Créditos: IA DM
06-07-2026 às 09h18
Cristiane Helena de Paula Lima Cabral*
O desenvolvimento da tecnologia e o aprimoramento dos meios de comunicação fizeram com que se discutisse o recorte de uma nova geração, 100% digital.
A geração alfa, formada pelas “crianças nascidas desde 2010”, na visão do professor Joe Nellis, é composta por aqueles que já possuem pais conectados à internet, para quem a tecnologia vai funcionar como um prolongamento da forma de perceber a realidade.
Wim Veen e Bem Vraking (2009) denominam essa nova geração de “homo zappiens”, formada por pessoas cujo cotidiano é impactado ativamente pela tecnologia. Isso acaba por provocar uma sobrecarga de informações e a falsa ideia de serem capazes de realizar várias tarefas.
Apesar dos eventuais benefícios que a hiperconectividade pode provocar, o que se tem constatado, atualmente, são diversos problemas gerados pelo uso prolongado das telas e das redes sociais.
Jonathan Haidt, autor do livro “A Geração Ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais” (2024), nos alerta para o fato de que “a hiperconectividade alterou o desenvolvimento social e neurológico dos jovens, causando privação de sono, privação social, fragmentação da atenção e vício”. Além disso, ela tem causado déficit de atenção, provocando dificuldade nas crianças e adolescentes em interpretar, analisar, resumir e criticar qualquer tipo de informação recebida.
Haidt destaca, também, que as meninas são as mais impactadas por distúrbios de imagem provocados pela comparação social no Instagram, por exemplo, e que os meninos acabam se isolando pelo uso constante de videogames e pela exposição a conteúdos indesejáveis.
Como consequência, sugere o autor o controle do uso do celular e a inserção de mais atividades, ao ar livre, para crianças e adolescentes, objetivando “descontaminá-los” do uso desenfreado dos aparelhos digitais.
Atentos a esse debate, países de diversas partes do mundo iniciaram um movimento visando restringir o acesso desse público às redes sociais para preservar a privacidade, a saúde mental e evitar a exposição excessiva.
Um dos primeiros países a alterar a sua legislação e impor limites de acesso foi a Austrália, que proibiu que crianças e adolescentes menores de 16 anos utilizassem redes sociais.
A Noruega encaminhará um projeto de lei ao parlamento para proibir o uso de redes sociais por crianças menores de 16 anos, enquanto a União Europeia, por meio da Comissão Europeia, desenvolveu um aplicativo que pode impedir o acesso a conteúdos prejudiciais na internet.
França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália e o Reino Unido também caminham pela mesma linha e anunciaram medidas para coibir o acesso de crianças menores de 16 anos às redes sociais, e para impor medidas de controle que deverão ser adotadas pelas plataformas digitais.
O Brasil, apesar de ainda não ter uma proibição expressa, editou a Lei Federal nº 15.211, de 2025, que trata do ECA Digital, trazendo mais proteção às crianças e adolescentes no ambiente digital, exigindo, por exemplo, que as plataformas online adotem critérios eficazes para verificação da idade e vinculem as contas de menores de 16 anos ao perfil do responsável. Essa geração 100% digital, embora tenha se formado em um contexto de ampliação do acesso à informação e de intensificação das conexões, paradoxalmente revela sinais de desconexão social, emocional e cognitiva. O uso excessivo das telas e das redes sociais tem produzido impactos relevantes no desenvolvimento de crianças e adolescentes, exigindo não apenas maior conscientização das famílias e da sociedade, mas também a atuação efetiva do Estado e das plataformas digitais na criação de mecanismos de proteção.
Nesse cenário, mais do que proibir, o desafio contemporâneo consiste em promover um uso equilibrado da tecnologia, capaz de conciliar inovação, saúde mental, convivência social e desenvolvimento saudável das novas gerações.
*Cristiane Helena de Paula Lima Cabral é Mãe de duas pequenas grandes mulheres. Doutora em Direito Público Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Professora universitária. Contato: crishelenalima@gmail.com

