07-10-2026 às 10h40
Por Samuel Arruda*
As eleições gerais de 2026 chegam ao segundo turno cercadas por uma contradição que há anos desafia a democracia brasileira: de um lado, o país ampliou mecanismos de fiscalização e transparência; de outro, bilhões de reais em recursos públicos continuam movimentando campanhas políticas e casos de compra de votos, propaganda irregular e possíveis abusos de poder econômico seguem sendo registrados.
O principal número financeiro é expressivo. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundo Eleitoral, destinou aproximadamente R$ 4,9 bilhões aos partidos para as eleições de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve para este ano os limites de gastos de campanha nos mesmos patamares de 2022.
O valor, por si só, não representa corrupção ou desperdício. O dinheiro do Fundo Eleitoral é um mecanismo legal de financiamento das campanhas. O problema surge quando recursos públicos são utilizados de forma irregular, quando há desvio de finalidade, fraude na prestação de contas, caixa dois, compra de votos ou utilização da estrutura econômica ou política para desequilibrar a disputa.
Minas Gerais aparece entre os principais focos de ocorrências
Minas Gerais merece atenção especial no balanço das eleições de 2026.
Durante o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, o Ministério da Justiça registrou 478 ocorrências relacionadas a crimes eleitorais em todo o país. Desse total, 180 foram relacionadas a propaganda eleitoral irregular, 129 a boca de urna e 74 a compra de votos ou corrupção eleitoral.
Minas Gerais foi o estado com o maior número de ocorrências registradas nesse levantamento, com 59 casos, à frente do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e Paraíba. Também foram apreendidos, no conjunto das operações, mais de R$ 108 mil, além de veículos, armas e milhares de materiais de campanha.
O dado não significa que os 59 casos mineiros correspondam necessariamente a 59 candidatos corruptos. Uma ocorrência policial é objeto de apuração e pode ou não resultar em denúncia, condenação ou sanção eleitoral. Essa distinção é fundamental para que o combate à corrupção não seja transformado em instrumento de acusação política.
A Polícia Federal, por sua vez, informou que, até 4 de outubro, havia instaurado 1.337 inquéritos relacionados a crimes eleitorais ao longo de 2026. As ações realizadas no ano já haviam resultado na apreensão de mais de R$ 47,5 milhões em bens, dos quais aproximadamente R$ 31 milhões eram dinheiro em espécie.
Norte de Minas entra no radar da Polícia Federal
A fiscalização não terminou com a votação.
Em 6 de outubro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Voto Limpo, no Norte de Minas, para investigar suspeitas de compra de votos nos municípios de São João das Missões e Januária. Segundo informações divulgadas pela imprensa, foram apreendidos celulares e aproximadamente R$ 80 mil em dinheiro vivo.
O caso ainda está em investigação e, portanto, não permite afirmar que o dinheiro tenha sido utilizado para compra de votos ou que determinado candidato tenha cometido crime. A apreensão, contudo, mostra como o dinheiro em espécie continua sendo uma preocupação relevante para a Justiça Eleitoral.
O problema não está apenas no dinheiro em espécie
A corrupção eleitoral moderna não se resume ao eleitor receber dinheiro em troca do voto.
O Ministério Público Federal aponta entre os ilícitos eleitorais o abuso do poder econômico, abuso político, utilização indevida dos meios de comunicação, arrecadação e gastos ilícitos, fraude, propaganda irregular, caixa dois e compra de votos.
O chamado caixa dois, por exemplo, ocorre quando recursos utilizados na campanha não são devidamente registrados na contabilidade eleitoral. A legislação também proíbe determinadas fontes de financiamento, incluindo recursos de pessoas jurídicas.
Há ainda uma zona de enorme preocupação: a utilização da máquina pública e da influência política para favorecer candidaturas.
O abuso de poder econômico pode ocorrer quando a capacidade financeira de determinado grupo ou candidato ultrapassa aquilo que seria razoável dentro da disputa e passa a interferir na liberdade de escolha do eleitor. O abuso de poder político, por sua vez, pode envolver a utilização indevida da estrutura estatal para favorecer determinado projeto eleitoral.
Por isso, combater a corrupção eleitoral não significa apenas procurar envelopes de dinheiro ou apreender recursos. Significa também rastrear contratos, fornecedores, publicidade, empresas contratadas, transferência de recursos, eventos, pesquisas, publicidade digital e relações entre financiadores e candidatos.
Transparência melhorou, mas ainda há um longo caminho
Uma das principais ferramentas existentes é o sistema DivulgaCandContas, do TSE.
