Créditos: Lorran Azevedo
29-10-2026 às 09h04
Adriana Roma*
Aprender a fazer malabarismo exige concentração e coordenação motora. Nos exercícios de acrobacia, é preciso respeitar os próprios limites e confiar nos colegas. Já nas aulas de balé, as crianças aprendem a acompanhar o ritmo da música, memorizar movimentos e trabalhar a expressão corporal. Essas experiências fazem parte do trabalho desenvolvido pela Lona das Artes, organização da sociedade civil localizada no bairro Padre Anchieta, em Campinas (SP), que utiliza diferentes linguagens artísticas para contribuir com o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Na instituição, as atividades culturais são planejadas para estimular habilidades motoras, cognitivas e sociais, respeitando a faixa etária e o ritmo de aprendizagem dos participantes. O trabalho tem como base uma metodologia socioeducativa que associa o ensino das artes à convivência em grupo, à disciplina e ao desenvolvimento da autonomia.
O circo ocupa um papel central nessa proposta. Por meio de exercícios de equilíbrio, acrobacia, malabarismo e jogos cooperativos, os participantes são incentivados a superar dificuldades, trabalhar em equipe e compreender a importância do respeito ao próximo. As atividades também criam situações em que precisam tomar decisões, lidar com frustrações e reconhecer suas próprias conquistas.
“Quando uma criança está aprendendo um exercício de circo, ela precisa prestar atenção, ter disciplina e entender que nem sempre vai conseguir realizar o movimento na primeira tentativa. Em uma atividade em grupo, também aprende a confiar no colega e a respeitar o tempo do outro. É esse conjunto de experiências que buscamos trabalhar. A técnica artística é importante, mas o aprendizado vai muito além dela”, explica Rodrigo Cachanco, diretor pedagógico da Lona das Artes.
A proposta pedagógica também está presente nas aulas de balé, que deram origem, há cerca de sete anos, ao Balé Pirueta. A iniciativa nasceu dentro da Lona das Artes, ganhou autonomia e mantém uma parceria com a instituição. Durante as aulas, as crianças trabalham a relação entre música e movimento, exercitam a memória e a concentração e aprendem a seguir orientações. As apresentações também são oportunidades para lidar com a timidez, desenvolver a autoconfiança e compartilhar com o público o resultado do aprendizado.
Acompanhamento pedagógico e participação das famílias
O desenvolvimento dos participantes é acompanhado pela equipe pedagógica, que observa não apenas a evolução nas atividades artísticas, mas também aspectos relacionados à convivência, à concentração e à participação nas aulas. No balé, por exemplo, as turmas são limitadas a 24 alunos para permitir um acompanhamento mais próximo das crianças.
O trabalho conta com acompanhamento psicopedagógico e reuniões com as famílias, nas quais são compartilhadas informações sobre a evolução dos participantes. A proposta é que os responsáveis também compreendam o papel das atividades artísticas no desenvolvimento dos filhos e possam acompanhar as mudanças observadas ao longo do processo.
Além do ensino das artes, a Lona das Artes desenvolve ações no âmbito do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), integrante da política pública de assistência social. Voltado principalmente a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, o serviço busca fortalecer as relações familiares e comunitárias, estimular a participação social e prevenir situações de risco. A instituição atua em articulação com a rede socioassistencial da região, possibilitando encaminhamentos e acompanhamento dos participantes quando necessário.
Da aprendizagem artística ao protagonismo juvenil
A metodologia da Lona das Artes considera ainda as experiências e as demandas da comunidade atendida. Questões relacionadas à convivência, ao respeito às diferenças e aos desafios enfrentados por crianças e adolescentes podem ser abordadas nas atividades culturais, criando oportunidades para o diálogo e a reflexão.
Esse processo também incentiva os participantes a assumir novas responsabilidades dentro da instituição. É o caso de Gustavo Delmonte, que ingressou na Lona das Artes aos nove anos e, aos 14, já colaborava como voluntário nas aulas de circo e em atividades administrativas. Além de praticar malabarismo, monociclo e técnicas de palhaçaria, ele passou a auxiliar o professor na orientação de outros alunos.
A trajetória de Gustavo é um exemplo de como a participação nas atividades pode abrir espaço para novas experiências. Ao compartilhar o que aprendeu com outras crianças, o adolescente também exercita a comunicação, a responsabilidade e a capacidade de trabalhar em grupo.
Para a Lona das Artes, o aprendizado artístico não termina quando a criança consegue executar um movimento ou se apresentar diante do público. Ele também está nas relações construídas durante as aulas, nas dificuldades superadas e na maneira como cada participante passa a se perceber e a conviver com os outros.
Sobre a Lona das Artes
A LONA DAS ARTES é uma organização da sociedade civil que atua na interface entre arte, educação e assistência social, oferecendo oportunidades de desenvolvimento para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Por meio de uma metodologia própria baseada na aprendizagem significativa, utiliza as linguagens do circo e da cultura como ferramentas para fortalecer vínculos, promover autonomia e ampliar perspectivas de futuro.
Integrante da rede Circo do Mundo Brasil, a LONA DAS ARTES realiza projetos como o Circo Social, o PIEJ (Programa de Inclusão Econômica de Jovens) e iniciativas de formação e profissionalização artística, articulando educação e cultura como ferramentas de transformação social.
Reconhecida nacionalmente por suas boas práticas de gestão, a organização foi certificada pelo Instituto Doar, recebendo o Selo Doar, que atesta transparência, governança e compromisso com padrões elevados de gestão no terceiro setor.

