Créditos: Divulgação
08-05-2026 às 08h29
Anna Marchesini*
Tem 2,3 milhões de crianças de 0 a 3 anos fora da creche no Brasil. É uma Belo Horizonte inteira na fila de espera. Enquanto isso, a gente discute contingenciamento na universidade federal. Estamos trocando o alicerce pelo telhado.
O que a ciência já gritou e o orçamento não ouviu
90% das conexões cerebrais se formam até os 5 anos de idade. Até os 7, uma criança aprende mandarim ou inglês com a mesma facilidade da língua materna. Depois, a janela de oportunidade fecha. A neurociência já deu o diagnóstico. Só o orçamento insiste em ignorar.
O Brasil gasta R$ 38 mil por ano com cada universitário na rede federal e R$ 7 mil com cada bebê na creche pública. Cinco pra um. O Nobel de Economia James Heckman calculou: cada R$1 investido na primeira infância retorna até R$7 pra sociedade em menos gasto com saúde, segurança e mais produtividade. É o investimento público de maior retorno que existe.
O reflexo no ENEM começa no berçário
Quer nota alta no ENEM? Começa na creche. Dados do INEP mostram que aluno com educação infantil tem desempenho 12% maior no exame. Estudo com o SAEB 2021 confirma: quem fez pré-escola chega ao 9º ano com nota mais alta.
Cursinho não conserta 14 anos de defasagem. Ensino médio sem base é corrida com pneu furado. A gente cobra resultado do jovem de 17 anos, mas negou vaga pra ele aos 2.
O mapa do Brasil: onde dói mais
O Censo Escolar 2024 trouxe avanços: 4,2 milhões de crianças de 0 a 3 anos na creche, alta de 1,5%. 6 em cada 10 estão em tempo integral. Pela primeira vez, crianças negras são maioria: 40,2%.
Mas a Meta 1 do Plano Nacional de Educação mandava atender 50% das crianças até 2024. Batemos 37,9%. O déficit é de 2,3 milhões de vagas.
A desigualdade é regional. Enquanto o Sul tem redes com 45% de cobertura, o Norte mal passa de 20%. Em BH, a prefeitura ampliou vagas nos últimos anos, mas a fila persiste no Barreiro, Venda Nova e Norte. Onde tem creche, o IDEB futuro agradece.
Quem fez a lição de casa lá fora
Os países que lideram os rankings de educação inverteram a pirâmide antes da gente.
Finlândia: Educação infantil universal desde 1 ano. Professor de creche tem mestrado. Resultado: lidera o PISA e tem uma das menores desigualdades do mundo.
Coreia do Sul: Investiu pesado em creche e pré-escola nos anos 1980. Três décadas depois, virou potência. 96% das crianças de 3 a 5 anos estão na escola.
Noruega: Licença parental de 1 ano e creche garantida. Hoje tem IDH 2º do mundo.
Eles entenderam: universidade de excelência nasce no berçário. Harvard não corrige o que a creche não fez.
O falso dilema: creche vs universidade
Defender universidade pública é essencial. Cortar verba de federal é crime contra o futuro. Mas de que adianta UFMG de excelência se o menino do Aglomerado da Serra chegou analfabeto no 6º ano?
Se a meta é ter MIT brasileiro em 2040, a obra começa no CEMEI em 2026. Não é tirar da universidade. É parar de tratar creche como depósito e encarar como laboratório de nação.
O que fazer: dever de prefeitura, tarefa de país
A Constituição diz: creche é dever do município. Mas 60% das prefeituras não cumprem a meta do PNE. Falta dinheiro, técnico e prioridade.
Enquanto creche for gasto e não investimento, a fila anda. Precisamos de:
Fundeb turbinado pra 0-3 anos: hoje o peso é menor que o do ensino médio.
Carreira de professor de creche: salário e formação iguais aos dos anos iniciais.
Período integral com currículo: música, inglês, movimento e vínculo. Não é só cuidar. É educar.
O futuro tem 2 anos
País que quer médico, engenheiro e professor bom em 2040 precisa bancar fralda, soninho e roda de história em 2026.
A base é tudo. E a base do Brasil está no chão da creche. No colo da professora. Na fila de BH, de São Luís, de Porto Alegre.
Ou a gente constrói o alicerce agora, ou vai seguir discutindo telhado em prédio que não para em pé.
Anna Marchesini é Educadora e palestrante

