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05-05-2026 às 08h37
Marcos de Noronha*
Tive o privilégio de ser aluno de José Angelo Gaiarsa (1920-2010) e alguns momentos com ele ficaram gravados em minha memória. Em um deles, nossa aula foi interrompida por uma paciente que o procurou naquela noite. Vimos apenas ele a consolando com um abraço. Quando voltou à aula, explicou a gravidade do fato que abalara sua paciente e disse que, por não ter nada a dizer, apenas a abraçara.
A maior dádiva que uma pessoa pode oferecer a outra é sua presença. O outro sente que pode contar com alguém, que essa pessoa o respeita e pode acolhê-lo. O oposto disso é algo insuportável para o ser humano: o desamparo; sentir que não se pode contar com ninguém. Essa economia da atenção que recebemos e da expectativa que criamos é o que qualifica nossos sentimentos.
O curioso ocorreu ontem no consultório, diante de uma família em sofrimento. O paciente, exaltado, grosseiro e francamente em um quadro psicótico, fazia com que seus pais adotivos “pisassem em ovos” diante de mim durante a consulta. Eles já haviam buscado ajuda no passado, ocasião em que o rapaz, em surto, fora conduzido à internação hospitalar. A interrupção dos neurolépticos e o retorno ao uso de maconha desencadearam o quadro atual.
Após convencê-lo a retornar a uma dose pequena de sua medicação, em associação com o canabidiol (substância com efeitos protetores extraída da própria maconha), e após uma consulta tumultuada pelo comportamento do paciente, algo mudou. Assim que os pais saíram da sala, o rapaz caiu em prantos, pediu desculpas pelo comportamento e me abraçou. Nesse momento, lembrei-me do mestre Gaiarsa; minha necessidade era demonstrar que eu estava ali e que ele poderia contar comigo.
Em situações semelhantes, vale mais a solidariedade do que qualquer tipo de piedade. Vale também nosso esforço em compreender muito mais do que julgar. Consideramos que as necessidades humanas são universais e presentes em todos nós, estejamos saudáveis ou doentes. Em situações de conflito, cujas ações alheias podem ter gerado em nós os piores sentimentos, precisamos contar com recursos para superar as emoções que nos desviam do caminho do entendimento.
Marshall Rosenberg, autor da Comunicação Não Violenta, por vezes descreveu finais felizes em seus workshops, onde as partes acabavam “dançando a dança e cantando a música” um do outro. Mesmo no mundo conflituoso em que vivemos, pleno de embates por todos os lados, temos um desejo escondido em nossos corações: o de nos conciliarmos com a vida.
Estou nos preparativos para o lançamento do livro Polarização – Sintoma de Uma Doença Social. Avançamos na revisão gramatical e jurídica das 600 páginas desta obra, focada na manipulação das massas e na busca por desvendar os bastidores dos conflitos. Ela será ofertada gratuitamente no Diário de Minas, em forma de fascículos, como já citei anteriormente, e neste momento organizamos sua comercialização através de uma agência.
O mundo polarizado incita continuamente nossos piores sentimentos; basta, para tanto, encararmos os ataques sem nenhuma disposição para compreender as necessidades do agressor. Se qualificarmos nossa condição diante de quem nos ataca, como aconteceu na consulta médica mencionada, compreenderemos que as ações do outro sempre dizem mais sobre ele do que sobre nós. Basta que uma das partes tenha saúde suficiente para entender o processo e o ciclo de ataque e contra-ataque se quebra. Um militante fanático da política pode ser um bom exemplo de incapacidade para compreender, ter empatia ou “boa vontade”. Seu colega na oposição sempre será seu inimigo. Jamais oferecerá disposição ao entendimento. Nem sequer escuta a fala do outro, condicionado pelo estigma consolidado do que ele representa e por mantras que tanto ele quanto seu grupo repetem. Nesses embates, ambos os lados podem tentar esconder suas necessidades, mas comumente são denunciados pela carga emocional que conduz seus comportamentos. Podem escolher uma conduta agressiva e manipuladora quando lhes faltam argumentos e saúde para defendê-los. Por outro lado, podem apenas lamentar a forma do outro divergir e acreditar que, com o tempo, os outros entenderão melhor a verdade atrelada aos fatos, em vez das narrativas. Afinal, qual é a intenção por trás desses comportamentos?
