País das maravilhas perdidas - créditos: IA
21-06-2026 às 14h45
Rogério Reis Devisate*
ERA UMA VEZ um reino bem, bem distante, onde havia um lugar encantado, colorido e feliz como se fosse o País das Maravilhas, aquele mesmo, da menina Alice, crédula e inocente, que apenas seguia em frente com as suas descobertas, sem se preocupar com o dia seguinte.
O reino era governado por um rei cuja caminhada inspirava muitos. Alguns o criticavam por tudo, enquanto outros, o seguiam cegamente. Faz parte. Ele ia adiante, como se os seus passos fossem marcas seguras no mapa das caminhadas. Se os seus passos eram para lá, todos o seguiam, se fossem para cá, todos mudavam o rumo. Em verdade, muitos se ajustavam aos seus passos, aos seus atos, aos seus dizeres e exatamente por isso havia uma harmonia reinante, porque ninguém o questionava, apenas o seguia. Basicamente, sacramentou-se o fato de que o destino de muitos dependia apenas da sua direção.
No entanto, em certo dia, o rei parou na estrada, no meio da jornada, após uma subida dura, radical, onde muitos já estavam cansados e suados. Todos pararam. Ele olhou para um lado e todos fizeram o mesmo. Ele olhou para o outro, todos o igualaram. Ele olhou para cima, para trás e, novamente, para a frente, com cada gesto sendo seguido, em silêncio. Repentinamente, conversou com umas poucas pessoas que estavam bem próximas, dizendo que pensava agora de modo diferente de como sempre o identificaram – o que talvez revelasse um novo caminho para quem o ouvia. Ocorre que as cornetas de bronze, que estavam ali perto, amplificaram o som daquela conversa e todo o povo ouviu a mensagem.
Alguns se surpreenderam, outros se sentiram atingidos e muitos ignoraram o fato, como se nada tivesse sido dito e já negando qualquer sorte de impacto ou repercussão. Mas, em verdade, mesmo sem nada dizer, muitos passaram a imaginar a sabedoria por trás daquela estratégia e tentaram qualificar a atitude do rei, enquanto outros ficaram realmente confusos, tentando entender o ocorrido, havendo até os que ficaram sem chão. Mas ninguém ousou falar nada. Tudo deveria parecer como antes, porque assim era melhor até que o rei desse o próximo passo.
O dizer do rei trazia algum tipo de autorreflexão, sobre “quem sou eu?” ou apenas foi a materialização de algum deslocamento muito estratégico, como se esse “eu” político não fosse importante, que o posicionamento do caminhar não tivesse valor e que a sua própria figura, independentemente de qualquer atributo, fosse suficiente para manter os seus seguidores?
Há no contexto um jogo cênico? Será que o rei queria mandar um recado geral ou foi mesmo surpreendido com o vazamento da fala, que foi dirigida a apenas alguns poucos? A recepção das massas envolve uma certa polarização afetiva, na linha dos ensinamentos de Shanto Iyengar, pensador e professor da Universidade de Stanford, nos EUA, que é autor de vários livros, embora nenhum deles tenha sido publicado em língua portuguesa, no Brasil. Isso envolve a ideia de pertencimento a um grupo e de conformação de identidades emocionais a orientar atitudes autônomas e pessoais. Também falaram em massas e em comportamentos assim os pensadores Gustavo Le Bon, Contardo Calligaris, Wilhelm Reich e Sigmund Freud. Contudo, esse comportamento “de torcida” envolve mais a proteção do indivíduo em um grupo maior do que consciência política transformadora e engajada e que permita a qualquer pessoa realizar uma crítica ou autocrítica isenta e voluntária, pois a sensação emocional do grupo domina as mentes individuais. Esses comportamentos de massa estão muito mais próximos ao que se vê nas torcidas dos times de futebol, pela lealdade e minimizando qualquer fala que pudesse apoiar algo ligado a qualidades da oposição, ainda que a ambiguidade possa ser grande dentro das mentes e do grupo.
Sob outro enfoque, a fala acalma mercados, apesar de haver juros elevadíssimos e lucros bancários enormes, que não exigiriam esse recado. É um modelo de reprodução de riqueza financeira, algo que talvez fosse de uma agenda liberal mais pura, mas que vem sendo adotada há tempos e, nesta linha, se o recado foi para ser vazado, indicaria que evitar o rótulo de esquerdista revelaria intenção de não mexer no arranjo econômico vigente, nas altas taxas de juros e manter este modelo de sistema financeiro em curso, do mesmo modo que as demais estruturas de poder. Nesta linha, acalma o mercado e, de fato, não confrontando o sistema financeiro e usando os juros para controle econômico, ainda que isso desacelere o país e a industrialização e sobrecarregue o consumidor e o cidadão, a fala não repercute mais seriamente na própria massa que segue os passos do rei, pois preferirão manter o apoio sem qualquer abalo – por credo, confiança ou pertencimento a um grupo.
A fala aliviou hipotética tensão no grupo do G7 e das maiores economias mundiais, acomodando um discurso mais moderado como se fosse um Outdoor pela atração de investimentos e despreocupação para os grandes investidores, merecendo ser notado que o diálogo ocorreu diante da Diretora-Geral do FMI, Kristalina Georgieva. Repetimos, apesar de ser fato que o Brasil está com um sistema financeiro altamente rentável e que o investimento produtivo enfrenta restrições, qualquer mudança mais aparente ocasionaria abalo estrutural e exigiria transformações que talvez não interessem aos que caminham com desenvoltura nos corredores. Neste ponto, a fala pelo caminho do meio e de não ser da esquerda é um alento para alguns setores. O interessante é que para os críticos à esquerda, isso significa a manutenção de um casamento com o capital financeiro, algo que não soa bem a quem gostou de ler O Capital e absorveu a ideia da resistência à forma como funcionam os donos do dinheiro.
Resta saber se a fala no G7 foi para um grupo pequeno ou se ela deveria mesmo ter chegado ao mundo e, ainda, se ela revela uma ruptura ideológica, uma declaração de algo que nunca existiu de fato ou se há um constrangimento sistêmico que poderia abalar o eleitor tradicional neste ano eleitoral… Não que isso mude algo, mas permitiria melhor compreensão do contexto. Ah, antes de encerrar, lembrei-me de cena marcante, do filme Forrest Gump, em que o protagonista correu por mais de 3 anos e, quando interrompeu a atividade, a multidão que o seguia ficou perdida, sem saber o que fazer… imperdível o seu significado. Vale a pena rever.
No fim, acerca do que ocorreu, pode ser tudo, pode ser nada, pode ser um pouco de cada. A questão é que o eleitor pouco deve se importar com o contexto, isto se o fato chegou ao seu conhecimento, pois parece que há um jogo tácito onde só se critica as oposições e se aplaude o grupo que se integra.
Talvez a repercussão seja pequena porque estamos no intervalo do interesse na política e nas eleições, algo que só passará após a Copa do Mundo. Enquanto isto, vamos nos distraindo com os jogos: o “pão e circo” de sempre.
*Rogério Reis Devisate é Advogado/RJ. Membro da Academia Brasileira de Letras Agrárias, da União Brasileira de Escritores e da Academia Fluminense de Letras. Presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários da UBAU. Membro da Comissão de Direito Agrário da OAB/RJ. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ.

