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20-09-2026 às 08h38
Giovana Devisate*
Não tinha entendido por qual razão decidi arrumar o meu quarto, mudar coisas de lugar, mexer no armário… Esse jamais seria um plano dos sonhos para o final de semana! Vendo o horóscopo, as coisas fizeram sentido: estamos na temporada de virgem, então é a hora de colocar tudo no seu devido lugar.
Se você não acredita em signos, topa pelo menos acreditar em mim? Esse momento é regido por planetas do elemento terra, o que favorece planejamento, arrumação e resolução de pendências. Acho que ficamos mais fazedores, mais pé no chão. Para quem viaja muito no mundo da lua, é ótimo que existam momentos assim.
Dito isso: troquei móveis de lugar e comecei a organizar arquivos, passar pastas importantes para o HD externo e a colocar fotos em álbuns. Separei algumas imagens para imprimir e garantir aos momentos especiais a sua real pequena eternidade. Fiz uma limpa em papéis e reorganizei os livros.
O principal objetivo, depois de tudo isso, foi mexer no meu armário. Essa parte é sempre uma missão de muitos dias porque tenho uma quantidade de roupas imensa e acho enjoativo ter que experimentar tudo para decidir o que precisa de ajuste, o que fica, o que sai e, se sair, para onde vai. Coloco algumas peças nas caixas de doações, outras poucas são colocadas em sacolas, que direciono para venda. Isso acontece com roupa, sapato, bijuteria e tudo mais que mora atrás das portas brancas do meu guarda-roupas.
Eu amo moda e roupa, mas nunca curti comprar e percebo isso ao observar pessoas hiper-consumistas, que nem sabem direito o que mora nos seus armários. Quando paro para ver o que habita o meu e começo a refletir sobre o que vai continuar morando lá por mais tempo, as peças passam por um processo longo de teste e prova… Tenho que separar, pendurar ou dobrar, experimentar, olhar as costuras, vê o que precisa ser ajustado ou consertado… Passo hidratante nos sapatos e nas bolsas de couro, cuido de absolutamente tudo que posso.
Outro dia, em uma festa junina, usei uma bota de montaria de muitos anos, período em que pratiquei equitação de tambores! Eu tinha uns 12 anos de idade, o que indica que o par de botas em questão tem mais de 15, já que tenho 28 anos agora. Nesse dia, uma amiga me disse que o mais chocante era eu ter uma bota que durou mais de uma década.
Não concordo. O que mais me choca é a maioria das pessoas terem peças que só duram até 3 estações. No meu mundo, é inconcebível algo durar tão pouco. Talvez seja essa a razão pela qual tenho tanta dificuldade com relacionamentos modernos em que ninguém quer nada sério e toda a história entre duas pessoas que se gostam tem início, meio e fim em um mísero mês.
Roupa, sapato, bolsa, acessórios… tudo pode durar se a gente cuidar bem delas, assim como as relações. Aí fico pensando que a temporada de virgem chega para organizar tudo mesmo, não só o que mora no nosso armário.
Digo isso porque o que mora na nossa vida também precisa de cuidado, de manutenção. O hidratante que hidrata a bolsa, na vida, é alguma outra coisa, como uma mensagem, um pedido de ajuda, um bilhete de carinho, um presente inesperado, uma bronca que seja necessária, um convite para jantar, uma visita em dia de chuva…
Manutenção não é substituição, mas, sim, o esforço para que aquilo que gostamos fique mais tempo com a gente. Tanto no armário, como na vida, acumulamos coisas e, de tempos em tempos, é extremamente necessário um recuo, um tempo de respiro, para olhar para dentro e refletir sobre o que faz realmente sentido permanecer, seguir para as próximas etapas da vida.
Com o que mora no nosso armário, a manutenção é trabalhosa, mas objetiva. A gente tira tudo do lugar, migra a atenção de uma pilha de roupas para a outra, ajusta uma barra de calça, um buraco na costura de uma camisa, reorganiza aquilo que tinha caído no fundo e ficou fora do campo de visão… A vida que existe dentro dele pode mudar, ao passo que também mudamos aqui fora. Adaptamos suas existências, doamos pequenas ou longas participações a outros espaços e ficamos com o que entendemos que precisa continuar morando ali.
Na vida, é parecido, mas também é muito diferente. Algumas relações precisam de graxa, de cuidado, de redirecionamento, de novos planos. Algumas versões nossas precisam ser deixadas para trás e, nesse movimento, não basta tirar do cabide uma jaqueta e comprar uma nova, que combine mais com o momento, quando puder. Algumas relações deixam buracos que não são costuráveis e as barras, às vezes, são pesadas demais para segurar.
No armário, no entanto, é fácil ver essa organização sendo efetivada, já que enxergamos tudo acontecendo, visualmente. Na vida, o subjetivo substitui a forma e o sufocamento e o aperto no coração substituem o acúmulo de roupas no espaço. O aprendizado que fica é: que não esperemos a temporada de virgem para organizar as coisas. Que não deixemos o coração apertar para saber que não existe outra solução que não mudar algo de prateleira. Seja na vida, seja no armário, devemos olhar com frequência para a saúde das relações e das roupas e cuidar delas, para que fiquem mais tempo com a gente.

