Foco radical e lentes cristalinas - créditos: Blog Foco Radical
09-05-2026 às 17h20
Por Carlos Mota Coelho
Embora a idade, agravada pela minha indigência , desde o nascimento, em atributos estéticos, não me permita sair bem na foto, mesmo com o Photoshop deste celular e grana suficiente para uma cirurgia plástica, confesso que fui fotógrafo.
Mas antes de entrar no mérito por mim imaginado para esta falta de assunto de hoje, adianto uma curiosidade desta profissão já extinta: fotógrafos costumam ser feios de doer, e eu fui um deles, assim como técnicos de futebol são ruins de bola, médicos não tomam remédios e morrem cedo e esteticistas se assustam se olham pra espelhos.
Sou de um tempo e de uma cidade em que havia uma única câmara fotográfica, a do prefeito, e eu, aos treze anos de idade e assessor dele, fui ao Povoado de Acauã fazer a cobertura da visita do bispo do Calhau de Araçuaí àquela freguesia, onde a pedra fundamental de uma capela seria assentada por ele, mas a confusão começou justamente porque se esqueceram de providenciar o principal item daquela cerimônia: um calhau de pedra, coisa inexistente naquele solo de poeira ressequida.
Mas em verdade, o intuito do prefeito era de cunho eleitoreiro, pois ele queria “fazer” mais eleitores e para isso eu tinha, não apenas de os ajudar assinar os requerimentos dos títulos eleitorais, mas também tirar deles as imprescindíveis fotos 3×4.
E aos treze anos de idade virei celebridade em Acauã, me sentindo um Robert Capa de máquina na mão, não uma Rolleiflex, mas uma Flexaret fodida.
Mas estando os fiéis reunidos naquele ermo sem casas ou paredes, eu não tinha como os fotografar com um fundo, sequer um lençol, e todas as fotografias que eu tirei estavam emolduradas por um morro e com bois e vacas pastando.
Que mico, pois a Justiça Eleitoral não iria aceitar títulos com a foto de seu titular, porém com um boi ao lado, o que hoje é sonho de onze em cada dez bolsonaristas.
E para cada foto tirada, eu anotava numa folha de papel a sua posição no rolo do filme, seguida do nome do eleitor fotografado.
E certo foi que tirei setenta e duas fotos em dois rolos de trinta e seis poses, e os entreguei em Minas Novas para Zé Branco, oficial de justiça e dono do único laboratório fotográfico da cidade, com a recomendação para que ele escrevesse no verso de cada foto o nome do fotografado, mas isso não aconteceu, pois Zé Branco, fumante inveterado, transformou a minha lista de fotografados em cigarros de palha.
E o prefeito me cobrando os títulos eleitorais prontos e Zé Branco correndo de mim feito capeta correndo da cruz, até que um dia fui ao estúdio fotográfico dele e ele ALEATORIAMENTE chutou no verso de cada uma o nome do eleitor, sem se preocupar sequer com o sexo de cada um deles. E o juiz lhes concedeu os títulos, mas na cerimônia de entrega eles, muito indignados, diziam:
⁃ Não sou eu!?
⁃ Ta cagado e cuspido o meu compadre Zé de Tristão!
⁃ Vixe, não sou eu, mas Dona Bastiana Doida?
⁃ Nuhhhh, será que me pareço com a bela Zarinha de Candinha?
E certo foi que Ze Branco errou em todas as fotos pregadas nos títulos de eleitores, e eles se recusaram a recebê-los das mãos do juiz, e por justa razão
E Ze Branco ainda tentava os convencer de que as fotos correspondiam às suas fuças, mesmo com mulheres de bigodes e homens com brincos nas orelhas!
E eu só não fiquei mal na foto porque o juiz levou em consideração a minha menoridade!
*Carlos Mota Coelho é procurador federal aposentado, ex-deputado federal, escritor e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

