Créditos: Divulgação
25-06-2026 às 09h12
Marcos de Noronha*
No decorrer da história, vamos aperfeiçoando o conhecimento sobre os fenômenos. Hoje encaramos o autismo de uma forma mais coerente do que outrora. Não faz muito tempo que Leo Kanner, do Hospital Johns Hopkins, contou, em 1938, sobre um de seus pacientes, o senhor Kanner. O médico ficou intrigado com seus padrões de comportamento, como a necessidade obsessiva das mesmas coisas, a memória de repetição e o desinteresse por relações sociais. Eram sintomas que não se encaixavam em nenhuma categoria de esquizofrenia ou psicose infantil conhecidas na época.
Como o autismo — ou melhor dizendo, os autismos — se trata de um quadro complexo, a sociedade acaba arriscando cultivar visões simplistas e soluções mágicas que nos confundem ainda mais. Pelo visto, não há apenas um tipo de autismo, e ainda mais, vários traços que sugerem esta patologia foram classificados num espectro. Os posicionamentos científicos mais sensatos nos levam a entender o Transtorno do Espectro Autista como um transtorno do neurodesenvolvimento de etiologia complexa. Vejam que ele se manifesta desde a infância, e os desafios só aumentam para esses pacientes na idade adulta. Também é consenso sua alta herdabilidade; porém, para não nos tirar as esperanças, os fatores epigenéticos também são expressivos. Quero dizer que esses casos possuem forte interação ambiental, de forma que uma intervenção precoce nas crianças com a patologia pode ser fundamental para o seu futuro.
Se nos referirmos ao neurodesenvolvimento humano, estamos falando sobre conectividade cerebral e possíveis falhas, como alterações sinápticas ocorrendo durante o desenvolvimento. Porém, um fator em destaque nos nossos congressos, e de natureza intrigante, é o papel da neuroinflamação na modulação dos sintomas dos autistas. Este tema já é destaque quando o assunto é depressão. Quando tive contato pela primeira vez com o tema, eu pensei: “vamos tomar, então, anti-inflamatórios para depressão?”. Pelo visto, não bastaria. Novas moléculas são descobertas, e suas ações em mecanismos inflamatórios são examinadas com atenção.
Por mais que possamos recorrer a testes neuropsicológicos, o diagnóstico médico é eminentemente clínico. Muitas vezes, são os professores que percebem a limitação da criança ou interpretam sintomas sugestivos da condição. Elas raramente fixam o olhar nos olhos ou na boca de outra pessoa. Apresentam atos estereotipados, como andar nas pontas dos pés, além de limitações na escolha de alimentos e dificuldades com a consistência de certas texturas. Essas peculiaridades em um lar podem gerar conflitos com os pais e a família, que ainda não compreendem a patologia. A partir dos 3 anos de idade, é possível compreender melhor que estamos diante de uma criança com TEA (Transtorno do Espectro Autista), como é popularmente chamado o espectro.
É consenso que o diagnóstico precoce pode ser importante para amenizar as diversas consequências desse distúrbio do desenvolvimento, por meio de abordagens compreensivas, capazes de provocar menos tensões e de serem mais estimuladoras. Educadores, psicólogos, pedagogos e médicos que trabalham com essa população ficam atentos para encontrar sinais que identificam o quadro em si ou as comorbidades tão comumente associadas. As conquistas sociais da categoria também, por outro lado, provocaram exageros no diagnóstico, em que outras patologias, sem tais conquistas, acabaram sendo encaixadas em um diagnóstico de TEA.
A despeito de entendimentos simplistas ou de abordagens sem evidências nesse desafio de atender o paciente autista, alguns órgãos de classe tiveram que se manifestar para colocar ordem na casa. Foram estabelecidas novas diretrizes nacionais, acompanhando as internacionais. Dentre elas, compreende-se que não existe psicofármaco para tratar os sintomas nucleares do autismo (dificuldades de comunicação social e comportamentos repetitivos/restritivos). Sabe-se que os medicamentos destinam-se exclusivamente ao manejo de sintomas-alvo incapacitantes e de comorbidades e condições concorrentes.
Por exemplo, o consenso da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil é o de combater terapias de “neurobiologia alternativa” sem fundamentação científica (como dietas restritivas extremas sem indicação metabólica ou terapias de quelação) e focar na individualização do tratamento. A terapia de quelação é um procedimento médico formalmente indicado para o tratamento de intoxicações agudas por metais pesados (como chumbo, mercúrio, cobre, ferro ou arsênio). Ou seja, para ser aplicada nos casos de autismo, acreditava-se que eles eram decorrentes de intoxicações.
Porém, a base de qualquer intervenção continua sendo as abordagens comportamentais e psicoeducativas, como a terapia baseada em análise comportamental aplicada – a ciência ABA. Considerando isso, recentemente na nossa clínica, associamos os recursos dessa abordagem às Terapias Sociais no grupo de crianças. O autismo conta com mais comorbidades comparado a outras patologias infantis, e a adoção da ciência ABA nessas abordagens, somada às premissas das Terapias Sociais, deve qualificar ainda mais os resultados obtidos nesses grupos específicos. Vejam que, em uma Terapia Social, elegemos a sociabilidade, dentre outras informações sociais, como algo relevante para complementar aspectos psicológicos e médicos.
