23-05-2026 às 09h20
Direto da Redação
Romance vencedor do 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, Os escritos de Blanca Mares une ficção e fatos que atravessaram a vida do autor
Diariamente, ao longo de décadas, Timóteo de Oliveira, o Velho Tussa, patriarca e o mais longevo dos Oliveira, cumpria religiosamente um ritual: com passos lentos, percorria as ruas da cidade mineira de Filadélfia (hoje Teófilo Otoni) para, minutos antes das dez horas, estar na estação ferroviária. Lá, despacharia cartas para a sua mulher, na esperança de um breve retorno. Espécie de louco manso e figura folclórica local, Tussa seguia sua vida descolada da realidade sem imaginar que a amada jamais voltaria por estar morta; e a estação, assim como a Estrada de Ferro Bahia-Minas, vencida pelo sucateamento e abandono, há muito estava desativada. Ambas são elementos centrais do livro Os escritos de Blanca Mares, de Roberto Marcos, romance vencedor do 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, agora em lançamento pela editora.
Reunindo elementos ficcionais e fatos que atravessaram a vida do autor, Os escritos de Blanca Mares concorreu com outras 411 obras no último certame da Cepe Editora, mantendo-se inédita por pouco mais de uma década. Foi destacada pela comissão julgadora como sendo uma saga épica que mergulha no Brasil profundo, em que a crítica social que a estrutura é costurada por inserções poéticas de poder reflexivo. “Os elementos que contornam a história de amor são postos com algum humor, originalidade e uma linguagem que nos remete a características imagéticas bem traçadas”, indica o parecer.
Narrada pelo autor em tom de memória, a história traz para o centro da trama, ao longo das 167 páginas do livro, a vida do centenário Timóteo – um homem feito de saudades e de silêncios, imerso em luto e loucura desde a morte de Blanca Mares, sua mulher, fulminada por uma tuberculose. À súbita e devastadora partida, por ele presenciada, Tussa submerge para um mundo próprio, criando a falsa realidade de que a amada, na verdade, viajou para a vizinha Ponta de Areia (BA), a fim de resolver questões familiares. Sem passado ou futuro, o Velho Tussa se vê preso em um ciclo repetitivo, preenchendo os seus dias com cartas que escreve para Blanca e idas à estação – há anos transformada em museu ferroviário.
Escritor Roberto Marcos:


