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30-07-2026 às 16h54
Caroline Fakhouri*
Woody e Buzz Lightyear já enfrentaram brinquedos novos, mudanças de casa e até o crescimento de seus donos. Em Toy Story 5, porém, o desafio é outro: disputar a atenção das crianças em uma rotina cada vez mais mediada por celulares, tablets e outros dispositivos digitais. A história acompanha uma transformação que já faz parte do dia a dia de muitas famílias e abre espaço para uma pergunta que preocupa educadores: em uma infância cada vez mais conectada, as crianças continuam tendo oportunidades suficientes para aprender a fazer amigos?
A preocupação é reforçada pelo relatório How’s Life for Children in the Digital Age (Como está a vida das crianças na era digital), publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2025. Segundo o documento, embora a tecnologia ofereça oportunidades de aprendizagem e comunicação, ela não substitui as experiências de convivência presencial, consideradas essenciais para o desenvolvimento social e emocional das crianças. A recomendação é que famílias e escolas busquem um equilíbrio entre o tempo de tela e as interações no mundo real.
Para Marília Paiva, Supervisora Pedagógica da Rede Fadelito de Educação Infantil, esse alerta merece atenção porque a amizade não acontece de forma automática. Ela é construída no cotidiano, por meio das relações que a criança estabelece desde os primeiros anos de vida.
“Existe uma ideia de que fazer amigos é algo natural, mas essa também é uma aprendizagem”, explica a educadora. “A criança desenvolve habilidades sociais quando brinca com outras crianças, negocia regras, aprende a esperar a sua vez, enfrenta pequenas frustrações e vai percebendo que o outro pensa e sente de maneira diferente. São experiências que nenhuma tecnologia consegue reproduzir completamente.”
Segundo a especialista, as crianças de hoje continuam desejando se relacionar, mas a rotina mudou. “O desafio não é a tecnologia em si. Ela faz parte da infância contemporânea e pode ser uma aliada quando utilizada com equilíbrio. A questão é que, muitas vezes, ela ocupa o espaço que antes era dedicado às brincadeiras livres e à convivência presencial. E é justamente nesses momentos que a criança aprende a cooperar, compartilhar, resolver conflitos e construir vínculos.”
A discussão também é respaldada por evidências científicas. Em um relatório publicado em 2025, o UNICEF afirma que, embora a tecnologia faça parte da infância contemporânea e possa favorecer a aprendizagem, ela não deve substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento, como as brincadeiras, a convivência presencial e a construção de vínculos entre crianças. O documento destaca que essas interações são essenciais para o desenvolvimento emocional, social e da capacidade de convivência.
Na prática, nenhuma tecnologia substitui plenamente as brincadeiras livres, a interação com outras crianças, as atividades físicas e a convivência familiar.
Brincar é uma forma de aprender a conviver
“Muito antes da alfabetização, as crianças aprendem a viver em grupo. É durante as brincadeiras espontâneas, os jogos coletivos e até os pequenos desentendimentos que elas desenvolvem competências como empatia, comunicação, cooperação, autorregulação emocional e resolução de conflitos”, explica Marília.
“Quando duas crianças precisam decidir juntas como será uma brincadeira, dividir um brinquedo ou resolver um desentendimento, elas estão construindo repertório emocional para lidar com situações que vão encontrar ao longo de toda a vida”, completa.
A escola também ensina a fazer amigos
Em uma rotina cada vez mais mediada por telas e agendas cheias, a escola ganha importância como um dos principais espaços de convivência da infância. É ali que as crianças encontram diariamente colegas com diferentes personalidades, aprendem a respeitar limites, fazem acordos, enfrentam frustrações e descobrem como construir relações saudáveis.
“Aprender a fazer amigos também faz parte do currículo da infância, mesmo que isso aconteça de maneira espontânea, nas brincadeiras e na rotina escolar”, afirma a Supervisora Pedagógica da Rede Fadelito de Educação Infantil.
“Ou seja, a Educação Infantil vai muito além da preparação para a alfabetização. Ela cria oportunidades para que as crianças convivam, experimentem diferentes formas de interação e desenvolvam habilidades socioemocionais fundamentais.”
Em uma infância cada vez mais conectada, criar oportunidades para que as crianças convivam presencialmente se tornou uma tarefa compartilhada entre famílias e escolas. Segundo Marília Paiva, o objetivo não é afastar a tecnologia da rotina infantil, mas garantir que ela não substitua experiências fundamentais para o desenvolvimento.
Como estimular as crianças a brincar mais e aprender a fazer amigos
“A criança não aprende a se relacionar apenas ouvindo que precisa respeitar o outro. Ela aprende vivendo situações reais de convivência. É na brincadeira que ela experimenta diferentes papéis, entende limites, percebe sentimentos e constrói estratégias para estar em grupo”, explica Marília.
Segundo a especialista, pequenas mudanças na rotina podem ampliar as oportunidades para que as crianças desenvolvam vínculos, autonomia e habilidades sociais. Confira algumas orientações:
- Reserve tempo para a brincadeira livre
Nem toda brincadeira precisa ter um objetivo definido ou ser conduzida por um adulto. Quando a criança tem espaço para imaginar, criar histórias, combinar regras e decidir como a brincadeira vai acontecer, ela desenvolve autonomia, criatividade e capacidade de negociação.