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*Marcos de Noronha é Psiquiatra Titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Conselho Federal de Medicina; Psicoterapeuta e Psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama; Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural; Membro da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural; Associado da Seção de Psiquiatria Transcultural da Associação Mundial de Psiquiatria; Membro do Grupo Latino Americano de Estudos Transculturais (GLADET)
Com formação em diversas técnicas psicoterapêuticas, dedicou-se ao estudo de disciplinas que fazem fronteira com a psiquiatria, como sociologia e etnologia. É um dos fundadores da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, tendo publicado artigos pioneiros nos principais periódicos científicos nacionais e livros sobre o tema.
Entre suas obras, destacam-se:
- Terapia Social – um relato intimista de sua trajetória e técnica;
- O Cérebro e as Emoções – uma abordagem contemporânea sobre o tema, com analogias entre práticas ritualísticas e os bastidores das psicoterapias;
- Polarização – Sintoma de uma Doença Social (no prelo).
Atua em Florianópolis coordenando grupos de Terapia Social tanto no setor público quanto no privado, defendendo o trabalho em grupo como uma alternativa eficaz para uma sociedade com grande demanda de cuidados em saúde mental. Também é apresentador do programa Psiquiatria Sem Fronteiras e de lives produzidas pelo Humanitas TV no YouTube.
Formação e Trajetória Profissional
Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Londrina em 1977, onde percebeu as limitações do ensino médico tradicional. Para complementar sua formação, dedicou-se ao estudo de História e Filosofia Médica, Medicina Oriental e Homeopatia. Seu primeiro contato prático com a psiquiatria ocorreu já no primeiro ano de graduação, em estágios supervisionados em um hospital com técnicas modernas de psicoterapia de grupo na linha do psicodrama.
Aprofundou seus estudos em psiquiatria cultural após a graduação, inicialmente buscando uma bolsa para estudar Orgonomia com Wilhelm Reich na Europa. No entanto, sua trajetória mudou ao conhecer o Serviço de Etnopsiquiatria da Universidade de Nice, na França, onde se especializou na abordagem desenvolvida por Henri Collomb, um dos pioneiros da etnopsiquiatria clínica.
Durante sua estadia na França, trabalhou com imigrantes e aprendeu a integrar diferentes saberes no tratamento de transtornos mentais, priorizando abordagens humanizadas e reduzindo a dependência de psicotrópicos. Essa experiência consolidou sua visão sobre a importância da diversidade cultural no tratamento psiquiátrico.
Ao retornar ao Brasil, empenhou-se na difusão da etnopsiquiatria, publicando artigos em revistas como a Revista da Associação Brasileira de Psiquiatria e o Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Também apresentou trabalhos em congressos nacionais e internacionais, conectando-se com outros pesquisadores interessados no tema.
Em 1993, durante o 9º Congresso Mundial de Psiquiatria, no Rio de Janeiro, fundou a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural. Em 1998, foi eleito o primeiro presidente da entidade no I Congresso Brasileiro de Etnopsiquiatria e Simpósio Internacional de Psiquiatria Cultural, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina.
Desenvolvimento da Terapia Social
Com base em suas experiências e inspiração nas sociedades tradicionais, desenvolveu a Terapia Social, uma abordagem que enfatiza a reintegração do indivíduo ao grupo e à sua tradição cultural. Diferente de abordagens convencionais, a Terapia Social propõe um envolvimento ativo e constante do paciente em seu processo terapêutico, tanto dentro quanto fora do consultório.
Em 2007, lançou o livro Terapia Social, formalizando sua metodologia. A obra foi posteriormente traduzida para o espanhol e publicada em 2012.
Atualmente, além de suas atividades clínicas e acadêmicas, é membro do Conselho da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural e segue promovendo pesquisas e eventos sobre psiquiatria cultural e terapias integrativas.

