Gandarela em perigo - créditos: Movimento "Slave o Gandarela"
26-04-2026 às 13h40
Direto da Redação
No coração de Minas, onde a água nasce silenciosa entre as pedras antigas da Serra do Gandarela, há uma disputa que não faz barulho — mas move montanhas.
De um lado, o tempo geológico, paciente, formando aquíferos, sustentando vidas. Do outro, a pressa — sempre ela — da extração.
E no meio dessa tensão, nomes. Cargos. Indicações. A de Rodrigo Ribas não passou despercebida.
Porque não se trata apenas de quem chega ao Conselho. Mas de onde veio. E do que já disse.
A voz técnica que autorizava
Durante sua atuação na Superintendência de Projetos Prioritários (SUPPRI), Ribas esteve diretamente inserido na engrenagem do licenciamento ambiental de grandes projetos minerários em Minas Gerais — uma engrenagem que, para muitos ambientalistas, operava em alta velocidade.
Em reuniões do COPAM, sua fala aparece como a voz que organiza, enquadra, legítima.
Em um desses registros oficiais, ao tratar de empreendimento minerário complexo, ele sustenta a delimitação do processo com precisão técnica, afastando questionamentos mais amplos:
“não está em análise nesse processo a construção de qualquer barragem”
A frase parece simples. Mas carrega um método: olhar para o recorte do processo — e não necessariamente para o todo do território.
Em outro momento, ao abordar intervenções já realizadas, reconhece impactos, mas dentro da lógica da excepcionalidade:
“foram atividades emergenciais de segurança… conforme previsto na legislação” A linguagem é técnica. Controlada. Segura.
Mas, para ambientalistas, é justamente aí que mora o risco: quando o impacto vira “condicionante”, quando o dano vira “fase do processo”.
Depois do desastre, a defesa do sistema
Após o rompimento da barragem de Brumadinho, que expôs ao mundo as falhas do modelo de licenciamento, Ribas foi chamado a explicar o funcionamento da estrutura que ajudava a conduzir.
Segundo reportagem da Mongabay, ele defendeu a atuação da superintendência e buscou afastar responsabilidades institucionais no contexto das investigações.
Não era uma fala isolada. Era uma posição.
A de que o sistema funcionava dentro da legalidade. Mesmo quando o resultado — como se viu — foi tragédia. O modelo sob crítica
Pesquisadores e movimentos ambientais já vinham apontando problemas estruturais.
Relatórios do Observatório dos Conflitos Ambientais de Minas Gerais indicam que a SUPPRI e instâncias do licenciamento foram acusadas de acelerar processos e favorecer grandes mineradoras, inclusive com reclassificação de empreendimentos para facilitar aprovações.
Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o próprio sistema foi descrito, em CPI, como uma “máquina de licenciar”, marcada por processos “atropelados” e com falhas relevantes.
Não é sobre uma pessoa apenas.
É sobre um modelo inteiro — do qual ela fez parte. Quando a técnica encontra o território
Agora, esse mesmo histórico se aproxima de um espaço que deveria ser, por definição, de proteção.
Os conselhos de unidades de conservação existem para equilibrar interesses. Para dar voz ao território. Para garantir que a floresta, a água e as comunidades não sejam apenas variáveis em um cálculo econômico.
Mas o equilíbrio é frágil.
E ambientalistas sabem disso.
Sabem que, quando há assimetria de poder — técnica, política, econômica —, o debate deixa de ser disputa de argumentos e passa a ser disputa de força.
O que está em jogo
A indicação reacende uma pergunta incômoda:
Quem protege o território quando quem decide já esteve do lado de quem explora? Não há ilegalidade automática. A lei permite participação plural.
Mas há algo mais difícil de medir: a confiança.
Confiança de que o interesse público ambiental será prioridade. Confiança de que o passado não condiciona o futuro.
Confiança de que o Gandarela continuará sendo água antes de ser minério. E, no fim…

Talvez a questão não seja apenas sobre um nome.
Mas sobre o tipo de história que Minas quer continuar contando. Uma história em que a técnica justifica tudo?
Ou uma em que a memória — inclusive das tragédias — impõe limites? Porque a serra não fala.
Mas tudo o que já aconteceu ali… fala por ela.
Fernanda Perdigão – Defensora de Direitos Humanos, Bacharela em Direito pela PUC Minas.
Referências
MINAS GERAIS. Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM). Ata da 51ª Reunião da Câmara de Atividades Minerárias. 2019. Disponível em: https://sistemas.meioambiente.mg.gov.br. Acesso em: 25 abr. 2026.
MONGABAY. Governo de Minas favoreceu projetos de alto risco da Vale antes de Brumadinho. 2020. Disponível em: https://brasil.mongabay.com. Acesso em: 25 abr. 2026.
OBSERVATÓRIO DOS CONFLITOS AMBIENTAIS DE MINAS GERAIS (UFMG). SUPPRI e
COPAM utilizam estratégias arbitrárias para beneficiar mineradoras. 2018. Disponível em: https://conflitosambientaismg.lcc.ufmg.br. Acesso em: 25 abr. 2026.
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE MINAS GERAIS (ALMG). CPI aponta irregularidades no licenciamento da barragem de Brumadinho. 2019. Disponível em: https://www.almg.gov.br. Acesso em: 25 abr. 2026.

