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06-08-2026 às 14h28
Paulo Rezzutti*
Durante o ano comemorativo do bicentenário do nascimento do imperador d. Pedro II (1825-1891), relancei, pela editora Record, a minha biografia “D. Pedro II, a história não contada”. O livro foi revisado e ampliado com diversos documentos inéditos localizados no Arquivo Nacional da Áustria, em Viena, e na Torre do Tombo, em Lisboa. Na introdução, o professor Maurício Vicente Ferreira Jr., diretor do Museu Imperial, fez um levantamento das obras escritas a respeito do último imperador e questionou: “Uma vida e muitos relatos. Há espaço para mais?”.
Chego à mesma conclusão que ele: sim. Somente em 2025, além da minha biografia, o professor Leandro Garcia lançou uma obra a respeito de d. Pedro II e a cultura hebraica. Outros livros também vieram à luz, bem como exposições e artigos. E aqui cabe o reconhecimento a uma das mais louváveis iniciativas referentes a esta efeméride: a Fundação Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora (MG), em parceria com o jornal Diário de Minas, alimentou uma importante coluna dominical no periódico. Sob a coordenação do historiador Sérgio Augusto Vicente, o jornal estampou 22 artigos publicados entre 3 de agosto e 28 de dezembro escritos por pesquisadores brasileiros que se debruçaram sobre d. Pedro II e o acervo do museu, que possui uma das maiores coleções a respeito do império do Brasil.
Rememorar d. Pedro II em seu bicentenário é relembrar que, de todos os governantes do Brasil, ele foi o primeiro brasileiro nato. O seu nascimento, em 2 de dezembro de 1825, no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, coroou o processo da Independência. Pouco antes, o seu avô, d. João VI, havia ratificado e mandado publicar em Lisboa o tratado em que Portugal aceitou a separação do Brasil, abrindo caminho para todas as grandes potências reconhecerem o novo país.
Desde cedo, os olhos da nação voltaram-se para a criança, sobre a qual caíram todas as esperanças e desejos de um futuro maravilhoso. Ela deveria ser criada para corresponder a essas expectativas. Um exemplo material do modelo de governante que se buscava apareceu em 1832, um ano após a abdicação de d. Pedro I, quando foi publicada em português, pela primeira vez, a obra “O retrato de Marco Aurélio por ele mesmo”, traduzida por Antônio Gomez Ferreira Brandão, secretário da legação brasileira em Paris. O livro, dedicado a d. Pedro II, traz uma rara gravura do imperador criança e um comentário no frontispício: “A história consagrou o nome de Marco Aurélio para modelo de todos os reis da terra”.
Marco Aurélio (121-180) foi um imperador romano lembrado como modelo de rei-filósofo, elogiado pela sua sabedoria estoica e modéstia e que teve a vida marcada pela dedicação ao dever, pelo senso de justiça e por sua preocupação com o bem-estar de seu povo. Muitos são os que repetem a história de d. Pedro II ter sido chamado de “neto de Marco Aurélio” pelo escritor francês Victor Hugo, porém é pouco lembrado que um sábio não nasce pronto. Havia, desde a mais tenra idade, um projeto para tornar d. Pedro um imperador que atendesse aos anseios da sociedade e que governasse a nação com sabedoria. Um meio de aprendizado do jovem soberano eram os exercícios de caligrafia aplicados pelo seu mestre, Luís Aleixo Boulanger. Neles, o jovem pupilo, além de exercitar a letra, gravava na mente as frases morais e os pensamentos sobre a arte de governar que copiava. O Museu Mariano Procópio, em Minas Gerais, a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, em São Paulo, outras instituições e colecionadores particulares possuem alguns exemplares desses exercícios realizados por d. Pedro II. No artigo “Caligrafando a nação”, os historiadores Priscila da Costa Pinheiro Boscato e Sérgio Augusto Vicente debruçaram-se sobre o tema.
