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26-07-2026 às 09h06
Giovana Devisate*
Estava de férias e por isso não apareci nas duas últimas semanas. Peço desculpas a você, leitor, mas fazia muito tempo que não viajava para curtir, descansar, brindar a vida, me distrair, sem grandes responsabilidades. Vivo sempre na correria. Desde nova, as férias eram o momento de me dedicar ainda mais às coisas que, no dia a dia da escola, da faculdade, do trabalho, eu não conseguia. Sempre fiz inúmeros cursos, participei de projetos diferentes e pesquisas, criei metas de leitura, estudei, atualizei portfólios e por aí vai… Férias, no sentido de descanso, como está no dicionário, quase nunca fez parte da minha vida.
Agora, no entanto, fiz uma viagem mágica de vinte e um dias, com quatro amigas. A viagem foi incrível, começando por Madrid, na Espanha, seguindo para os Bálcãs: Croácia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Albânia, Grécia e, por último, voltei para Madrid, para retornar ao Brasil. Muitas cidades diferentes, muitas praias lindas, muita comida local e sem glúten, muita história e muita cultura. Não descansei o corpo, porque foi uma viagem agitada, mas consegui, de certa maneira, descansar a alma. Foi absurdamente incrível, ainda mais porque passei o meu aniversário na Albânia, em praias paradisíacas.
No dia 14 de Julho , completei 28 anos. Não sei por qual razão, o meu aniversário esse ano foi, internamente, algo revolucionário. Acho que bateu diferente para mim e, por isso, queria que fosse algo diferente. No geral, amo comemorar aniversário, fazer festas, reunir pessoas. No entanto, nesse ano, a vontade foi de não comemorar, mas de digerir tudo o que chegou com essa data. Por isso eu adorei não estar no Brasil e não dividir o dia com tantas pessoas, como sempre amei fazer. Adorei não comemorar do modo tradicional “à la Giovana”.
Acho que isso tem relação com envelhecer. Ou melhor, com a passagem do tempo. Envelhecer, por si, não é uma questão. Muito pelo contrário: acho que lido relativamente bem com isso. Talvez, no entanto, não lide tão bem com a passagem de tempo e a falta de clareza que esperava ter ao amadurecer. Parece que as coisas ainda estão muito turvas e eu não consigo entender para onde ir, até onde, até quando. Todas as incertezas me causam culpa, dúvida, desconforto e existe uma desconfiança enorme em relação a vida, que mora nas escolhas, nos caminhos e em quem sou.
Existe medo de amar, que acredito ser pior que o medo de não ser amado. Existe medo de errar de novo e de novo e de novo em coisas que, penso, não tenho mais tempo para errar, apesar de, bem no fundo, saber que tenho, sim. Existem ainda as inúmeras falhas que a gente coleciona e esquece, mas que ressurgem sempre que não precisamos lembrar delas… Acho que são essas falhas que nos mostram que os erros do passado assombram o presente mais que os erros de hoje assombrarão o amanhã. A gente ganhou certa consciência com o passar do tempo, então tem coisa que não funciona mais como antes.
Penso que existe um medo tão grande de todas as coisinhas que ultrapassam os meus limites e criam obstáculos com os quais não sei lidar que me pergunto se um dia saberei. Chego à conclusão de que o que nos resta é ir vivendo, passando por cima, desviando e não necessariamente encarando todos eles.
Ao completar 28 anos, penso na minha saúde e nas histórias que criam fissuras na minha vida e comprometem a minha existência: se vive uma vida plenamente feliz com tantas coisas que, eventualmente, me puxam para trás? Como é estar no paraíso, nas praias do mar adriático, nas águas cristalinas e ainda sentir o vazio que não deixa de me acompanhar? Será que tem alguma chance de existir apesar de tudo?
Percebi, nesse ano, que talvez eu não precise encontrar respostas para entrar nos vinte e oito anos. Talvez seja apenas necessário escolher algumas direções. Durante a viagem, de pouco em pouco, fui construindo uma lista de 28 verbos, não para criar metas ou fazer promessas, mas me guiar através de palavras que, ainda que no infinitivo, indicam movimento. Eu amo movimento e é disso que a vida precisa!
01. OBSERVAR, antes de tirar conclusões.
02. CAMINHAR, sem precisar saber exatamente para onde.
03. VIAJAR, para mudar o olhar.
04. REPARAR, nas coisas pequenas.
05. COLECIONAR, referências, histórias, imagens, sorrisos e amores.
06. ESCREVER, para dividir o peso da vida com as palavras.
07. LER, para entender mais do mundo e viver outras vidas.
08. CRIAR, para descobrir o que penso.
09. FOTOGRAFAR, para dividir com o outro o que meus olhos são capazes de registrar.
10. VESTIR, o que faz sentido para mim.
11. EXPERIMENTAR, o gosto do mundo antes de declarar amargura.
12. MUDAR, de ideia, de rota, de planos.
13. DESAPRENDER, as certezas que me limitam.
14. RECOMEÇAR, quantas vezes forem necessárias.
15. DESCANSAR, sem transformar a pausa em culpa.
16. COZINHAR, para viver e descobrir os gostos que podemos criar.
17. CUIDAR, do corpo que me leva para o mundo.
18. ESCOLHER, com mais intenção.
19. RECUSAR, tudo o que já não cabe.
20. PERMITIR, que algumas coisas sejam imperfeitas.
21. AGRADECER, pelo que ficou, pelo que sou, pelo que vive aqui.
22. SOLTAR, o que precisa ir.
23. PERGUNTAR, mais do que afirmar.
24. DESEJAR, sem pedir desculpas por querer.
25. ARRISCAR, mesmo sem garantias.
26. AMAR, as pessoas, os lugares, os bichos, as coisas.
27. CELEBRAR, as pequenas e as grandes coisas.
28. CONTINUAR, curiosa, atenta, insaciável.
Quero que, ao registrar essas palavras aqui, eu as revisite e me lembre de ter fé, especialmente no invisível. Espero, também, que eu não esqueça de quem desejo continuar sendo enquanto os anos passam e de que, talvez, envelhecer não seja acumular respostas e, sim, aprender a escolher melhor os verbos. Quem sabe, a partir de agora, o verbo “descansar” finalmente possa ser um dos escolhidos também…