“Uma situação simples, como duas crianças decidirem juntas quem será cada personagem em uma brincadeira de faz de conta, já envolve uma série de aprendizagens. Elas precisam conversar, ouvir a opinião do outro, negociar e chegar a um acordo. Esse processo é muito rico para o desenvolvimento social”, afirma Marília.
A especialista recomenda que as famílias reservem momentos da semana para brincadeiras sem roteiros prontos, seja com blocos de montar, fantasias, massinha, desenhos, caixas de papelão ou objetos do cotidiano que estimulem a imaginação. “Quando o adulto organiza cada minuto da rotina, a criança perde oportunidades de criar, negociar e resolver situações por conta própria.”
- Priorize encontros presenciais
A amizade precisa de convivência para se fortalecer. Por isso, criar oportunidades para que a criança esteja com outras crianças fora dos ambientes digitais é fundamental.
“Passeios em praças, tardes no parque, encontros com colegas da escola, brincadeiras no condomínio ou visitas aos primos oferecem oportunidades para que a criança pratique habilidades importantes, como convidar alguém para brincar, esperar sua vez, lidar com diferenças e construir vínculos de confiança”, ressalta Marília.
Segundo ela, não é preciso esperar uma ocasião especial. Um encontro simples entre duas famílias em um fim de semana ou alguns minutos extras no parquinho depois da escola já podem favorecer novas amizades.
- Equilibre o tempo de tela com outras experiências
A tecnologia faz parte da infância atual e pode oferecer benefícios quando utilizada de maneira adequada, mas não deve substituir experiências que envolvam movimento, criatividade e interação.
“O ponto principal não é retirar completamente as telas, mas observar o que elas estão substituindo. Se a criança deixa de brincar, conversar, correr ou conviver com outras pessoas porque está sempre conectada, é preciso rever esse equilíbrio”, afirma Marília.
Ela sugere criar momentos do dia livres de celulares e tablets, como durante as refeições, antes de dormir, em passeios ou nos períodos destinados às brincadeiras. Também vale trocar parte do tempo de tela por atividades compartilhadas, como cozinhar em família, cuidar de uma planta, montar um quebra-cabeça, desenhar ou brincar ao ar livre.
- Resgate as brincadeiras em grupo
Brincadeiras coletivas continuam sendo uma das formas mais eficazes de desenvolver habilidades socioemocionais. Jogos de faz de conta, esconde-esconde, pega-pega, amarelinha, brincadeiras com bola, jogos de tabuleiro e atividades cooperativas ensinam muito mais do que diversão.
“Quando uma criança participa de uma brincadeira em grupo, ela aprende a ouvir, esperar, colaborar, lidar com frustrações e compreender que nem sempre as coisas acontecem da forma como ela imaginou. São aprendizados que nenhuma atividade individual consegue oferecer da mesma maneira”, explica a especialista.
Segundo Marília, o importante não é a sofisticação da brincadeira, mas a oportunidade de compartilhar experiências com outras crianças.
- Permita que as crianças resolvam pequenos conflitos
Discussões sobre quem começa a brincadeira, quem fica com determinado brinquedo ou quais serão as regras do jogo fazem parte da infância e podem ser oportunidades valiosas de aprendizagem.
“Às vezes, o impulso do adulto é resolver imediatamente qualquer desentendimento. Mas, quando o ambiente é seguro, vale a pena dar um tempo para que as próprias crianças conversem e tentem encontrar uma solução. É assim que elas desenvolvem autonomia, capacidade de negociação e aprendem a considerar o ponto de vista do outro”, afirma Marília.
Ela ressalta que a intervenção dos adultos continua sendo essencial em situações que envolvam risco à integridade física e emocional da criança, sofrimento ou desrespeito, mas nem todo conflito precisa ser resolvido por um adulto. Em tempo: tais conflitos fazem parte da infância e não devem ser vistos como um problema.
- Dê o exemplo dentro de casa
As crianças aprendem muito mais pelo comportamento dos adultos do que apenas pelas orientações que recebem. Pequenos hábitos, como fazer refeições em família, conversar sobre o dia, receber amigos em casa e criar momentos de atenção exclusiva para a criança, ajudam a fortalecer a conexão e mostram, na prática, o valor da convivência. “Se a criança percebe que os adultos ao seu redor deixam o celular de lado para conversar, escutam uns aos outros e valorizam momentos juntos, ela entende que as relações humanas são importantes”, conclui Marília.
Sobre o Fadelito: Fundado há 27 anos, o Fadelito é uma rede pioneira dedicada exclusivamente à Educação Infantil, com atuação voltada à valorização da primeira infância como uma fase decisiva para o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e físico das crianças. Com 36 unidades distribuídas na capital paulista, Grande São Paulo e interior do Estado de São Paulo, a rede já contribuiu para a formação de mais de 35 mil crianças e conta atualmente com cerca de 1.600 colaboradores. Especializado no atendimento de crianças de 4 meses a 6 anos, o Fadelito possui metodologia própria, desenvolvida por um comitê pedagógico multidisciplinar e aprimorada continuamente a partir de estudos e novas descobertas da Educação Infantil. Entre seus diferenciais está o Baby Learning, programa multidisciplinar criado para bebês do berçário, que integra conhecimentos de Pediatria, Fisioterapia e Pedagogia para estimular, de forma planejada e respeitosa, o desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social de cada criança, considerando as particularidades de cada fase da primeira infância. Mais do que uma rede de escolas, o Fadelito trabalha ativamente para fortalecer a compreensão de que investir nos primeiros anos de vida é investir no desenvolvimento humano e no futuro da sociedade.

