31-10-2026 às 15h40
Giovana Devisate
Quando era pequena, brincava muito com a boneca Barbie. Eu, como uma grande boneca, mexendo as pernas da boneca pequena. A fazia dormir, pintar, cozinhar, dirigir… Amava vestir essas bonecas pequenas, amava montar as suas pequenas casas. Eu e minha irmã, as donas de uma infância repleta de sapatos pequenos espalhados pela grande mesa de jantar da casa em que crescemos.
A Barbie tinha mil profissões e, a cada nova versão, uma vontade: queria todas e também queria poder ser aquilo tudo. Ou melhor: brincar com as Barbies era como simular uma vida que poderia se tornar real? Adultos também podem ter tantas versões de si mesmo?
Às vezes me imaginava assim: apenas como uma boneca ou uma personagem de uma história que não é minha. Tem alguém maior que eu mexendo as minhas perninhas, os meus bracinhos, me levando pelos caminhos sem que eu perceba. Uma humana pequena em um mundo de humanos maiores que eu, comandada por um gigante.
Sempre falei que sou pequena e que ocupo pouco espaço. Acho que foi com a junção de toda essa bagunça organizada de uma infância feliz e de um pensamento de reverência de que Deus me impulsiona que aderi à aleatoriedade de ser eu em minha pequenez.
Sou muitas coisas, todo mundo é. Obviamente existem adultos menores que eu, mas normalmente eles são maiores. Sempre achei as pessoas muito grandes. Olho para cima para falar com a maioria delas. Desde pequena, apelidei a minha melhor amiga de pernalonga, por causa do personagem de Looney Tunes. Talvez ter um metro e cinquenta e três centímetros tenha sido, em algum grau, traumatizante.
Há uns anos, um ex-alguma coisa me disse, ao me abraçar, que eu era tão pequena que era estranho mal caber em um abraço. Odiei. Não sou uma boneca. Só sou uma humana, mulher, adulta, pequena e sempre tenho problema, por exemplo, em resumir a quantidade de coisas que cabem em alguém tão “compacta” como eu.
Digo: sou muitas coisas ao mesmo tempo. Todo mundo é. Filha, amiga, estudante, artista, escritora, pesquisadora, paciente, sonhadora, fazedora – e Deus quis que eu soubesse e gostasse de fazer tanta coisa… Escrever, dançar, cantar, desenhar, pintar, fotografar, ilustrar, cozinhar, aquarelar, costurar, pesquisar e muito mais.
É sempre difícil falar de fé porque crescemos sob juramento de que “fé não se discute”. Porém, deveria ser muito fácil falar sobre fé. Temos liberdade de expressá-la da maneira que for… E escrevo esse artigo porque reconheço que não somos a única força atuando sobre a nossa existência. Cada um com o seu Deus, com a sua crença, com a sua força, com a sua fé, mas muitos humanos têm algo em comum: a certeza de que não estamos sozinhos, de que existe uma força que nos desloca, impulsiona, nos faz acreditar em dias melhores, nos faz aceitar as derrotas, as fraquezas, as frustrações e os desencontros.
Com o mundo fervendo, penso que a força gigante que manda na gente, que nos move pelos solos terrestres, está ficando cansada de brincar com humanos pequenos… O mundo está atravessando um momento de exaustão. Estamos todos exaustos, frenéticos, ansiosos, fervendo… Se o mundo acabar amanhã, será que ainda quero ser tão pequena?
Ser pequena, no entanto, não diz respeito ao tamanho subjetivo. Talvez tenha sido a junção de tudo: ser pequena, a bagunça organizada de uma infância feliz e um pensamento de reverência de que Deus me impulsiona que aderi à aleatoriedade de ser eu, mas consigo me perceber um pouco maior que antes, agora que tenho 28 anos.
Se a Barbie tivesse vida, ela também não saberia o que eu iria escolher para ela naquele dia de brincadeira. Se ela pudesse sonhar, ela também não saberia se o seu sonho é o meu, da pequena-grande humana que a governa. Ando pensando: e se a vida que não aconteceu como sonhamos não for uma versão fracassada de nós, mas uma passagem para algo que ainda não conseguimos enxergar? Não sabemos os planos de quem nos governa, não temos ideia dos próximos passos… Existe algum alívio em admitir que não precisamos compreender tudo sempre?
A gente pode se dedicar, fazer de tudo ao nosso alcance e ainda assim não ver o sonho se realizar ou se materializar na nossa frente. Nem sempre falta capacidade, vontade ou fé, porque isso só significa que somos humanos: nós enxergamos o caminho a partir do lugar em que estamos. Apesar dos caminhos se construírem conforme andamos, é a fé que nos convida a considerar outras possibilidades, a repensar os caminhos, a seguir adiante, a virar na próxima direita, na segunda à esquerda… Às vezes, sem que percebamos, ela mesma nos direciona para outro lugar, nos desviando dos caminhos tão desejados antes.
Crescer e amadurecer nos mostra que não controlamos tudo. Continuamos pequenos diante da vida, mas somos grandes em nós mesmos. Não precisamos romantizar tudo que dói nem brincar de saber do que vai acontecer a seguir. Podemos, no entanto, através da fé, ter a confiança de que algo seguro existe até mesmo através da incerteza e de que podemos continuar escolhendo, fazendo, crendo, desejando e sonhando, com a certeza de que a vida guarda versões nossas que nem sequer podemos, hoje, imaginar.
Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

