Créditos: Divulgação
15-05-2026 às 09h07
Anna marchesini*
Em A Metamorfose, Franz Kafka narra uma das cenas mais perturbadoras da literatura: Gregor Samsa acorda transformado em inseto e sua única preocupação é não se atrasar para o trabalho. Não há pânico, não há questionamento sobre sua nova condição. Há apenas o relógio, o chefe, a obrigação.
Escrita em 1915, a passagem soa brutalmente contemporânea. Kafka expõe uma sociedade tão condicionada pelo dever e pela rotina que até o absurdo se torna secundário diante da produção. Gregor não perdeu a forma humana. Perdeu o direito de parar.
O diagnóstico de uma era
O incômodo causado pela obra é atemporal porque reflete uma cultura de performance que se intensificou. Dados da OMS apontam que o Brasil é o país com maior prevalência de ansiedade no mundo, e a síndrome de burnout foi incluída na Classificação Internacional de Doenças. Vivemos conectados, produtivos, respondendo a demandas em tempo real. Mas a que custo?
Quantos profissionais seguem entregando metas enquanto enfrentam crises de pânico? Quantas pessoas mantêm a rotina no automático, funcionando por fora enquanto, por dentro, algo já não está bem? O corpo adoece, a mente colapsa, mas o dedo continua batendo o ponto.
A rotina como anestesia
O problema não reside na disciplina ou no compromisso com o trabalho. Reside em quando esse compromisso se transforma em anestesia. Quando a obrigação vira desculpa para não encarar o próprio mal-estar.
Gregor não questiona sua transformação porque questionar exigiria pausa. E pausa, no mercado atual, ainda é vista como risco, como improdutividade, como falha. Kafka nos alerta: uma vida tão automatizada que nem o absurdo nos espanta mais é uma vida em que deixamos de existir para apenas operar.
O convite à consciência
A Metamorfose não é um livro sobre um homem que vira inseto. É um tratado sobre humanos que desaprenderam a ser humanos. A obra nos confronta com uma pergunta necessária: o que tem pesado mais hoje, a sua condição ou a sua produção?
Reconhecer o esgotamento não é sinal de fraqueza. É o primeiro passo para recuperar a humanidade. É entender que nenhum prazo, nenhuma meta e nenhum cargo justificam ignorar o próprio colapso.
O dever é importante. Mas existir, sentir e questionar é urgente. Porque, no fim, não somos insetos. E parar para cuidar de si não é atraso. É a única forma de seguir em frente de maneira inteira.
*Anna Marchesini é Educadora e palestrante

