Créditos: Reprodução
07-07-2026 às 08h40
Daniela Rodrigues Machado Vilela*
Ao meu sentir, uma possível representação pictórica para o ato de viver seria a ilustração de algumas pessoas tentando se equilibrar em cima de um monociclo, um veículo parecido com uma bicicleta.
Esta imagem representa o equilíbrio de uma vida, que é tênue e fugaz, um punhado de gente andando em monociclos, ora de modo caótico, ora de modo mais organizado. Às vezes, ocorrem quedas por falta de atenção no percurso, destreza ou por alguma inconformidade na pista. Existem partes do trajeto com vento no rosto, outras com chuva, sol, subidas, descidas e pistas retas, assim como sinuosas. Também há dias em que o ciclista está triste e outros alegre e esperançoso, outros tantos, indiferente e com certo tédio.
Por vezes, um monociclo atrapalha o outro. Em diversas ocasiões, as pessoas podem buscar equilíbrio umas nas outras, já que todos estão buscando dias melhores. Há equilibristas mais solidários, generosos, outros mais egoístas. Todos vivem numa confluência de sentimentos, buscando se equilibrar no próprio monociclo de modo a aperfeiçoar sua performance e enxergar com clareza as condições fáticas ou psicológicas.
No jogo da vida, cada um têm sua própria maneira de atuação, seu modo de encarar a realidade, porém, uma liberdade total seria o caos irrestrito. Nenhum ser humano deve viver escravo dos instintos.
Preservar-se significa saber o que tem valor para você, quais são seus objetivos, traçar projetos, perseguir um caminho, não ser rígido demais nos propósitos, entendendo que a vida conduz e reconduz às vezes, mas que nada nem ninguém ajuda quem não sabe o que deseja e sonha. Para onde projeta ir e como pretende estar daqui um tempo?
Um conceito interessante e disseminado tem a ver com a resiliência. Para a Engenharia e a Física, ser resiliente tem relação com resistir e elastecer enquanto material diante de um impacto ou pressão sem se romper. Tal termo começou a ser utilizado pela psicologia para denotar a capacidade de ressignificar um determinado acontecimento após uma situação traumática, sofrível.
Ao longo da vida são inevitáveis os sofrimentos. A questão é: se não há controle sobre a maior parte dos acontecimentos, então como reagir e extirpar a dor? Como reavivar a alma e recomeçar? Afinal, é tempo de reconstruir.
Apostar na vida e suas possibilidades, não obstante, as situações de fragilidade, debilidade e dor. Estas situações propiciam oportunidade para aprender com as mazelas e se fortalecer.
Buscar autoconhecimento. Aguentar os trancos da vida, silenciar as dores, observar, reter o que for possível de aprendizado e seguir adiante.
Combinar ora rigidez e ora mansidão. Compreender e assimilar que certas dificuldades podem aprimorar as capacidades de resistir às dores existenciais humanas.
Todos respondem à ótica que têm sobre as experiências. Trata-se de um campo peculiar e inerente a cada qual. A vida se opera no terreno do turvo, insuficiente, complexo, disruptivo, por vezes. É preciso apostar na prudência, silenciar as inquietudes, fazer as pazes com a própria história.
Parece haver de fato um certo pacto intrínseco que nos propicia alguma possibilidade de vivermos em paz com nossa essência e ir conhecendo o que nos habita como característica no mais profundo do nosso ser.
É preciso autocontrole e autoconhecimento para não explodir de raiva quando as coisas dão errado ou para não expressar os sentimentos de modo errôneo ou em ocasião imprópria. Ter reservas e agir de modo prudente pressupõe amadurecimento, autoconhecimento e treino.
A vida em sociedade é mediada pelo olhar do outro e, portanto, não deve haver liberdade irrestrita e irresponsável. Viver em comunidade exige habilidade de convívio diário.
Assim, o primeiro desafio é conhecer a si mesmo para viver de modo mais harmônico e menos adversarial com os demais. O indivíduo só é capaz de proporcionar paz e espalhar sabedoria quando adquire traquejo para se equilibrar no seu monociclo, mas este oscila, as forças impelem de modo desordeiro e é sempre desafiador enfrentar as adversidades e regular as emoções. Enfim, vamos com fé caro leitor, afinal “a fé não costuma faiá”, já diz a música de Gilberto Gil. Anda com fé, vai, mas dedica-se também!
* Daniela Rodrigues Machado é doutora, mestra e especialista em Direito (UFMG), com Pesquisa Pós-Doutoral (UFMG) com financiamento público (FAPEMIG). Professora Universitária. Pesquisadora com ênfase em Trabalho, Filosofia e Linguagem. Diletante na arte da vida e da pintura.

