Copa de 1970, seleção Tricampeã no México - créditos: IA DM
07-06-2026 às 15h40
Elzemar Junior*
O documentário que a Netflix lançou sobre a Copa de 70, realizada no México, é o suco do Brasil bem contado na história: Política, Futebol e Carnaval, amor, ódio e sensacionalismo. Dá até uma certa inveja na nossa “geração Z”, ainda mais no Brasil polarizado de hoje. Apesar de retratar Pelé como um cego inocente apoiador da ditadura e João Saldanha como o santo milagroso do time, o técnico comunista deu ao país uma seleção em pleno quinto ano da ditadura militar.
O então presidente Médici pediu para convocar o colossal Dadá Maravilha, e João Sem Medo — apelidado assim por ninguém menos que Nelson Rodrigues — foi questionado por jornalistas sobre se atenderia ao pedido. Ele respondeu com toda a sinceridade: “O presidente escala o ministério, e eu escalo a seleção.” O técnico foi demitido em meados de um ano antes da Copa que seria disputada no México.
Zagallo assumiu o time, odiado por boa parte do país, devido à campanha de Saldanha e à influência de jornais de esquerda que acreditavam que a política entrava em campo. Mesmo assim, Zagallo levou Dadá e montou o time que seria considerado o melhor que o mundo já viu. Com cinco camisas 10 — Pelé, Rivellino, Gérson, Tostão e Jairzinho — essa equipe era difícil até no bomba patch.
O jogo contra o Uruguai, na semifinal, foi a vingança de Pelé, que havia visto o pai chorar em 1950. Um dos hits da época era do gigante Wilson Simonal, com “Nem Vem Que Não Tem”. O conselho do grupo Fundo de Quintal animava e aliviava a pressão sobre os jogadores que seriam odiados e voltariam amados por 90 milhões de brasileiros, fazendo todos os haters se renderem ao que ali seria chamado de futebol-arte. A música símbolo do tricampeonato brasileiro e verdadeiro hino das comemorações da Copa de 70 foi “Pra Frente, Brasil”, composta por Miguel Gustavo. A Portela também não brincava com as lendas e mistérios da Amazônia.
Em meio à tortura e à opressão, tanto da direita quanto da esquerda, com uma seleção inicialmente odiada pela mídia — que refletia o sentimento da sociedade —, quando a bola rolava ninguém tirava os olhos da TV. As crônicas de Nelson Rodrigues sobre a final da Copa, nas quais ele cai de joelhos diante do esquadrão, diziam: “A conquista e os incrédulos no escrete nacional, sempre com sua pena sangrando de tintas fortes.” E, ao terminar, ele escreveu:
“Escreveu Nelson Rodrigues, na crônica Dragões de Espora e Penacho: ‘Amigos, foi a mais bela vitória do futebol mundial em todos os tempos. Desta vez, não há desculpas, não há dúvida, não há sofisma. Desde o paraíso, jamais houve um futebol como o nosso. Vocês se lembram do que os nossos “entendidos” diziam dos craques europeus, ao passo que nós éramos quase uns pernas-de-pau, quase uns cabeça-de-bagre. Se Napoleão tivesse sofrido as vaias que flagelaram o escrete, não ganharia nem batalhas de soldadinhos de chumbo.’”
E continua: “O otimista era visto, e revisto, como um débil mental… Não passa das quartas de final…” Não vou colocar a coluna inteira porque, de Nelson, você tem que saborear a obra por completo: À Sombra das Chuteiras Imortais, crônicas de futebol. Sem dúvidas, esse documentário tem um pezinho de lacração, mas mostra de forma quase real aquele espetáculo que o mundo viu e o talento das nove peças no tabuleiro tático do mestre Zagallo.
*Elzemar Junior é jornalista e comentarista esportio

