Ex-governador de Minas e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, pré-candidato a presidente? - créditos: Agência Câmara
26-05-2026 às 11h28
Samuel Arruda*
A possível candidatura do ex-governador de Minas Gerais e atual deputado federal Aécio Neves à Presidência da República em 2026 pela federação PSDB/Cidadania voltou a movimentar os bastidores da política nacional e reacendeu um debate importante: ainda existe espaço para o retorno de uma liderança tradicional de centro no Brasil polarizado entre lulismo e bolsonarismo?
A discussão dentro da federação ganhou força diante da dificuldade das forças de centro em encontrar um nome nacionalmente conhecido, experiente e com capacidade de articulação. Nesse cenário, aliados de Aécio avaliam que o tucano reúne atributos políticos que poucos líderes ainda possuem no país: experiência administrativa, trânsito no Congresso Nacional, relações internacionais e histórico eleitoral consolidado.
Os defensores de sua candidatura argumentam que Aécio poderia crescer justamente explorando o desgaste da polarização política. Há setores empresariais, econômicos e institucionais que demonstram preocupação com o radicalismo ideológico dos últimos anos e defendem uma candidatura mais moderada, liberal na economia e equilibrada institucionalmente. Nesse ponto, Aécio aparece como alguém capaz de dialogar com setores do centro, parte da direita tradicional e até grupos mais pragmáticos da política nacional.
Outro fator considerado positivo é o fato de o ex-governador ainda possuir forte conhecimento nacional. Diferentemente de outros possíveis candidatos de centro, Aécio não precisaria se apresentar ao eleitorado brasileiro. Seu desempenho em 2014, quando obteve mais de 51 milhões de votos no segundo turno presidencial, ainda é lembrado por aliados como demonstração de densidade eleitoral e capacidade de mobilização.
Além disso, estrategistas políticos avaliam que uma candidatura tucana mais experiente poderia tentar ocupar o espaço de “estabilidade” em meio às incertezas econômicas e institucionais do país. O discurso de responsabilidade fiscal, previsibilidade econômica e diálogo político poderia encontrar receptividade principalmente entre setores urbanos, empresariais e parte da classe média cansada do ambiente permanente de confronto político.
Em Minas Gerais, Aécio ainda preserva influência em importantes setores políticos e administrativos. Seu eventual retorno ao cenário presidencial poderia reorganizar forças tradicionais do estado, influenciando diretamente as disputas pelo governo mineiro e pelo Senado. Muitos prefeitos, deputados e lideranças regionais ainda mantêm relação histórica com o grupo tucano mineiro.
Por outro lado, os obstáculos para que essa candidatura realmente se torne competitiva continuam sendo enormes e talvez até maiores do que as possibilidades de sucesso.
O principal problema é o desgaste de imagem acumulado nos últimos anos. Embora tenha recuperado espaço político dentro do PSDB e voltado a exercer protagonismo parlamentar, Aécio ainda carrega forte rejeição em parcelas significativas do eleitorado. Sua associação à crise política nacional iniciada após 2014 e aos episódios investigados durante a Operação Lava Jato permanece viva na memória política do país.
Analistas consideram que essa rejeição pode limitar drasticamente seu potencial de crescimento eleitoral, especialmente entre eleitores jovens e nas grandes capitais. Em campanhas presidenciais modernas, a rejeição elevada costuma ser um fator extremamente difícil de reverter, mesmo quando o candidato possui experiência e estrutura partidária.
Outro ponto crítico é a fragilidade atual do PSDB. O partido que já governou o Brasil, comandou grandes estados e liderou a oposição nacional perdeu força nos últimos anos. Reduziu bancadas, perdeu governadores e viu boa parte de seu eleitorado migrar para candidaturas mais conservadoras ligadas ao bolsonarismo.
Hoje, muitos cientistas políticos avaliam que o PSDB enfrenta uma crise de identidade. Parte do eleitor de centro migrou para alternativas mais independentes, enquanto setores tradicionais da direita passaram a rejeitar o partido. Isso dificulta enormemente a construção de uma candidatura presidencial forte sem alianças amplas e sem um discurso político completamente renovado.
Há ainda uma dificuldade estratégica importante: Aécio precisaria reconquistar simultaneamente dois públicos muito diferentes. De um lado, convencer eleitores moderados de que representa estabilidade e experiência. De outro, tentar diminuir a resistência de parcelas do eleitorado conservador que hoje enxergam o PSDB como símbolo da velha política tradicional brasileira.
Nos bastidores, integrantes da própria federação reconhecem que a viabilidade real da candidatura dependerá das pesquisas eleitorais dos próximos meses. Caso Aécio apresente potencial de crescimento e consiga reduzir índices de rejeição, poderá se consolidar como alternativa de centro competitiva. Porém, se os números permanecerem baixos, existe o risco de a candidatura acabar isolada politicamente e sem capacidade real de disputar o segundo turno.
Outro fator decisivo será o cenário nacional. Se a eleição continuar extremamente polarizada entre campos ideológicos fortes, o espaço para uma candidatura moderada tende a diminuir drasticamente. Mas se houver fadiga do eleitorado com os extremos e crescimento da busca por estabilidade política e econômica, nomes experientes poderão voltar a ganhar competitividade.
A possível candidatura de Aécio Neves simboliza, portanto, muito mais do que um simples retorno eleitoral. Ela representa uma tentativa de sobrevivência política do próprio PSDB e um teste sobre a existência — ou não — de espaço para o centro tradicional na política brasileira de 2026.
*Samuel Arruda e jornalista e articulista