Nas eleições de 2026, os eleitores passaram a ter acesso a informações sobre patrimônio, arrecadação, despesas, doadores, fornecedores, limites de gastos, dívidas e sobras de campanha. O sistema também permite comparar candidatos e consultar dados de suas campanhas.
É um avanço importante.
Mas transparência posterior não é suficiente.
O cidadão precisa saber durante a campanha, e não apenas meses ou anos depois, quem está recebendo dinheiro, quanto está recebendo, de quem está recebendo e onde o dinheiro está sendo gasto.
O desafio, portanto, é transformar a prestação de contas em um mecanismo de fiscalização praticamente em tempo real.
Quanto dinheiro público está em jogo?
O Fundo Eleitoral de 2026 representa aproximadamente R$ 4,9 bilhões.
Além dele existe o Fundo Partidário, destinado à manutenção das organizações partidárias e composto por recursos públicos, multas e outras fontes previstas em lei. Em 2025, por exemplo, o TSE informou que foram distribuídos R$ 1,126 bilhão em dotações do Fundo Partidário, além de R$ 102,6 milhões provenientes de multas.
Isso coloca uma questão legítima para o debate democrático:
quanto o Estado brasileiro deve gastar para financiar campanhas e estruturas partidárias?
Não existe uma resposta simples. O financiamento público foi criado, entre outras razões, depois da proibição das doações empresariais, buscando diminuir a influência direta de grandes empresas sobre candidatos.
Reduzir o financiamento público sem criar uma alternativa transparente poderia simplesmente aumentar a influência do dinheiro privado ou estimular o caixa dois.
Por isso, a discussão não deveria ser apenas “acabar com o Fundão”, mas perguntar:
como financiar a democracia gastando menos e fiscalizando melhor?
O que poderia ser aperfeiçoado?
1. Prestação de contas em tempo real
Toda despesa eleitoral relevante deveria aparecer em plataforma pública em prazo extremamente curto, preferencialmente em 24 ou 48 horas.
O eleitor poderia visualizar:
- quem recebeu;
- quanto recebeu;
- qual serviço foi contratado;
- CNPJ do fornecedor;
- município onde o serviço foi prestado;
- nota fiscal;
- contrato;
- vínculo societário entre fornecedor e candidato;
- origem do recurso utilizado.
Isso permitiria que jornalistas, universidades, organizações da sociedade civil e cidadãos atuassem como uma rede complementar de fiscalização.
2. Cruzamento automático de dados
O TSE, Receita Federal, Controladoria-Geral da União, tribunais de contas, Ministério Público e Polícia Federal poderiam ampliar o cruzamento automatizado de informações.
Uma empresa que recebe centenas de milhares de reais de campanhas deveria ser automaticamente analisada quanto a:
- capacidade financeira;
- número de funcionários;
- endereço;
- faturamento;
- existência efetiva;
- contratos anteriores;
- relação societária com candidatos ou dirigentes partidários.
O objetivo não seria presumir fraude, mas identificar situações de risco para fiscalização prioritária.
3. Auditoria independente dos maiores contratos
Contratos eleitorais de grande valor poderiam receber auditoria preventiva, especialmente publicidade, consultoria, pesquisas, produção audiovisual, eventos e serviços digitais.
Quanto maior o valor e maior a concentração dos recursos em determinado fornecedor, maior deveria ser o grau de fiscalização.
4. Limitar a concentração dos recursos
Uma das questões que merecem debate é a concentração do dinheiro público em poucas candidaturas.
O financiamento público poderia ser acompanhado de mecanismos que estimulem maior distribuição dos recursos, sem comprometer as cotas destinadas às mulheres, pessoas negras e indígenas.
Em 2026, o TSE trabalhou com 20.560 candidaturas consideradas para o cálculo dos percentuais de distribuição de recursos. Mulheres representaram 34,85% desse universo; pessoas negras, 49,64%; e indígenas, 0,93%.
5. Combater o dinheiro vivo
As operações de 2026 mostram que dinheiro em espécie continua aparecendo em investigações eleitorais.
Quanto maior a utilização de meios eletrônicos rastreáveis, menor a possibilidade de ocultação da origem e do destino do dinheiro.
Uma política mais rigorosa poderia estabelecer controles adicionais para grandes saques e movimentações atípicas próximas aos períodos eleitorais, respeitando as garantias legais e o devido processo.
6. Fiscalizar também o abuso econômico indireto
Nem todo abuso passa pela conta oficial da campanha.
É necessário observar:
- empresas que fornecem estrutura gratuitamente;
- veículos de comunicação utilizados de maneira desproporcional;
- eventos financiados por terceiros;
- publicidade disfarçada;
- contratação de influenciadores;
- redes coordenadas de perfis;
- disparos digitais;
- pesquisas eleitorais;
- uso de inteligência artificial;
- utilização eleitoral de estruturas governamentais.