Quanto aos psicofármacos, sua introdução deve seguir a lógica de “uma comorbidade por vez”, iniciando com doses mínimas e titulação lenta (start low, go slow), devido à maior sensibilidade do neurodesenvolvimento atípico a efeitos adversos (principalmente extrapiramidais e metabólicos). Os sintomas que dificultam a convivência do paciente com o seu meio são o alvo das intervenções médicas, e muitos deles são decorrentes das frequentes comorbidades. Eu, particularmente, iniciei, antes da pandemia, o uso de medicações que ainda eram consideradas off-label para o Transtorno do Espectro Autista. Até hoje, a ANVISA autoriza os produtos à base de fitocanabinoides para os quadros de epilepsias refratárias, deixando no limbo, outras psicopatologias.
Na medicina, situações semelhantes de uso adotado gradativamente por médicos, após inúmeras discussões em congressos e publicações de trabalhos científicos, permanecem como indicações off-label. O caso dos antiepilépticos usados como estabilizadores de humor é um deles. É diferente das quelações, por exemplo. A ausência de evidências, no caso delas, foi confirmada por revisões sistemáticas e ensaios clínicos, que demonstraram que a quelação não traz qualquer benefício cognitivo, social ou comportamental para indivíduos no espectro autista. Já os fitocanabinoides parecem ter um futuro próspero.
A risperidona e o aripiprazol, dois neurolépticos (conhecidos como antipsicóticos), continuam sendo os únicos medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (a ANVISA dos americanos) e recomendados formalmente pelas diretrizes para o tratamento de irritabilidade, autoagressividade e crises de fúria severas no TEA. Quando passei a medicar com canabidiol isolado crianças que não respondiam às medicações convencionais e comecei a observar respostas, reconheci que estava diante de uma opção diferente das que dispúnhamos.
Acompanhando principalmente os trabalhos desenvolvidos na USP de Ribeirão Preto, assistindo a diversas aulas e participando de inúmeros cursos, fui adquirindo confiança nesse fármaco, que me ajudou a diminuir o número de outros fármacos associados e suas dosagens. O mais importante, ao ver a criança diminuir seus sintomas de ansiedade e agressividade, foram os resultados psicoterápicos e a possibilidade de convivência familiar e escolar. Sempre adotava a risperidona, por ser a mais estudada quando se tratava de crianças, até a chegada do aripiprazol, que, além do perfil de contenção, tem uma ação agonista parcial dos receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos, o que o diferenciava dos outros neurolépticos. Comparado com a risperidona, por exemplo, apresentava menor ganho de peso e parecia ser mais estimulante.
Ainda sobre os canabinoides, devo ressaltar que alternamos preconceito com farra ao escolhermos o tratamento. Por um lado, pelo fato de o CBD vir de uma droga, a cannabis; por outro, por um entusiasmo sem fundamento tentando reconhecê-lo como uma panaceia. Os principais congressos, como o Brain em junho de 2026 em Porto Alegre, reuniram profissionais e um número expressivo de laboratórios lançando extrato de cannabis e CBD. Para mim, as ações neuroinflamatórioas no neurodesenvolvimento da criança que se tornará autista, e o fato de o CBD ter uma ação justamente nesse sistema, também são relevantes. Ao prescrevermos, consideramos a segurança do fármaco e suas ações em sintomas perceptíveis, como irritabilidade e ansiedade. Porém, minha impressão é que teremos elucidações vantajosas no sistema imunológico.
Ainda sobre o CBD, vale ressaltar sua atuação no sistema endocanabinoide, destacado após o desenvolvimento de pesquisas a partir dos fitocanabinoides. Ou seja, descobrimos que temos um sistema em que o efeito do CBD da planta estimula nossa natureza em diversos aspectos, atuando em mecanismos inflamatórios, dentre outros. Trata-se do sistema endocanabinoide e do desenvolvimento embrionário, que precisam ser melhor estudados. A anandamida e o 2-AG, que fazem parte da nossa natureza, são aumentados ao ingerirmos o CBD das plantas e modulam o humor, a ansiedade, o apetite, a dor, a memória e a resposta ao estresse. Trabalhos mostraram crianças autistas com níveis baixos de anandamida, por exemplo, e suspeita-se que esses baixos níveis possam estar relacionados ao autismo.
Para finalizar, vale lembrar que no século XV, na Rússia, alguns autistas eram considerados “idiotas sagrados”. Hoje sabemos que se trata de casos mais comuns que a Síndrome de Down, por exemplo, afetando uma em cada 68 crianças. O comportamento repetitivo não é decorrente apenas do quadro de autismo, mas é uma de suas fortes características. Há também a dificuldade de complementação de frases, e tal comprometimento tem intensidade variada conforme o indivíduo. A fixação em algo os faz, por exemplo, assistir várias vezes ao mesmo filme. E por falar em filme, vejam Dustin Hoffman interpretar um autista em “Rain Man”. Será que o cérebro de um autista é 10% maior do que o de outras pessoas? Se sim, por quê?
