Créditos: Divulgação
09-05-2026 às 08h31
Anna Marchesini*
No Brasil, abrir empresa não é empreender. É fazer concurso público pra ser palhaço do sistema.
Primeiro vem a coragem. Jurar que vai gerar emprego, pagar imposto, fazer a roda girar. Aí se descobre que a roda é quadrada e o governo cobra pedágio em cada quina.
Marca-se na Junta Comercial. Leva-se certidão de nascimento, de casamento, de batismo e um fio de cabelo pra provar que existe. O atendente carimba, suspira e diz: “Agora vai no bombeiro”.
No bombeiro, o extintor está vencido. Na prefeitura, o alvará demora 6 meses. No contador, a guia já venceu. Mas o aluguel não espera. Ele é pontual brasileiro: chega todo dia 5.
Aí se entende as três leis do empreendedorismo nacional:
Ou se é corajoso: acorda cedo, dorme tarde, e reza pra fiscalização ter almoçado.
Ou se é maluco: paga imposto antes de vender, paga funcionário antes de faturar, paga contador pra explicar por que está pagando.
Ou se é corrupto: aí a porta abre. O “cafezinho” funciona. O alvará sai em 48h. E dorme-se mal, mas dorme-se rico.
Seis em cada dez fecham antes de cinco anos. As quatro que sobram viram estatística de herói no Jornal Nacional.
Tem quem tente ser corajoso no interior de Minas. Dá curso por entidade social. O órgão fiscalizador manda trocar de sala em 73 horas. Troca-se. Anos depois, vem cobrança de 10 mil por danos morais. O dono do primeiro espaço não gostou da mudança.
No Brasil, quem faz certo paga duas vezes. Quem faz errado parcela em 60.
Por isso, quando perguntam se vale a pena empreender, a resposta é: vale. Mas que se leve junto um contador, um terapeuta e um santo de devoção.
Porque aqui, CNPJ não é Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica.
É Certificado Nacional de Paciência Jó.
*Anna Marchesini é Educadora e Palestrante

