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15-05-2026 às 10h35
Direto da Redação*
A discussão sobre os gastos públicos com grandes eventos voltou a ganhar força em Minas Gerais após o avanço, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, de um projeto que pretende estabelecer limites para cachês artísticos pagos por prefeituras e órgãos públicos. A proposta, debatida nesta semana na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, prevê teto de até R$ 500 mil por apresentação ou o equivalente a 1% da receita corrente líquida do município contratante.
O tema rapidamente repercutiu em diversas regiões do estado, especialmente no Vale do Jequitinhonha, onde festas populares e exposições agropecuárias se consolidaram nos últimos anos como grandes vitrines políticas, econômicas e culturais. Municípios da região acompanham com atenção o debate, diante do impacto que a medida poderá causar na contratação de artistas de renome nacional para eventos tradicionais.
A repercussão aumentou após a divulgação da programação da 38ª Festa do Capelinhense Ausente, em Capelinha. Entre as atrações anunciadas estão Zezé Di Camargo, Maiara & Maraisa, Alexandre Pires e Natanzinho Lima, artistas que atualmente figuram entre os mais valorizados do circuito nacional de shows.
Embora parte das apresentações seja viabilizada por patrocinadores privados e parcerias comerciais, o debate se concentra justamente na utilização de recursos públicos em eventos de grande porte. Em meio à pressão por investimentos em saúde, infraestrutura e segurança, cresce o questionamento sobre a prioridade dada por alguns municípios à contratação de artistas com cachês milionários.
Estimativas de mercado divulgadas por produtores e veículos especializados apontam que apresentações de artistas sertanejos e nomes populares do entretenimento nacional podem ultrapassar facilmente a faixa de R$ 600 mil a R$ 1 milhão por noite, dependendo da estrutura exigida, deslocamento, equipe técnica e período do ano. Em algumas cidades pequenas, os valores gastos em poucos dias de festividade acabam superando investimentos anuais em setores considerados essenciais pela população.
Defensores do projeto argumentam que a proposta não pretende acabar com festas tradicionais nem inviabilizar o turismo regional, mas criar critérios mais rígidos para evitar desequilíbrios financeiros nas contas municipais. Outro ponto defendido pelos parlamentares favoráveis é o estímulo à valorização de artistas regionais e mineiros, que frequentemente ficam fora das grandes grades de programação apesar do forte vínculo cultural com as comunidades locais.
Produtores culturais, por outro lado, alertam que a limitação pode afetar diretamente a capacidade competitiva das festas do interior mineiro. Segundo representantes do setor, eventos como exposições agropecuárias, festivais e festas de emancipação movimentam hotéis, restaurantes, comércio informal e serviços, gerando renda temporária e fortalecendo economias locais já fragilizadas.
No Vale do Jequitinhonha, onde muitas cidades utilizam grandes festas como instrumento de atração turística e fortalecimento econômico, o debate também ganhou contornos políticos. Prefeitos e organizadores temem que a eventual aprovação da proposta reduza o alcance de eventos consolidados, como a Expoita, a Festa do Capelinhense Ausente e outras celebrações regionais que passaram a disputar espaço com grandes festivais nacionais.
Ao mesmo tempo, especialistas em administração pública defendem maior transparência nos contratos e prestação de contas mais rigorosa sobre os gastos com entretenimento financiado pelo poder público. O avanço das redes sociais e dos portais de transparência ampliou a fiscalização popular sobre contratos artísticos, especialmente em municípios de pequeno porte, onde os valores frequentemente provocam forte repercussão entre moradores.
A discussão ainda deve avançar nas próximas semanas na ALMG, mas já evidencia um impasse cada vez mais presente em Minas Gerais: até que ponto grandes shows representam investimento em cultura e desenvolvimento econômico regional — ou se transformam em despesas excessivas em cidades que enfrentam dificuldades estruturais históricas.