Portanto, o autismo é um quadro fortemente heterogêneo com relação a fatores genéticos e comorbidades associadas. Quadros de ansiedade são frequentes entre os autistas. Mas lembrem-se: quanto mais cedo se implementarem as abordagens terapêuticas — de preferência a ciência ABA, além de outras psicoterapias, terapias ocupacionais com integração sensorial, musicoterapia, fisioterapia, psicopedagogia e fonoterapia —, melhor. Eu fiquei impressionado com a Equoterapia e fiz uma reportagem no Psiquiatria Sem Fronteiras (https://youtu.be/pl22lYMhkwo). Aqui em Florianópolis, este fim de semana, a equipe de Terapia Social estará conduzindo um seminário sobre Autismos com diversos profissionais, tentando respeitar a complexidade do tema.

*Marcos de Noronha é Psiquiatra Titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Conselho Federal de Medicina. Psicoterapeuta e Psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama.
Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural. Membro da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural. Associado da Seção de Psiquiatria Transcultural da Associação Mundial de Psiquiatria. Membro do Grupo Latino Americano de Estudos Transculturais (GLADET) .
Com formação em diversas técnicas psicoterapêuticas, dedicou-se ao estudo de disciplinas que fazem fronteira com a psiquiatria, como sociologia e etnologia. É um dos fundadores da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, tendo publicado artigos pioneiros nos principais periódicos científicos nacionais e livros sobre o tema.
Entre suas obras, destacam-se:
- Terapia Social – um relato intimista de sua trajetória e técnica;
- O Cérebro e as Emoções – uma abordagem contemporânea sobre o tema, com analogias entre práticas ritualísticas e os bastidores das psicoterapias;
- Polarização – Sintoma de uma Doença Social (no prelo).
Atua em Florianópolis coordenando grupos de Terapia Social tanto no setor público quanto no privado, defendendo o trabalho em grupo como uma alternativa eficaz para uma sociedade com grande demanda de cuidados em saúde mental. Também é apresentador do programa Psiquiatria Sem Fronteiras e de lives produzidas pelo Humanitas TV no YouTube.
Formação e Trajetória Profissional
Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Londrina em 1977, onde percebeu as limitações do ensino médico tradicional. Para complementar sua formação, dedicou-se ao estudo de História e Filosofia Médica, Medicina Oriental e Homeopatia. Seu primeiro contato prático com a psiquiatria ocorreu já no primeiro ano de graduação, em estágios supervisionados em um hospital com técnicas modernas de psicoterapia de grupo na linha do psicodrama.
Aprofundou seus estudos em psiquiatria cultural após a graduação, inicialmente buscando uma bolsa para estudar Orgonomia com Wilhelm Reich na Europa. No entanto, sua trajetória mudou ao conhecer o Serviço de Etnopsiquiatria da Universidade de Nice, na França, onde se especializou na abordagem desenvolvida por Henri Collomb, um dos pioneiros da etnopsiquiatria clínica.
Durante sua estadia na França, trabalhou com imigrantes e aprendeu a integrar diferentes saberes no tratamento de transtornos mentais, priorizando abordagens humanizadas e reduzindo a dependência de psicotrópicos. Essa experiência consolidou sua visão sobre a importância da diversidade cultural no tratamento psiquiátrico.
Ao retornar ao Brasil, empenhou-se na difusão da etnopsiquiatria, publicando artigos em revistas como a Revista da Associação Brasileira de Psiquiatria e o Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Também apresentou trabalhos em congressos nacionais e internacionais, conectando-se com outros pesquisadores interessados no tema.
Em 1993, durante o 9º Congresso Mundial de Psiquiatria, no Rio de Janeiro, fundou a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural. Em 1998, foi eleito o primeiro presidente da entidade no I Congresso Brasileiro de Etnopsiquiatria e Simpósio Internacional de Psiquiatria Cultural, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina.
Desenvolvimento da Terapia Social
Com base em suas experiências e inspiração nas sociedades tradicionais, desenvolveu a Terapia Social, uma abordagem que enfatiza a reintegração do indivíduo ao grupo e à sua tradição cultural. Diferente de abordagens convencionais, a Terapia Social propõe um envolvimento ativo e constante do paciente em seu processo terapêutico, tanto dentro quanto fora do consultório.
Em 2007, lançou o livro Terapia Social, formalizando sua metodologia. A obra foi posteriormente traduzida para o espanhol e publicada em 2012.
Atualmente, além de suas atividades clínicas e acadêmicas, é membro do Conselho da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural e segue promovendo pesquisas e eventos sobre psiquiatria cultural e terapias integrativas.

