Créditos: Divulgação
10-07-2026 às 08h05
Caio Brandão*
O filósofo libanês Gibran Khalil Gibran, no seu livro mais conhecido, O Profeta, amparou a minha decisão de permitir que a minha filha mais velha, Janaína, que na época contava apenas dezoito anos, fosse para Hong Kong, em plena transição de colônia da Inglaterra, para Região Administrativa Especial da China Continental.
O momento era tenso e havia forte atrito entre Londres e Pequim ao longo de todo o ano de 1993, porque os chineses alegavam que as mudanças violavam os acordos prévios da Declaração Conjunta Sino-Britânica. Mas isto não me dizia respeito e, ademais, me atinha apenas aos conselhos de Gibran, quando ele dizia:
— “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora estejam convosco, não vos pertencem. (…) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são lançados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com Toda a Sua força para que Suas flechas voem rápidas e para longe.”
Decisão difícil, mas ela estaria amparada e protegida, tanto quanto possível, e não apenas aceitei, como incentivei a decisão.
Ver aquela jovem de dezoito anos arrumar as malas rumo ao desconhecido, cruzando oceanos em direção a um território que fervilhava em transformações, fez o meu coração de pai apertar, mas também se encher de orgulho. Eu sabia que Hong Kong, com seus arranha-céus reluzentes e mercados tradicionais, seria o cenário onde a minha flecha traçaria o seu próprio voo.
Hoje, olhando para trás e vendo a mulher em que ela se tornou, concordo com o arqueiro, porque cada um deve traçar o seu destino em face das suas escolhas e assumir consequências. Após a sua partida, dela recebi uma carta, acolhida em Curitiba, a qual respondi em 01 de setembro de 1993, e que ora transcrevo.
Curitiba, 01 de setembro de 1993
Querida Janaína,
Foi bom receber sua carta. Sempre me considerei, na sua idade, vocacionado para grandes desafios e você me superou, o que é ótimo.
Fico muito feliz em vê-la realizando os seus sonhos e encarando a sua própria realidade.
Lembre-se de que um mesmo caminho pode ser trilhado de muitas maneiras, cabendo a você perceber aquela que melhor se ajusta aos seus anseios e às suas expectativas. Para cada aclive, ao longo do percurso, sempre existirá uma descida para lhe permitir retomar o fôlego e seguir a sua jornada.
Nem sempre o destino final é o mais importante, mesmo porque, em que pesem as encruzilhadas da vida, sempre haverá algum destino. O aprendizado se faz enquanto se caminha, e chegar nada mais representa do que olhar para trás e avaliar o que se fez, como se fez, e o que se deixou de fazer e por quê.
Assim, querida filha, a vida é feita de atitudes, ou seja, do semear que cada um procede a seu modo e a seu tempo. Portanto, caminheira e semeadora, tenha a visão na linha do horizonte, mas mantenha o passo firme e embase as suas ações com o melhor do seu intelecto, em harmonia com as suas convicções de foro íntimo e atenta ao pulsar do seu coração que, tenho certeza, reúne o que de melhor uma jovem adolescente pode oferecer a si mesma e aos seus circunstantes.
Explore o seu sorriso, defenda-se com ele, faça-o instrumento de ataque, se necessário, mas jamais o utilize como desdém ou deboche.
Não tenha receio para externar posições em que realmente acredita e, lembre-se, a arte de fazer amigos pode estar mais próxima da sinceridade do não do que da pluralidade do sim.
Estar em outro país, conviver com outra família, falando outro idioma a par de costumes diferentes dos seus exige, no mínimo, bom-humor. E bom-humor também é a prática constante das palavrinhas mágicas que você desde cedo incorporou ao seu dia a dia: por favor, com licença e obrigado. A entonação, o volume e a expressão facial podem fazer milagres com essas palavrinhas.
Assim, facilite a sua vida e abuse da sua simplicidade; você se surpreenderá com o alcance dessas palavras aparentemente tão sem importância. Lembre-se e valorize a pontualidade, que é sinal de respeito e consideração para com as pessoas, o seu trabalho, as instituições e de grande valia até no ponto de ônibus.
O sucesso do conviver pode estar muito mais próximo da naturalidade do que você imagina. Respeitar o espaço alheio não é renunciar ao seu, e ser natural também é se esforçar para ficar incorporada ao cenário, fazer parte dele sem afetação, sem exibicionismo, mas também sem abdicar das peculiaridades que fazem de você, você.
Assim, em sendo você mesma e em sintonia com o seu meio, valendo-se do seu sorriso e praticando as palavras mágicas, o seu semear lhe trará realizados muitos dos seus sonhos, minha querida filha caminheira.
Entre os erros e acertos que praticar, não fique tão somente com a euforia ou com a angústia, mas, acima de tudo, guarde consigo as lições, porque amanhã, de qualquer forma, será sempre outro dia e você poderá renascer, sempre, perante você mesma.
Com o meu forte abraço e o da Anna, bem como das suas irmãs, fique bem.
*Caio Brandão é jornalista

