Rubens Soalheiro, além de ser diretor comercial da Cemig SIM, aparece como administrador de uma complexa estrutura de branqueamento de capitais. Créditos: Divulgação Diário de Minas
18-08-2026 às 09h42
Samuel Arruda*
A crise envolvendo a Cemig ganhou uma nova dimensão nos últimos dias depois que investigações da Polícia Federal passaram a apurar possíveis relações comerciais entre a Cemig SIM, braço da estatal mineira voltado à geração compartilhada de energia solar, e empresas ligadas ao grupo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central das investigações sobre o Banco Master.
O caso já produziu uma consequência concreta dentro da companhia: o diretor comercial da Cemig SIM, Rubens Soalheiro de Oliveira Matos, foi demitido. A Cemig confirmou que o executivo não integra mais os quadros da empresa. A companhia também informou que encerrou, em maio, os contratos que mantinha com a Green Investimentos, empresa que tinha Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, como presidente.
A suspeita investigada é de que Soalheiro teria facilitado a aproximação e a realização de negócios entre a Cemig SIM e empresas relacionadas ao grupo Vorcaro. As investigações também analisam possíveis conexões entre empresários, agentes políticos e dirigentes da subsidiária da Cemig.
Até o momento, porém, não há conclusão judicial de que Rubens Soalheiro ou qualquer outro funcionário da Cemig tenha cometido crime. A representação encaminhada à Procuradoria-Geral da República fala em possíveis conflitos de interesse, favorecimento administrativo, ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, mas esses fatos ainda precisam ser comprovados pelas autoridades.
O que está sendo investigado
Um dos nomes que aparece no centro da apuração é o de Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro e apontado nas reportagens sobre o caso como integrante do núcleo financeiro-operacional ligado ao ex-banqueiro.
Felipe esteve à frente da Green Investimentos, empresa que manteve negócios com a Cemig SIM. Segundo o Estado de Minas, a suspeita é de que a atuação de Rubens Soalheiro tenha contribuído para a aproximação entre as empresas. A Cemig, por sua vez, afirma que todos os contratos com a Green Investimentos foram encerrados em maio e que atualmente não mantém contrato vigente com o grupo.
Uma representação apresentada pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à PGR pede que sejam investigadas possíveis conexões entre Daniel Vorcaro, o senador Ciro Nogueira, o ex-secretário de Governo de Minas Marcelo Aro e Rubens Soalheiro.
A reação de Mateus Simões
O governador Mateus Simões adotou uma postura de defesa de uma apuração rápida e afirmou que a regra de seu governo é afastar imediatamente pessoas que estejam sob acusação e investigação.
Em declaração dada na segunda-feira (17), Simões afirmou que já havia determinado a demissão do executivo da Cemig SIM e que o governo abriu duas auditorias internas para examinar contratos realizados durante a gestão de Soalheiro.
“Apareceu uma acusação e uma investigação, a pessoa é imediatamente demitida”, afirmou o governador.
Simões também disse que, caso seja comprovado que houve prejuízo aos cofres públicos ou ao patrimônio de Minas Gerais, o governo pretende buscar a responsabilização dos envolvidos e a recuperação dos valores.
O governador procurou ainda se desvincular pessoalmente de Daniel Vorcaro. Segundo Simões, ele nunca teve contato com o ex-banqueiro.
“Não sei quem é, não tenho telefone, nunca troquei mensagem com ele”, declarou.
O fator Marcelo Aro
O episódio ganhou ainda maior peso político porque Rubens Soalheiro é associado ao grupo político de Marcelo Aro, ex-secretário de Governo de Romeu Zema e antigo aliado de Mateus Simões.
A relação política entre Aro e Simões, entretanto, se deteriorou neste ano. Em julho, Simões chegou a afirmar que Aro tinha um “histórico de traições” após o rompimento político entre os dois.
No primeiro debate entre candidatos ao governo de Minas, realizado no domingo (16), o tema Cemig também apareceu. O candidato Gabriel Azevedo criticou a gestão estadual e afirmou que os governos de Zema e Simões teriam loteado cargos na estatal.
A acusação, contudo, é política e não equivale a uma conclusão das investigações policiais.
Demissão não significa culpa
A decisão de demitir Soalheiro antes da conclusão das investigações foi apresentada pelo governo como uma medida preventiva.
É necessário, porém, separar três coisas: a existência de uma investigação, a existência de suspeitas e a comprovação de um crime.
Até agora, o que existe são investigações da Polícia Federal, denúncias e pedidos de apuração apresentados à PGR, além das auditorias determinadas pelo governo de Minas.
O que pode acontecer agora
As duas auditorias determinadas pelo governo de Minas deverão analisar contratos realizados na área comercial da Cemig SIM durante a gestão de Soalheiro. A estatal também rompeu os negócios com a Green Investimentos.
O resultado dessas auditorias poderá responder algumas das principais perguntas que permanecem abertas: como os contratos foram aprovados, quem participou das decisões, quais valores foram movimentados, se houve conflito de interesses e se a Cemig ou seus acionistas sofreram algum prejuízo.
A investigação também poderá alcançar outros agentes caso apareçam novos elementos.
Por enquanto, o episódio coloca a Cemig diante de uma crise que ultrapassa a questão administrativa. A estatal passou a ser mencionada dentro de uma investigação de alcance nacional envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro, enquanto Mateus Simões tenta demonstrar que sua administração está disposta a cortar vínculos e responsabilizar qualquer pessoa que tenha agido de maneira irregular.
O próximo capítulo dependerá menos das acusações políticas e mais dos documentos, contratos, registros financeiros e conclusões das investigações da Polícia Federal e das auditorias internas.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

