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17-07-2026 às 10h33
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
A comunicação é um processo que se estabelece como indispensável para viver em sociedade. Por meio desta, o homem intervém na própria realidade e na dos demais, isto porque, as vivências, compreensões de mundo, construções de pensamento, interações com o meio social e leituras dos fatos, tudo perpassa por formas comunicativas e se perfaz pela produção de uma narrativa.
A linguagem expressa também pensamentos e é o instrumental comunicativo por excelência. Através desta o homem se torna um ser social, mobiliza crenças, valores e hábitos.
A forma como se efetiva o jogo de palavras é elemento crucial para bem conduzir as relações humanas. Não se pode simplificar demais, descuidar das particularidades. É importante realizar explicações coerentes, demonstrar as premissas que estruturam a conclusão de uma fala e, desta feita, buscar realizar escolhas argumentativas racionais, a psique do indivíduo interfere no ato comunicativo. Também bem conduzir os argumentos é indispensável.
A linguagem pode refletir a realidade, o concreto, ser lógica, tratar do real e das transformações do mundo. Mas, seu contrário também ocorre podendo tratar do imaginário, das possibilidades não substanciadas. Para além, pode se criteriosa uma fala, bem estruturada, persuasiva ou meramente retórica. O discurso pode refletir o que o sujeito acredita e pretende ou esconder suas reais intenções.
A linguagem cotidiana apresenta desafios, pois por meio das proposições linguísticas se molda e representa a realidade. Forjam-se os discursos que buscam convencer os indivíduos de práticas sociais. Todos os sujeitos são marcados pelos desafios e questões de seu tempo histórico, angústias, valores, contextos e paradigmas.
Os discursos podem clarificar ou complicar a elucidação da mensagem, sua compreensão e entendimento a depender dos termos e palavras escolhidas para a transmissão da mensagem. A escolha pode se fazer por um vocabulário inteligível ou não.
Às vezes, discursos precedem as ações e as falas anunciam as práticas, as atitudes tomadas. Outras vezes, são palavras vazias, jogadas ao vento.
As pessoas por meio da linguagem revelam sua percepção de mundo que pode ser mais otimista ou pessimista e isto, se faz perceptível e refletido, em muitos momentos, nas falas.
Também, a verdade é complexa, pois é sempre inacabada e provisória, situada num tempo. As proposições tidas como verdadeiras, muitas vezes, estão ligadas a discursos de poder. Existem ainda proposições aceitas e acolhidas e outras rejeitadas, pois a mentalidade social e os valores de uma época acolhem ou repelem dicções linguísticas.
Existem técnicas e procedimentos linguísticos, discursivos para tornar a mensagem mais articulada, o que depende: da escolha dos argumentos, mensagem transmitida, sua concatenação lógica e racional, entonação da voz, ou seja, tudo importa para tornar algo mais verossímil, reconhecido e aceito.
A linguagem também orbita o imaginário das pessoas. É por meio desta que o indivíduo apreende e descreve, “recorta a realidade” de acordo com o horizonte que conhece, de que faz parte. Discursos são modos de representação e racionalização argumentativa sobre fatos, elocubrações ou possibilidades imaginativas, prospectivas.
A produção de falas reflete circunstâncias e intenções. A linguagem é um contrato aceito e inteligível entre as partes que permite comunicar uma mensagem, trocar pontos de vista e expor argumentos. Bem delinear a escolha das palavras antes do discurso é fundamental.
Num diálogo deve haver momentos de fala e de escuta. Há performances envolvidas na linguagem ao se propor sentidos, intenções e visões de mundo. A comunicação oral realiza discursos, provoca reflexões. Por meio de discussões se desencadeiam entendimentos ou discordâncias. A palavra dá autonomia ao sujeito.
A linguagem é ampla em possibilidades. Ela declara ou não o que pensa e sente o sujeito, pois há experiências linguísticas retóricas.
Pela linguagem os indivíduos representam papéis sociais, oportunizam a oitiva do outro com genuína abertura para mudança de opinião, acolhem os argumentos alheios ou os refutam no todo ou em parte.
O que é tido como verdade se transforma no tempo, em certa medida, pois nem tudo pode ser aceito ou é razoável. Há limites, ou deveria haver, na linguagem que produz e lê as práticas sociais. A formulação e afirmação de ideias deve se realizar de modo razoável, lógico e racional. É importante bem conduzir a transposição de teoria para realidade.
O conhecimento é fragmentado. Ninguém detém a verdade absoluta. Mas em tempos de pós-verdade, em que se perde o parâmetro de razoabilidade, a comunicação eficaz e em bases sólidas está fragilizada, pelo discurso do “eu acredito”, que refuta os fatos e dados e se move ancorado tão somente no terreno movediço das crenças.
O objeto da linguagem é uma comunicação eficaz, compreensível. O processo linguístico pressupõe transmitir uma mensagem através de escolhas argumentativas sólidas e, assim, objetiva-se informar, persuadir e convencer. Não impor argumentos, pois a discordância pode ser espaço de aprendizado e abertura para uma mentalidade diversa com pontos de vista diferentes e, por vezes, enriquecedores.
Que o sujeito possa escolher o que pretende concretizar. A existência não deixa de ser um projeto de vida. Ordenar a vida com objetivos e expectativas rumo a realização, instrumentalizando-se através da linguagem. Que saibam todos usar os argumentos para viver uma vida com mais qualidade, propósito e humanidade.
Enfim, as opiniões mais refinadas não brotam de imposições de discurso de poder. Ser um livre pensador é desafiador. Não tolher demais os próprios pontos de vista e visão de mundo, eis um desafio em tempos tão obtusos.
*Doutora, Mestra e Especialista em Direito pela UFMG. Cursou Residência Pós-Doutoral pela UFMG / FAPEMIG (2023-2025). Professora Universitária. Mineira, escorpiana, apaixonada pelo Direito, suas potencialidades e possibilidades. Aprendiz na arte da pintura e da vida.

