Créditos: Magnific
12-08-2026 às 11h10
Samuel Arruda*
A corrida presidencial de 2026 entrou em uma nova fase nesta segunda-feira, 10, com a divulgação de novos números de pesquisas de intenção de voto. Os levantamentos mais recentes confirmam uma disputa concentrada, neste momento, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, embora os percentuais variem de acordo com o instituto e a metodologia utilizada.
Na pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda, Lula aparece com 40% das intenções de voto no cenário estimulado de primeiro turno, contra 35% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado tem 5%, Renan Santos, 4%, e Romeu Zema, 3%. No segundo turno, Lula marca 47%, enquanto Flávio chega a 44%, resultado considerado empate técnico diante da margem de erro de dois pontos percentuais.
Outro levantamento divulgado hoje, da Palver, mostra uma distância semelhante: Lula registra 44%, contra 40% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. No segundo turno, os dois aparecem empatados em 46%. A pesquisa ouviu 5 mil eleitores pela internet entre 3 e 7 de agosto e tem margem de erro de três pontos percentuais.
Os números da semana passada seguem apontando para a mesma tendência. Na Genial/Quaest, Lula tinha 39% e Flávio Bolsonaro, 30%. No segundo turno, o presidente aparecia com 44%, contra 39% do adversário. Já o levantamento Meio/Ideia apontava 43% para Lula e 35% para Flávio no primeiro turno e 48,5% a 43% em um eventual segundo turno.
Lula mantém vantagem, mas segundo turno ganha importância
A principal leitura dos levantamentos não está apenas na liderança de Lula no primeiro turno. O dado politicamente mais relevante é a redução da distância entre o presidente e Flávio Bolsonaro em cenários de segundo turno.
Embora os resultados ainda não indiquem uma vantagem estatisticamente consolidada de Flávio, a proximidade registrada por diferentes institutos mostra que a eleição permanece aberta. Na BTG/Nexus, por exemplo, a diferença de três pontos entre Lula e Flávio está dentro da margem de erro.
Outro aspecto importante é que a maioria dos demais candidatos aparece em patamares bem inferiores aos dois líderes. Caiado, Renan Santos e Zema, embora possam desempenhar papel relevante na formação das alianças e na transferência de votos, ainda não ameaçam diretamente a liderança da dupla nos levantamentos divulgados.
É importante, entretanto, evitar a interpretação de que pesquisa representa resultado eleitoral. Os levantamentos captam o cenário no momento em que os eleitores são entrevistados e podem sofrer alterações durante a campanha, especialmente com o início dos debates, da propaganda eleitoral e da exposição mais intensa dos candidatos.
São Paulo: Haddad e Tarcísio transformam debate em prévia da polarização nacional
Se a eleição presidencial começa a apresentar uma disputa cada vez mais concentrada, São Paulo oferece outro confronto de grande peso político. No primeiro debate entre os candidatos ao governo paulista, realizado pela Band na noite de domingo, 9, Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) apresentaram estratégias claramente diferentes.
O governador e candidato à reeleição procurou defender sua administração a partir de resultados e obras realizadas, enquanto Haddad adotou uma postura mais ofensiva, buscando associar Tarcísio a problemas de segurança, transporte, gestão fiscal e privatizações.
O confronto, portanto, teve menos características de um debate entre dois candidatos tentando apresentar projetos completamente distintos e mais de uma disputa entre duas interpretações sobre os resultados do governo paulista.
Segurança pública foi um dos principais campos de batalha
Na segurança, Tarcísio apresentou como principal argumento os indicadores de criminalidade e o investimento em tecnologia. O governador afirmou que São Paulo alcançou os menores índices de homicídios, latrocínios, roubos e furtos desde o início da série histórica, em 2001, e destacou sistemas como o Smart Sampa e a Muralha Paulista.
Haddad tentou deslocar o debate dos números gerais para problemas específicos. O candidato petista enfatizou o aumento dos feminicídios e dos estupros e defendeu maior comando político sobre as forças de segurança. Sua proposta inclui um Gabinete Institucional de Segurança Pública subordinado diretamente ao governador.
O embate mostra uma diferença importante de estratégia: Tarcísio procura disputar a eleição pelo desempenho administrativo; Haddad tenta demonstrar que os indicadores positivos não representam toda a realidade da segurança paulista.
O momento mais tenso ocorreu quando Tarcísio questionou Haddad sobre sua presença em um evento na Favela do Moinho. O petista negou qualquer proximidade com atividades criminosas e reagiu de maneira mais dura à acusação.
Privatizações: o principal contraste ideológico
A discussão sobre privatizações talvez tenha sido o ponto em que a diferença entre os projetos ficou mais evidente.
Haddad criticou a venda da Sabesp e a política de concessões do governo estadual, afirmando que houve excesso de transferência de ativos públicos para a iniciativa privada. Também atacou a situação da CPTM e utilizou problemas recentes no sistema ferroviário como exemplo de falhas de gestão.
