Créditos: Magnific
12-09-2026 às 10h22
Giovana Devisate*
Na quarta, dia 09, chovia muito em São Paulo. Podia ir direto para a Bienal do livro, pós almoço, mas queria ver mais coisas na cidade. Fui, então, à exposição “Arte da Nossa Gente”, no Museu da Faap. A intenção era visitar a mostra sobre a vida e obra de Joan Miró, mas tive a boa surpresa de, além da exposição do artista catalão, ver uma apenas de arte brasileira.
A mostra reúne mais de 150 obras de muitos nomes importantes para a história da arte do nosso país, como Cícero Dias, Anita Malfatti, Heitor dos Prazeres, Mestre Vitalino, Volpi… O tema que relaciona todas as obras apresentadas é, basicamente, a paisagem. Ou melhor: questionamentos sobre a paisagem ao redor de um país continental como o Brasil.
Com múltiplas linguagens reunidas, como pinturas, esculturas, gravuras, cerâmicas e artes têxteis, o espectador é convidado a refletir sobre pertencimento, memória, cultura, identificação, tradição e modos de existência.
As obras revelam diferentes formas de se relacionar com o território e o título da mostra traz exatamente essa ideia. Penso que o “nossa gente” propõe um olhar reflexivo sobre o Brasil, por meio dos modos de fazer arte de cada artista e dos seus olhares sobre as próprias regiões em que viveram.
No início da mostra, vemos modos de habitar a paisagem. Depois, formas de moldá-la e inventá-la. Mais adiante, jeitos de disputar a paisagem são apresentados, seguidos de maneiras de celebrar a paisagem e de construí-la, a partir de uma ideia não fixa, mas de percepção ativa.
Assim, vemos diferentes maneiras de usar o espaço, de habitar o mundo, de construir vida, de disputar e tensionar barreiras e de criar experiências e memórias. A curadoria não quis encontrar uma única forma de mostrar a paisagem brasileira, nem investiu na afirmação de um estereótipo. Muito pelo contrário: a exposição mostra uma grande diversidade das tradições, das festas populares, das vidas vividas de formas tão diferentes nas grandes cidades e no interior. De forma sutil, o espectador é provocado a perceber tudo isso que existe dentro do próprio país.
O texto curatorial da entrada da exposição diz que “A paisagem aparece como aquilo que reconhecemos, enquadramos e escolhemos representar, mas também como território que se vive pelo corpo, sendo percorrido, sentido, às vezes sonhado. Não é um pano de fundo, mas um ponto de contato.”
A partir disso e da narrativa que fui criando ao caminhar pela sala de exposição, pensei em como cada pintor conta centenas de histórias diferentes sobre um mesmo país, às vezes sobre uma mesma cidade, sobre um mesmo lugar… Pensei sobre como cada obra ali apresenta uma visão de mundo, mas mais especial que isso: apresenta um mundo próprio, inteiro Apresenta um gesto, uma vida, uma tradição específica.
Heitor dos Prazeres, por exemplo, registra o ‘Carnaval nos Arcos’ da Lapa (obra de 1966) e o ‘Samba’ (obra sem datação), no Rio de Janeiro. Zica Bergami mostra os ‘Papagaios’ (obra de 1988), uma cena em que dezenas de crianças se fazem felizes ao controlarem suas pipas no céu. Sérgio Vidal registra música, gente feliz e reunida, comida boa, cachorro e barril de cerveja em ‘Pastel de Camarão’ (obra de 1980). Cícero Dias mostra um ‘Casal com criança’ (obra de 1930) e Nilson Pimenta nos traz a realidade do desmatamento e da exploração ambiental em ‘Pantanal’ e ‘Derrubadas” (obras de 1980 e 1981, respectivamente). Casamentos, procissões, cidades em pleno funcionamento, cenas corriqueiras… Vemos de tudo.
Me questiono: com quantas memórias contamos uma história? Quantas versões únicas e pessoais de uma mesma cena são necessárias para que possamos construir um imaginário universal sobre algo? Com quantas memórias se constrói uma cidade? Com quantas histórias construímos um país?
Múltiplas cenas, múltiplas histórias. Formas de ver o mundo diferentes, formas diferentes de habitar o mundo. Modos distintos de existir, de viver, de trabalhar, de amar, de controlar destinos. Jeitos variados de fazer arte, de habitar espaços criativos, de compartilhar ideias, de dividir o próprio olhar com o outro, de trocar experiências, de contar uma história… Milhares de paisagens existem, dentro do mesmo território.
Se pensarmos no Carnaval, por exemplo, no Rio de Janeiro, podemos imaginar uma cidade que existe apesar do carnaval, mas com grande quantidade de gente que procura a cidade por causa do carnaval. Quem é do Rio, de Salvador, de Ouro Preto, de Recife ou de qualquer outra cidade em que o carnaval atrai milhares de turistas, pode se perguntar: desde quando isso é assim? Quem construiu essa narrativa? Como nascem essas e outras tradições?
Incrível como confiamos nas memórias e nos olhares de quem veio antes da gente. Incrível como a arte nos conta tanto, nos mostra tanto, nos entrega tanto… Que a gente continue construindo memórias, cidades e mundos, habitando os territórios com respeito e sonhando modos de vida. Que a gente continue registrando, contando histórias, construindo novos olhares sobre o mundo.

