Créditos: Divulgação
12-10-2026 às 09h07
Giovana Devisate
Estamos vivendo a era do bom contra o mau, tipo nos filmes da Marvel. Dependendo do seu lado, a sua perspectiva do bom e do mau é uma, mas não venho discutir isso com você e não venho virar voto. Só andei pensando como, de qualquer lado, é como se existissem os bons e os maus, que ainda se dividem em declarados e disfarçados.
Nas ruas, passeata da esquerda, passeata da direita, passeata dos bolsonaristas… Gente com camisa de um lado, com camisa do outro e com camisa do Brasil que, há poucos meses, era desfilada com orgulho pelos brasileiros que torciam para a seleção, sempre que o país jogava na Copa. Além disso, xingamentos de todos os lados e a tentativa constante de convencermos os que buscaram uma terceira via de que existe um lado certo, especialmente nas redes sociais, que passaram a ser uma grande ferramenta para discussões sobre as eleições.
Através do Instagram, do TikTok, de grupos no Whatsapp e outros aplicativos é que acompanhamos os políticos, vemos notícias reais e falsas, nos inteiramos dos eventos, das manifestações, dos discursos e das falas dos candidatos, observamos os ativistas, os pacifistas, os extremistas… Com as redes sociais, todo mundo ganhou palco e tempo de fala no palanque, para qualquer um ver!
Agora, acontece um movimento que vou chamar de “resposta aos isentos”. Influenciador que não se posiciona, que não declara em quem vota, leva unfollow. Quem se posiciona e tem uma opinião contrária à sua, leva unfollow também. Esse movimento, no entanto, só acontece no universo digital, porque tenho certeza que o trabalhador, voltando para casa de metrô, trem ou ônibus lotado pós expediente, está tão absorvido com o seu cotidiano e preocupado em chegar em casa e colocar comida na mesa, que talvez não tenha tempo de se preocupar tanto com isso.
Ainda assim, a quem interessa, é como se existisse uma diretriz que diz que gente de esquerda não pode seguir ninguém de direita, que quem é de direita não pode seguir ninguém de esquerda e que quem é de direita automaticamente é fã da família Bolsonaro. A briga é grande e, nessas horas, a democracia parece ser expelida pela força da raiva, mesmo com todos tendo a cisma de falar em nome da democracia. Do grego, demos e kratos ou kratia: poder do povo.
O povo, no entanto, não é composto só por quem tem a mesma opinião que você. É isso que nos faz humanos e sempre ouvi que o mais legal de sermos quem somos é exatamente termos a possibilidade de mudar de ideia, pensar, aprender, conviver com o outro, conversar, respeitar as existências em sua pluralidade… Acho, no entanto, que desaprendemos a fazer isso. Inclusive os candidatos à presidência, que não foram aos debates presidenciais, mas fizeram lives ou participaram de podcasts ao vivo, se mantendo em suas próprias bolhas, sem dialogar com o outro sobre as propostas, enquanto se alfinetavam nas mídias…
O diálogo é importante porque existem posicionamentos diferentes. Evidentemente, acredito que alguns são realmente inexplicáveis, mas os xingamentos e o ar de superioridade que fica, como se um lado fosse melhor que o outro, só segrega mais a população e cria novos atritos.
Discordar é justo, necessário e significa reconhecer que o outro continua existindo e fazendo parte da sociedade mesmo não pensando como você. A grande questão é que acreditamos que existe um problema para ser resolvido: se o outro não pensa como eu, preciso convencê-lo a mudar. Isso quase nunca funciona com quem tem opiniões políticas absolutas. Se você pensa que, por não conseguir convencê-lo a pensar como você, o outro é idiota, lembre-se pelo menos de que todo mundo tem liberdades – até mesmo para ser idiota aos olhos dos outros.
O que me incomoda é perceber que queremos incansavelmente ser respeitados, mas nos esquecemos de respeitar quem pensa diferente de nós. Isso vale para os dois lados, inclusive para quem, como eu, fala sobre o amor livre, o aborto, os direitos das mulheres e das minorias. Pregamos a pluralidade, mas quando encontramos uma opinião contrária à nossa, parece que o diálogo deixa de ser uma possibilidade. É impossível conviver com quem discorda da gente? A gente não ensina o contrário para eles?
As redes sociais inflamam os diálogos, ao invés de estimular que os mesmos aconteçam e não acho, necessariamente, que seja fundamental falar em quem vota e gritar aos quatro ventos suas opiniões políticas. Isso é assegurado por lei, inclusive. Apesar disso, cobramos posicionamento: tem que falar, tem que influenciar, tem que dizer o que vai fazer… Tem mesmo? Ser isento talvez não seja legal, apesar de sermos livres e podermos escolher ou não falar sobre isso e claro que existem coisas mais importantes que trabalho, mas a rede social, infelizmente, se tornou a única fonte de renda de muita gente. Não sabemos como funcionam os contratos, o que rola por trás da tela, qual é a realidade…
Quem se posiciona de verdade nesse período, pode ter a certeza que fala sobre política e questões sociais em muitos outros momentos do ano e isso é incrivelmente mais importante do que só falar em tempos mais sensíveis como o que vivemos agora. Digo: você quer acompanhar quem apaga o incêndio ou quem, ao longo de todo o ano, faz o trabalho para que o incêndio não aconteça? Penso que não existe a obrigação de declarar voto nessa época, mas existe a obrigação de ter responsabilidade social, sempre! Às vezes, as duas coisas podem parecer sinônimas, mas não são!
No último artigo, falei que a mulher conservadora que quer cuidar do marido, da casa e dos filhos e quer deixar de votar tem a liberdade de escolha para tal. A escolha dela, no entanto, não deve mudar a minha vida, assim como a minha escolha individual também não deve mudar diretamente a vida dela. Por isso, o que ela não pode fazer é transformar a sua forma de vida na única possível e, portanto, me impedir de habitar a minha existência de maneiras diferentes da dela. Devemos brigar é pela liberdade de ter escolhas.
Isso vale para muitas pautas e, de novo, como mulher que escreve, que vota, que lê, que estuda, que trabalha, que empreende e que pesquisa, reafirmo que é disso que temos que cuidar: dos direitos, de todos. Inclusive do direito de pensar diferente, porque somos distintos, temos opiniões distintas e devemos assegurar que a diversidade possa existir, em todas as esferas, garantindo os direitos de forma mais ampla possível.
No artigo da semana passada, sobre a escrita e o voto, a Virginia Woolf e o filme Virtuosas e a luta pela ampliação dos direitos das mulheres, para que exista escolha individual e um novo teto, caso um desmorone, eu disse que “as que lutam estão sempre a postos, abrindo caminhos e reivindicando espaço no mundo, para todas. Que a escolha de uma não se transforme em imposição para outra. Que uma mulher possa escolher a vida que deseja sem que isso diminua o direito da outra de fazer diferente. Que a vontade de um grupo não seja capaz de ferir os direitos de todas”. Isso funciona para muitas outras coisas.
Conviver com quem pensa diferente não significa concordar com as opiniões do outro, respeitar a liberdade de expressão não significa que não possamos contestar o que é dito e, se for crime, não significa que não possamos combater do jeito legal. As pessoas podem pensar diferente, elas têm liberdade para isso e, inclusive, como falei lá em cima, liberdade até para serem idiotas.

