. Antes do debate, a disputa pelo voto bolsonarista já era apontada como um dos elementos centrais da corrida mineira.
O problema é que, em um debate com cinco candidatos, defender princípios econômicos não basta. Era necessário mostrar ao eleitor como essa visão seria aplicada diante dos problemas cotidianos de Minas.
Impressão: Roscoe conseguiu marcar território ideológico, mas ainda precisa transformar sua identidade empresarial e liberal em uma mensagem política mais próxima das preocupações do eleitor comum.
Gabriel Azevedo: propostas e tentativa de fugir da polarização
Gabriel Azevedo adotou uma estratégia diferente. Antes do debate, havia deixado claro que pretendia evitar ataques pessoais e concentrar sua participação na apresentação de propostas.
Essa postura pode ser interessante em uma eleição marcada pela polarização nacional. Gabriel tentou ocupar um espaço de candidato disposto a conversar com diferentes forças políticas e a apresentar soluções sem transformar cada pergunta em uma guerra ideológica.
O risco, entretanto, é o oposto do enfrentado por Kalil: em um debate eleitoral, ser moderado demais pode fazer com que o candidato passe despercebido.
Impressão: Gabriel foi o mais identificado com a ideia de apresentar um plano e evitar o confronto pessoal. Faltou, porém, um momento mais contundente que o colocasse definitivamente no centro da disputa.
O grande ausente
Se houve uma ausência que pesou politicamente, foi a de Patrus Ananias.
O candidato do PT decidiu participar do lançamento da candidatura de Lula em São Bernardo do Campo no mesmo dia do debate. Formalmente, havia uma justificativa de agenda. Politicamente, entretanto, a ausência abriu espaço para que os adversários discutissem Minas sem a presença de um dos principais representantes do campo petista.
A ausência também impediu que o eleitor comparasse diretamente Patrus com Kalil, Simões, Cleitinho, Roscoe e Gabriel em temas como saúde, educação, segurança e relação com o governo federal.
O que faltou no debate?
Talvez a principal deficiência do encontro tenha sido a falta de detalhamento das propostas.
Os candidatos falaram bastante sobre a dívida, segurança, impostos, saúde e educação. Entretanto, muitas respostas ficaram no campo das intenções. O eleitor ouviu que é preciso renegociar a dívida, cortar gastos, melhorar a segurança, reduzir impostos e ampliar serviços públicos.
A pergunta que ficou sem resposta em vários momentos foi: quanto custa, de onde virá o dinheiro e em quanto tempo isso será feito?
Também faltou uma discussão mais aprofundada sobre desenvolvimento regional. Minas não é apenas Belo Horizonte e a Região Metropolitana. Um Estado com 853 municípios precisa discutir de maneira mais concreta as diferenças entre o Sul de Minas, Triângulo, Zona da Mata, Norte, Jequitinhonha, Mucuri e as regiões Central e Noroeste.
Outro tema que poderia ter recebido mais espaço é a geração de empregos de qualidade. A discussão econômica ficou muito concentrada em dívida, impostos e equilíbrio fiscal, quando o eleitor também precisa saber qual será a estratégia para industrialização, mineração, agronegócio, tecnologia, turismo e pequenas empresas.
Também faltou uma discussão mais objetiva sobre infraestrutura: rodovias, ferrovias, aeroportos regionais, saneamento e mobilidade.
Um debate que abre a disputa, mas não a define
O primeiro confronto mostrou que a eleição para o governo de Minas terá uma disputa bastante fragmentada. Há um candidato tentando defender a continuidade do governo, candidatos buscando se apresentar como alternativa, uma disputa pelo eleitorado de direita e a presença de nomes com diferentes experiências administrativas e políticas.
A principal conclusão, entretanto, não está em apontar um vencedor absoluto.
O debate mostrou que cada candidato conseguiu expor uma parte de sua identidade, mas nenhum deles respondeu completamente à pergunta que provavelmente será central durante toda a campanha: como governar Minas diante de uma dívida gigantesca, demandas crescentes por serviços públicos e necessidade de investimentos?
Simões tem a experiência do governo. Kalil tem experiência administrativa e mostrou força no confronto. Cleitinho tem popularidade e discurso direto. Roscoe representa uma agenda liberal ligada ao setor produtivo. Gabriel tenta ocupar um espaço mais moderado e propositivo.
Agora, a campanha começa de fato. E os próximos debates terão uma tarefa importante: sair do terreno das declarações gerais e obrigar os candidatos a colocar números, prazos e prioridades sobre a mesa.
É aí que o eleitor poderá começar a distinguir quem apenas fala como candidato de quem apresenta um projeto efetivamente viável para governar Minas Gerais.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