O Museu Mariano Procópio é um dos grandes receptáculos de lembranças do Império. Como lembrou o historiador Paulo Knauss em sua exposição “A partilha do imperador Pedro II”, no Museu da Justiça, no Rio de Janeiro, a ânsia da República em acabar com a presença e a memória da família imperial após o golpe de 15 de novembro de 1889 levou a sucessivos leilões do Paço. Mas, o resultado alcançado foi o oposto: objetos do dia a dia dos Braganças tornaram-se peças de colecionismo e de recordações. Pratos, lenços, retratos, móveis foram adquiridos por monarquistas e por colecionadores amadores ou experientes. Alfredo Ferreira Lage, fundador do Museu Mariano Procópio, foi um dos que arrematou significativos lotes de objetos, como recorda a professora Lilia Moritz Schwarcz em seu artigo “Museu Mariano Procópio: ‘um Museu com Alma’”.
D. Pedro II, ao ocupar o posto de norte da bússola brasileira, tinha, desde a juventude, a atenção de todos. Seus gestos, diferentes dos do pai, eram contidos e sobretudo políticos. Por meio deles, buscava influenciar a sociedade, por exemplo, ao doar dinheiro para compra de alforrias, mostrando-se assim favorável à libertação dos escravizados, ou ao recusar que se erguessem estátuas em sua homenagem, mandando que o dinheiro fosse usado para construir escolas. Como um influencer de sua época, suas curiosidades e interesses serviam para moldar a nação. A fotografia foi uma de suas paixões. Além de ter sido provavelmente o primeiro fotógrafo amador brasileiro, d. Pedro II foi um grande colecionador e uma das pessoas mais fotografadas e retratadas de seu tempo. Mas o modo de se deixar retratar, quer em pinturas, gravuras ou fotos, não era algo meramente casual. Tudo tinha um objetivo e uma narrativa que espelhava o que ele gostaria de deixar registrado para a sua biografia, como explicam as historiadoras Fátima Argon, no seu artigo “As imagens na biografia de d. Pedro II”, e Rosane Carmanini Ferraz, em “Um novo mundo de imagens: d. Pedro II e a fotografia”.
Ainda quanto à forma como o imperador guiou a lembrança de seu legado para a posteridade, as professoras Lucia Maria Paschoal Guimarães e Tânia Bessone refletem em seu artigo “Como o último imperador do Brasil construiu sua própria imagem para a história” a maneira pela qual isso se deu através da parceria entre o trono e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, uma das grandes instituições de guarda da memória do país, criado sob a proteção de d. Pedro II.
O imperador ausente, tanto do Brasil quanto do plano terreno, é estudado por Carlos Lima Jr., por meio de um dos diversos cartões-postais pertencentes ao acervo do Mariano Procópio, retratando o castelo d’Eu, residência da princesa Isabel na França. O autor leva a compreender como a produção e difusão das imagens de elementos evocativos a d. Pedro II e ao Segundo Reinado serviram de suporte visual para a correspondência de defensores da causa monárquica.
Esses são apenas alguns dos 22 ótimos artigos produzidos para esta iniciativa do Museu Mariano Procópio, demonstrando que o interesse sobre d. Pedro II e o período imperial se encontra extremamente vivo. Ações como esta, durante o bicentenário de seu nascimento, ajudam a arejar o objeto de estudo, abrindo caminhos a novas pesquisas e à divulgação do conhecimento.
Gostaria de ler ou reler os artigos? Basta clicar no seguinte link: https://diariodeminas.com.br/coluna-d-pedro-ii-200-anos-se-encerra-com-muitos-agradecimentos-e-expectativas-para-2026/
(*) Paulo Rezzutti é pesquisador, curador, escritor e divulgador científico, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e dos institutos históricos de São Paulo, Minas Gerais, Petrópolis e Campos dos Goytacazes. Prêmio Jabuti na categoria biografia (2016) com sua obra sobre d. Pedro I do Brasil, publicado em Portugal como d. Pedro IV. É vencedor do Prêmio Descobertas do Ano da Revista Aventuras na História (2021). Autor da coleção A história não contada, publicada no Brasil pela editora Record, com as biografias de d. Pedro I, d. Pedro II, d. Leopoldina e marquesa de Santos. É curador da coleção de Brasil Império e do Ciclo de História da Fundação Maria Luísa e Oscar Americano, em São Paulo. Em 2026, no bicentenário do falecimento de d. João VI, lançou em Portugal, pela editora Penguin, e, no Brasil, pela Editora Record, sua nova biografia: D. João VI, a história não contada.

