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21-07-2026 às 09h32
Sérgio Augusto Vicente*
Algo tirava a paz daquele velho e doente senhor. Na sua falta, quem poderia cuidar do patrimônio construído ao longo de uma vida de intenso trabalho? Qual dos três filhos estaria preparado para essa missão? Decidiu, então, desafiá-los, entregando a cada um uma nota de dez reais. Aquele que conseguisse colocar em prática a façanha de comprar, com essa quantia, algo com que pudesse encher a sala de sua casa seria o mais apto a sucedê-lo.
O primeiro filho teve a ideia de comprar algodão. Com dez reais, porém, nada resolvido. A quantidade que se podia adquirir com tal quantia era mais irrisória do que um fiapo de carne que mal tampa o buraco de um dente.
O segundo filho pensou em comprar penas, mas logo ponderou: com dez reais apenas, não era possível fazer milagre.
O terceiro filho, enquanto isso, foi rapidamente ao mercado e de lá voltou com quatro objetos no bolso da calça. Os dois irmãos acreditavam estar diante da mais despropositada das ideias.
O homem ouviu as críticas e permaneceu em silêncio. Esperou anoitecer para demonstrar seu intento.
Passadas algumas horas, pediu ao pai e aos irmãos que apagassem as luzes da sala. A escuridão tomava conta do ambiente como um imenso e maciço bloco de carvão. De repente, pega um dos quatro objetos e o acende com o único palito de fósforo que carregava no bolso do paletó. Todo o ambiente, há pouco tomado pela penumbra, torna-se visível. Ainda opaco e com pouca nitidez, mas o suficiente para que todos não se perdessem por entre aquelas quatro paredes.
Logo em seguida, o mesmo filho saca do bolso mais três velas e as entrega aos irmãos e ao pai. “E o que faremos com isso?” Questionaram todos.
“Acendam-nas e as coloquem nos outros cantos da sala!” Logo encostaram os pavios na vela acesa. Em instantes, a claridade se intensificou, alcançando cada cantinho da parede, do chão ao teto, tornando mais nítidos os detalhes daquele ambiente.
A claridade das chamas refletia no rosto e nos olhos do pai, que assistia a tudo admirado e com um sereno sorriso. Não hesitou, assim, em fazer a escolha que, pouco tempo atrás, tirava-lhe a paz.
Moral da história: a luz, além de ser a única coisa capaz de nos preencher o vazio da alma, multiplica-se. Uma vela nunca perde nada, absolutamente nada, quando acende a outra vela.
* Sérgio Augusto Vicente é historiador, professor, escritor e curador, com mestrado, doutorado e graduação em História pela UFJF. Editor de de cultura do Diário de Minas.

