Créditos: Divulgação IA
16-09-2026 às 16h26
Sebastião Gusmão*
A servidão voluntária, especialmente a líderes corruptos e incompetentes, é um dos paradoxos mais inquietantes da condição humana, como evidenciado por Churchill: “a diferença entre os humanos e os animais é que os animais nunca permitem que um estúpido lidere a manada”. O conceito, criado por Étienne de La Boétie, questiona por que multidões aceitam submeter-se ao domínio de um tirano ou líder oportunista e demagogo, muitas vezes abdicando de sua própria liberdade, sem que haja coerção física. A servidão não reside apenas na força do opressor, mas principalmente na ausência de pensamento crítico (ignorância) e na corrupção do caráter (maldade). O mundo físico é feito de átomos, mas o mundo humano (a cultura) é feito de histórias (abstrações). E os opressores criam histórias (ideologias) que se transformam em crenças de dominação.
A ignorância é o solo fértil em que a servidão cria raízes. Quando o indivíduo desconhece sua própria potência e os direitos que lhe são inerentes, ele se torna vulnerável a narrativas de proteção e ordem que, na verdade, mascaram o controle. A falta de conhecimento e de pensamento crítico impede que se enxergue o óbvio: o poder do tirano é alimentado pelo próprio servo. Sem o consentimento o domínio seria impossível. A ignorância, portanto, não é apenas o vazio de informações, mas a distorção da realidade para que se sinta medo da liberdade, preferindo o conforto da prisão conhecida à incerteza do agir livremente.
A servidão, todavia, não se explica apenas pelo desconhecimento; ela é perpetuada pela maldade. Muitos servem voluntariamente porque esperam, em troca, uma pequena parcela de poder para exercer domínio sobre outros. É a hierarquia da tirania: o servo de cima oprime o de baixo para compensar sua própria submissão. Aceita-se a injustiça coletiva desde que a vantagem individual seja preservada. Nesse cenário, a liberdade é sacrificada no altar da conveniência pessoal, e a cumplicidade com o opressor torna-se estratégia imoral de sobrevivência.
A servidão voluntária, portanto, é resultado da prevalência do domínio sobre a autonomia. Romper esse ciclo exige conhecimento que dissipe a ignorância, e compromisso ético que anule a maldade. Enquanto a consciência da liberdade for substituída pela obediência cega, e a empatia for vencida pela ambição pequena, o homem continuará a forjar, com as próprias mãos, as algemas que o prendem.
Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão, enquanto esperava a execução pelo regime nazista, escreveu texto argumentando que a ignorância é pior do que a maldade. O mal pode ser combatido, exposto e até evitado. Já contra a estupidez, somos indefesos, pois ela não responde à lógica ou aos fatos. Não é propriamente a falta de inteligência, mas a renúncia ao pensamento crítico e à fundamentação lógica. Guiadas por ideologias, as pessoas deixam de agir como indivíduos e tornam-se rebanhos, seguidores cegos de um líder oportunista. Enquanto o malvado sabe que faz o mal, o estúpido acredita que está fazendo o bem, o que o torna inalcançável por argumentos e fatos. Ele se guia pela crença e não pela evidência.
A maldade explica o fato de muitos membros da elite instruída alemã terem aderido ao nazismo; e a falta de pensamento crítico (ignorância) explica a multidão de alemães que apoiaram Hitler voluntariamente. Da mesma forma permite compreender os brasileiros que clamam por um regime autoritário, pela servidão ao imperialismo, são adeptos do cristofascismo (associação do fundamentalismo religioso e do poder autoritário) e negam a ciência. Regime autoritário é matar a liberdade. Servidão ao imperialismo é cometer o pecado maior de traição à pátria que na Divina Comédia é punido com o último e mais profundo dos infernos. Cristofascismo é politização da fé e traição à mensagem de amor de Cristo. E negar a ciência é apologia à ignorância. Os antídotos à servidão voluntária são o conhecimento (pensamento crítico) e a compaixão (empatia). E isso está na base das filosofias de Kant e Schopenhauer.
Kant, em Crítica da Razão Pura, afirma que somente a observação precisa dos fatos seguida da análise crítica pelo pensamento racional (sentidos e entendimento) podem levar ao conhecimento verdadeiro. E entrave maior ao conhecimento do que a ignorância é o falso conhecimento, que está na base da falsa informação (fake news). Essa é criação involuntária da ignorância, ou voluntária da maldade, para conquistar a mente dos servos (rebanho). As plataformas digitais mal construídas (com maldade) e mal absorvidas (sem pensamento crítico) nos tornam mais expostos à servidão.
Para Schopenhauer, em O Mundo como Vontade e Representação, a compaixão é o único e verdadeiro fundamento da moralidade, pois o agir moral nasce da percepção direta do sofrimento alheio. O homem compassivo reconhece em si o sofrimento do outro e age para aliviar a dor alheia. A compaixão é a força capaz de anular o egoísmo, impedindo a maldade.
Parece não haver esperança frente à atual onda de ignorância e maldade. Mas, “onde não há esperança, cabe a nós inventá-la” (Albert Camus). Que, nesse ano decisivo para o futuro do Brasil, prevaleçam, nas próximas eleições, o pensamento crítico e a empatia, e não a ignorância e a maldade que levam à eleição de corruptos e oportunistas, matando a democracia e a liberdade, e nos condenando à servidão.
*Sebastião Gusmão é Médico Neurocirurgião, professor, pesquisador e filósofo; professor titular da faculdade federal de neurologia da UFMG: Conta com 13 livros publicados e mais de 27 artigos publicados.

