Exército Brasileiro - créditos: divulgação
21-06-2026 às 09h40
Caio Brandão*
Era sexta-feira, dia 28 de maio de 1971. O jornal O Globo publicava na página 6-A daquela edição, ocupando metade da página, a seguinte manchete: “Contagem faz doação: 4ª Região Militar vai integrar a segurança e o desenvolvimento”. A matéria, longa, anunciava, em síntese, a desapropriação de uma área de terreno de 105 mil metros quadrados no município para abrigar as novas instalações do aquartelamento daquela instituição militar. O decreto de desapropriação foi assinado na mesma data da posse do General de Divisão Ariel Pacca da Fonseca no comando daquela unidade do Exército Brasileiro, sediada na cidade de Juiz de Fora.
Não é preciso dizer que foi um susto para os militares. A notícia gerou imediata preocupação no Alto Comando do Exército, em Brasília, haja vista que o órgão nada sabia a respeito e sequer o General Pacca havia sido informado. O país vivia os anos de chumbo, sob prisões e arbitrariedades que impunham um grave constrangimento à sociedade civil e, de repente, surgia no cenário aquela novidade. Nos quartéis, praças e oficiais da 4ª Região Militar, em Juiz de Fora, receberam atônitos a iminência de uma mudança forçada de cidade, que arrastaria consigo famílias, rotinas e interesses pessoais.
De pronto, duas fingerprints foram colocadas sob o foco implacável dos órgãos de segurança e informação: o prefeito e eu, que havia sido nomeado para o cargo de presidente da Comissão encarregada de ultimar a compra do terreno e de manter com a 4ª Região Militar os entendimentos que se fizessem necessários. É oportuno acrescentar que, àquela altura, eu tinha apenas 21 anos de idade e ocupava, na Prefeitura de Contagem, o cargo de chefe de gabinete do prefeito.
A iniciativa só poderia ter partido de alguém com 21 anos e abraçada por um prefeito, Sebastião Camargos, que sempre buscou notoriedade e prestígio — ambição na qual, diga-se de passagem, não estava errado. Eu havia participado de um seminário da ADESG (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra) no ano anterior e ficara empolgado com o poder concentrado no cerne do Movimento de 64, particularmente no Exército. Pensei, então, em trazer para Contagem a caixa de Pandora — mas desprovida de todos os males que ela encerrava.
O primeiro ato foi tranquilo, com a notícia publicada e de notável repercussão. O ato seguinte, porém, foi preocupante: um convite do General Pacca para uma visita à sede da 4ª Região Militar, em Juiz de Fora, dirigido ao prefeito Sebastião Camargos e a mim. O frio correu na espinha e os calafrios repercutiram até nos pelos da sobrancelha. O convite vinha de um general, e por isso mesmo não inspirava conforto; estava muito mais para sal amargo do que para hidromel.
Sebastião Camargos declinou do convite, de forma educada e em longa dissertação sobre a sua vocação cívica para servir à comunidade e outras balelas, apontando-me como seu legítimo representante. E lá fui eu, sozinho, conversar com o General Pacca. Encontrei um homem educado, de estatura elevada e gestos comedidos. Falava pausado, entremeando a realidade do momento com divagações do seu tempo como comandante da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), onde sofrera um acidente que lhe impunha alguma dificuldade para andar — o que ele, no entanto, disfarçava muito bem.
Ao término da conversa — e após três rodadas de um café sofrível —, o general levantou-se, estendeu-me a mão, puxou-me com energia para junto de si e disse-me ao pé do ouvido: “Desfaça essa confusão, meu jovem.”
Ordem dada e missão cumprida, em que pesem os inúmeros constrangimentos decorrentes daquela imprudência e de suas consequências. O desfecho, contudo, pavimentou uma inesperada amizade entre mim e o General Ariel Pacca da Fonseca. Anos mais tarde, como integrante do Alto Comando do Exército, ele acompanhava silente os movimentos do então Ministro do Exército, General Sylvio Frota, que tentava desfechar um golpe dentro do golpe. O presidente Ernesto Geisel sabia da articulação e precisava, mais do que nunca, do apoio dos oficiais-generais do Alto Comando. Dentre os generais de quatro estrelas, Pacca perfilava entre os mais moderados — em que pese sua posição firme contra a revogação do AI-5 (Ato Institucional nº 5), de onde emanava toda a força de poder do Movimento de 64.
A história seguiu seu curso e, numa quinta-feira, dia 19 de abril de 1978, na página 7 da edição do jornal O Estado de S. Paulo, estava estampada a seguinte manchete: “Pacca: militar não busca poder, mas cumpre missão”. A notícia dizia respeito ao pronunciamento do general na solenidade de promoção de quinze novos oficiais-generais. Dentre suas assertivas, ele destacou:
general levantou-se, estendeu-me a
“Trabalho anônimo e dissociado das lides políticas, sem deixar de acompanhá-las à distância, porém em silêncio atento para o melhor cumprimento dessa mesma missão. O chamamento de alguns chefes militares para o desempenho de cargos, até da mais alta relevância, que transcendem o âmbito dos quartéis — como tem ocorrido ao longo de toda a nossa história —, tratou-se, sempre, como particularmente agora, de uma imposição conjuntural, de mais uma missão a cumprir; jamais de ambição de mando ou de poder, e muito menos de preocupação com o interesse pessoal ou de grupos — mas sim, repito, de uma imposição do dever para com a preservação dessa segurança da coletividade brasileira.”
O discurso foi longo e reproduzido na íntegra pelos grandes jornais da época. No local da solenidade, sorridente e faceiro, circulava coberto de mimos o General de Exército João Batista de Figueiredo. No dia seguinte, o jornalista Carlos Castello Branco, em sua coluna no Jornal do Brasil — tanto o veículo quanto o articulista de grande prestígio à época —, publicou severas críticas ao General Pacca.
Acusou-o de “denunciar os liberais como interesseiros, farsantes, hipócritas ou vinculados enrustidamente a ideologias socializantes” e, mais, de condenar o movimento em favor das liberdades públicas. Eu havia lido, atentamente, o discurso do militar e não encontrei referências explícitas àquelas acusações em sua fala. Por isso, enviei uma carta ao Carlos Castello Branco fazendo ponderações sobre a sua análise. O “Castelinho”, como era conhecido, publicou a minha carta em parte, o que chegou ao conhecimento do general. Este, em seguida, me enviou uma correspondência, datada de 8 de maio daquele ano, na qual, dentre outras considerações, dizia:
“Agradeço, sinceramente, mais essa prova de consideração do prezado amigo, porquanto nós, militares, devemos evitar polêmicas pela imprensa, não só pela ética profissional, como pela diferença que existe no trato dos problemas por nós e pelos políticos e jornalistas de certo nível. Acabaríamos levando a pior e desgastando, mais ainda, o Exército que nos cabe preservar — uma vez que externamos nosso pensamento, via de regra, com franqueza e honestidade de propósito. Devemos trabalhar em silêncio atento, com o pensamento fundamentalmente voltado para o cumprimento da nossa relevante missão”, refletiu o General Pacca, dentre outras considerações de grande valia expostas no documento.
Enfim, o relato mostra um jornalista, o Castelinho, empunhando com destemor as suas ideias e crenças em plenos anos de chumbo; de outro lado, um general do Alto Comando do Exército discordante, mas silente, sem partir para o enfrentamento e a retaliação. A meu turno, posicionei-me como um observador de momentos peculiares que fizeram parte da história desse conturbado País. Não existem mais jornalistas e generais como antigamente, infelizmente.
*Caio Brandão é jornalista