O MP Eleitoral informou ter recebido cerca de 8,6 mil denúncias de cidadãos e instituições em 2026, envolvendo temas como propaganda irregular, conduta vedada, abuso de poder, assédio eleitoral, crimes eleitorais, compra de votos e doações acima do limite legal.
Minas Gerais precisa de um observatório permanente
O caso mineiro merece uma resposta específica.
Com 59 ocorrências registradas no primeiro turno, Minas Gerais apareceu na liderança do levantamento do Ministério da Justiça. Folha de S.Paulo
O estado possui 853 municípios, enorme extensão territorial e realidades econômicas e políticas muito diferentes entre suas regiões. A fiscalização eleitoral, portanto, precisa considerar as particularidades do Norte de Minas, Jequitinhonha, Vale do Mucuri, Triângulo, Zona da Mata, Sul de Minas, Região Metropolitana de Belo Horizonte e demais regiões.
Uma proposta seria a criação de um Observatório Mineiro de Integridade Eleitoral, reunindo universidades, imprensa, entidades da sociedade civil, Ministério Público, órgãos de controle e especialistas em dados.
O observatório poderia produzir, durante e depois das eleições, um painel público com:
dinheiro recebido + dinheiro gasto + fornecedor + município + patrimônio declarado + ocorrências eleitorais + processos + resultado das investigações.
Isso não substituiria a Justiça Eleitoral. Ao contrário: criaria uma camada adicional de transparência social.
O desperdício não termina no dia da eleição
Também é preciso mudar a forma como o Brasil avalia o dinheiro público destinado às campanhas.
O debate costuma se concentrar no tamanho do Fundo Eleitoral. Mas existe outro problema: o que acontece com o dinheiro depois que ele é distribuído?
Uma despesa legal pode ser pouco eficiente. Um serviço pode estar corretamente documentado e, ainda assim, apresentar preço elevado ou baixo retorno.
O dinheiro público deveria ser acompanhado não somente pelo critério de legalidade, mas também pelo princípio da economicidade.
Isso não significa transformar eleição em licitação pública. Campanhas possuem características próprias e precisam de liberdade política. Mas contratos de valores elevados deveriam estar sujeitos a mecanismos mais fortes de transparência e controle.
O desafio para o segundo turno
O primeiro turno terminou em 4 de outubro e a eleição presidencial terá segundo turno em 25 de outubro. Em Minas Gerais, a votação estadual já definiu governador, dois senadores, 53 deputados federais e 77 deputados estaduais.
A fiscalização, portanto, continua.
E há uma mensagem importante para o eleitor: suspeita não é condenação, apreensão não é prova definitiva de crime e investigação não significa culpa.
Ao mesmo tempo, a existência de investigações e apreensões demonstra por que mecanismos de controle são indispensáveis.
Conclusão: menos dinheiro desperdiçado, mais democracia fiscalizada
O Brasil não precisa escolher entre financiamento público e financiamento privado sem controle.
É possível construir um terceiro caminho: campanhas mais baratas, contas mais transparentes, fiscalização preventiva, rastreamento eletrônico do dinheiro e punição rápida para quem comprovadamente violar as regras.
Os R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral não podem ser tratados automaticamente como dinheiro desperdiçado. Eles são recursos destinados por lei ao financiamento democrático. O desperdício aparece quando o dinheiro público é mal aplicado, quando há fraude, quando serviços são superfaturados ou fictícios, quando recursos são desviados de sua finalidade ou quando o poder econômico é utilizado para destruir a igualdade da disputa.
As eleições de 2026 deixam uma lição especialmente importante para Minas Gerais: não basta fiscalizar o voto dentro da urna. É preciso fiscalizar todo o caminho que o dinheiro percorre antes de chegar até ela.
A democracia custa dinheiro. Mas a democracia não precisa custar tão caro — e, principalmente, não pode permitir que dinheiro público ou poder econômico sejam utilizados para comprar influência sobre o eleitor.
O próximo passo deveria ser transformar a transparência eleitoral em fiscalização preventiva: ver o dinheiro antes que ele vire abuso, e não apenas investigar depois que o abuso já aconteceu.
Observação editorial: os números acima refletem informações disponíveis em 7 de outubro de 2026. A prestação de contas final das campanhas ainda está em andamento; portanto, não é correto apresentar neste momento um “valor final de corrupção” das eleições de 2026. O TRE-MG estabeleceu 3 de novembro como prazo para contas finais de candidaturas que disputaram apenas o primeiro turno e 14 de novembro para quem disputar o segundo turno.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política
Fontes: Justiça eleitoral