Tarcísio, por sua vez, defendeu as privatizações como instrumentos para atrair investimentos e acelerar obras. Na avaliação do governador, o Estado não precisa necessariamente controlar diretamente empresas e serviços para garantir sua prestação à população. Ele citou investimentos previstos na Baixada Santista e recursos destinados à modernização da rede ferroviária.
A disputa não é apenas administrativa. Ela representa duas visões de Estado: Haddad aposta em maior presença e controle público; Tarcísio defende uma administração com participação mais intensa do capital privado e das concessões.
Economia e obras: disputa pela “paternidade” dos resultados
Na economia, Haddad procurou atingir um dos pontos mais sensíveis de qualquer candidato à reeleição: o desempenho do governo.
O petista afirmou que o Brasil teria crescido 2% nos 12 meses anteriores, enquanto São Paulo teria avançado apenas 0,4%, usando a diferença para questionar a política econômica estadual. Também criticou a demora do governo paulista para aderir ao Propag, programa federal de renegociação das dívidas dos Estados.
Tarcísio respondeu atribuindo a demora a mudanças feitas pelo Congresso na proposta original do programa e destacou investimentos e transferências realizadas durante sua gestão. Segundo o governador, R$ 9,6 bilhões foram repassados aos municípios paulistas em 2025.
O debate também revelou uma disputa particularmente interessante para o eleitor paulista: quem deve receber o crédito pelas grandes obras realizadas ou planejadas em São Paulo?
Haddad tentou vincular obras como o túnel Santos-Guarujá e o trem intercidades ao governo federal. Tarcísio, por sua vez, afirmou que o projeto do túnel está estruturado e conta com recursos estaduais e federais.
Quem saiu fortalecido?
Do ponto de vista estratégico, o debate foi mais importante para Tarcísio como oportunidade de defender seu legado do que para uma tentativa de conquistar uma eleição por meio de uma grande virada.
O governador tinha uma tarefa relativamente clara: apresentar resultados, evitar que Haddad monopolizasse a agenda negativa e reforçar a imagem de gestor. Nesse sentido, sua estratégia foi coerente.
Haddad, por outro lado, tinha uma necessidade diferente. Como desafiante, precisava criar dúvidas sobre a administração Tarcísio. Por isso, atacou privatizações, segurança, transporte, desempenho econômico e questões ambientais.
A estratégia petista também busca nacionalizar parcialmente a disputa paulista. Ao mencionar Lula, políticas federais e recursos da União, Haddad tenta apresentar a eleição como uma escolha entre dois projetos políticos mais amplos.
Tarcísio faz o movimento contrário: procura estadualizar a eleição, concentrando o discurso em obras, indicadores, investimentos e resultados administrativos.
O que o debate não resolveu
Apesar dos momentos de confronto, o debate não foi suficiente para alterar, por si só, o cenário eleitoral. O primeiro encontro serviu principalmente para estabelecer as linhas de ataque que provavelmente dominarão os próximos meses.
A audiência também chama atenção. O debate teve desempenho modesto na televisão aberta, segundo dados divulgados nesta segunda-feira, o que reforça uma questão cada vez mais importante nas campanhas: o debate ainda precisa chegar ao eleitor que não acompanha política regularmente.
Esse pode ser um dos maiores desafios para Haddad, especialmente se sua estratégia depender de transformar críticas pontuais à administração estadual em percepção negativa generalizada entre os eleitores.
Para Tarcísio, o desafio é diferente: transformar a vantagem de uma gestão conhecida em uma campanha capaz de resistir a ataques sobre segurança, privatizações, transporte e custo de vida.
Uma eleição ainda em construção
Os dados divulgados nesta segunda-feira mostram que a disputa presidencial está longe de ser definida. Lula permanece na liderança nos levantamentos recentes, mas Flávio Bolsonaro apresenta força suficiente para tornar o segundo turno competitivo.
Em São Paulo, o primeiro debate confirmou que a eleição deverá ser marcada por uma disputa entre continuidade e mudança, mas também por uma batalha sobre quem consegue apresentar a interpretação mais convincente dos resultados do Estado.
O próximo passo será a sequência de debates e a entrada mais forte da campanha eleitoral no cotidiano do eleitor. Em São Paulo, Haddad e Tarcísio têm novos confrontos previstos para setembro, incluindo encontros organizados por um consórcio de veículos de imprensa, pela Record e pela TV Globo.
Na corrida presidencial, o próximo debate da Band está marcado para 23 de agosto, às 20h, reunindo os candidatos à Presidência.
A partir daí, a tendência é que as pesquisas passem a medir não apenas o conhecimento dos candidatos, mas também o efeito da campanha, dos debates e da exposição das propostas sobre um eleitorado que ainda pode mudar de posição.
Em resumo: Lula começa a nova etapa na frente, Flávio Bolsonaro reduz a distância e São Paulo se consolida como um dos principais palcos da disputa política nacional.
Fontes principais: UOL, para a consolidação dos levantamentos presidenciais de BTG/Nexus, Palver, Quaest e Meio/Ideia; e Band, para a cobertura dos principais temas do debate paulista.
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*Samuel Arruda e Jornalista e editor de politica

