Créditos: Divulgação
22-09-2026 às 07h53
Gilberto Diniz*
No auge do protagonismo, o Supremo Tribunal Federal (STF) descobriu-se mortal. A crise de setembro de 2026 é a atualização brasileira da imagem de Paul Valéry: o edifício segue de pé, mas tudo se sentiu perecer.
Em 1919, no ensaio “A crise do espírito”, Paul Valéry descreveu a Europa do pós-guerra com uma imagem que atravessou o século — “Assim, a Persépolis espiritual não está menos devastada que a Susa material. Tudo não se perdeu, mas tudo se sentiu
perecer.”
Persépolis, capital cerimonial do império Aquemênida, e Susa, sua sede material, tornaram-se ruínas do passado. O que efetivamente morreu para o autor, contudo, foi outra coisa, a certeza de imortalidade que sustenta uma civilização. “Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”, é a frase-síntese que inaugura o ensaio de Paul Valéry.
Mais de cem anos depois, tal imagem ilumina outra ruína espiritual: a do STF brasileiro durante a crise que eclodiu na primeira semana de setembro deste ano. O Tribunal não foi invadido, não perdeu competência nem deixou de funcionar. Os ministros continuam indo aos seus gabinetes e participando das sessões plenárias, que são transmitidas ao vivo. Porém, tudo se sentia perecer: a confiança pública, a coesão interna, aquela aura de imparcialidade, o verdadeiro capital de um tribunal constitucional.
O turbilhão e a reação institucional
Os fatos são amplamente conhecidos. Revelações sobre mensagens entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes — extraídas de aparelho celular e documentadas em relatório da Polícia Federal — colocaram o STF no centro do próprio turbilhão. Em paralelo, o ministro André Mendonça afastou a cúpula da PF: o diretor-geral e o chefe de inteligência. A resposta institucional veio do presidente Edson Fachin, que revogou a designação de Moraes na relatoria do inquérito das fake news, que estava com o ministro há sete anos. Fachin também avocou a Petição que apura a suposta ligação entre o colega e Vorcaro. No mesmo ato, o presidente chamou a si a relatoria dos processos envolvendo o Banco Master e o INSS, suspendendo as determinações anteriores. O tamanho do abalo mediu-se na pauta, o presidente do STF chegou a cancelar a terceira sessão plenária em apenas duas semanas.
Na terça-feira, 15 de setembro, o pleno do STF começou a julgar a abertura de possível investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, em sessão extraordinária transmitida ao vivo sob declarada e sentida tensão. O plenário virou palco de embates diretos e acalorados entre magistrados. O ministro Gilmar Mendes, ao criticar duramente a condução do procedimento, disparou que “até as pedras sabem que há um viés político eleitoral” nas decisões de um colega e arrematou com teor ainda mais ácido: “até a máfia tem ética”. A sessão terminou suspensa por um pedido de vista, prologando a paralisia institucional.
A ruína que vem de dentro
É nesse ponto que a leitura de Valéry retoma toda a sua força. A ruína da Persépolis espiritual não foi causada por um terremoto nem por um cerco externo. O debacle foi produzido por dentro, pela percepção de que a grandeza não confere imortalidade.
Com o Supremo ocorre o mesmo. A crise atual não nasceu de um ataque de fora, mas das fissuras internas expostas ao público: mensagens privadas, relatórios vazados, ministros que se acusam em voz alta e decisões monocráticas que se sucedem sem critério estável. O edifício da instituição não ruiu, mas a sua autoridade experimentou a própria morte diante de uma sociedade que a observa atônita.
As consequências já sangram para fora do plenário. O Congresso Nacional articula mais de trinta propostas de reforma do Judiciário, incluindo mandato fixo para ministros, limites a decisões individuais e novas regras de indicação. Retratando o tamanho do desgaste, pesquisa da Quaest registrou alta de dez pontos na desconfiança em relação à Suprema Corte, atingindo 56%, com 68% dos entrevistados defendendo exigências maiores para a nomeação de novos ministros.
O transbordo da crise
Empresários, artistas, economistas e intelectuais divulgaram manifestos falando em “crise institucional de extrema gravidade”, com o Supremo apontado como epicentro e o bordão “ninguém pode estar acima da lei” como síntese. O mercado financeiro reagiu, reduzindo a projeção de crescimento do PIB no relatório Focus e registrando saída de capital. A menos de vinte dias do primeiro turno das eleições, o colapso do STF se transformou em mote de campanhas eleitorais e de manifestações de rua. O material não se perdeu, mas tudo se sentiu perecer.
A lição de Valéry, aplicada ao tempo presente, é dupla. A primeira é que instituições morrem antes de cair: fenecem quando perdem a capacidade de gerar adesão, quando o seu poder passa a depender exclusivamente da força, e não do reconhecimento.
A segunda é que essa morte espiritual é reversível, e a consciência dela é o seu antídoto. Saber-se mortal é o princípio da prudência; a instituição que se descobre finita pode se salvar, ao passo que a que se crê imortal está condenada.
A descoberta da finitude
Reerguer a Persépolis do STF não será obra de maquiagem institucional, mas de recomposição do espírito: autocontenção na forma, previsibilidade nas decisões, transparência nos critérios e a reconstrução daquilo que Valéry chamava de coexistência harmoniosa, no mesmo espaço, de princípios intelectuais que não se digladiam até a destruição mútua.
A crise do STF não é apenas de poder. É uma crise do espírito, no sentido mais valeryano do termo. A questão que fica para o país não é se a Corte sobreviverá às próximas semanas de julgamentos e embates, mas se ela saberá administrar a descoberta da própria mortalidade sem transformar a sensação de perecer em profecia.
*Gilberto Diniz é corregedor e ex-Presidente do Tribunal de Contas

