Embate entre Zema, ex-governador de Minas e Gilmar Mendes, ministro do STF - créditos: Congresso em Foco
24-04-2026 às 09h32
Samuel Arruda*
A troca de ataques entre o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, se intensificou nos últimos dias e passou a ocupar o centro do debate político nacional, misturando disputas judiciais, declarações polêmicas e estratégias eleitorais.
O conflito teve início após Zema publicar um vídeo nas redes sociais em que satiriza ministros do STF, retratando-os como fantoches em meio a críticas envolvendo decisões da Corte. A reação de Gilmar Mendes foi imediata: o ministro solicitou a inclusão do ex-governador no inquérito das fake news, atualmente sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
Em uma escalada de acusações, desde então, o embate evoluiu para uma sequência de declarações públicas contundentes. Gilmar Mendes acusou Zema de agir com irresponsabilidade e sugeriu que o ex-governador estaria explorando o momento eleitoral. “Ele tenta sapatear, talvez aproveitando do momento eleitoral”, afirmou o ministro.
Zema, por sua vez, respondeu elevando o tom contra o STF, acusando a Corte de autoritarismo e corrupção, além de afirmar que não deve “submissão” ao tribunal, mesmo após decisões judiciais que beneficiaram Minas Gerais durante sua gestão.
O conflito também ganhou contornos pessoais. Gilmar ironizou o modo de falar de Zema, dizendo que ele utiliza um “dialeto próximo do português”, o que gerou reação do ex-governador, que interpretou a fala como desrespeito aos mineiros.
Em outro episódio, declarações do ministro envolvendo comparações consideradas preconceituosas provocaram nova resposta de Zema, que acusou Gilmar de expor “preconceito” em rede nacional.
No campo jurídico ganhou dimensão institucional. O pedido de inclusão de Zema no inquérito das fake news elevou a tensão entre os Poderes. A medida ainda depende de avaliação da Procuradoria-Geral da República, mas já sinaliza uma possível judicialização mais profunda do conflito político.
O episódio também reacende o debate sobre limites entre liberdade de expressão e ataques às instituições, tema recorrente no STF nos últimos anos.
Analistas apontam que o embate ocorre em um contexto estratégico. Zema deixou o governo de Minas em março de 2026 para disputar a Presidência da República e busca ampliar sua projeção nacional, especialmente junto ao eleitorado conservador.
Segundo especialistas, o confronto com o STF pode funcionar como ferramenta de mobilização política. A retórica crítica ao Judiciário tem sido usada para consolidar apoio em setores da direita, ainda em disputa por liderança após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, há avaliação de que a reação de Gilmar Mendes pode ter efeito ambíguo: enquanto tenta conter ataques institucionais, também acaba dando visibilidade ao adversário.
O caso evidencia um cenário de crescente tensão entre atores políticos e o Judiciário, em meio à pré-campanha presidencial de 2026. Especialistas alertam que a escalada de ataques pode contribuir para a polarização e pressionar instituições democráticas.
Ao transformar o conflito em pauta pública diária, o embate entre Zema e Gilmar Mendes ultrapassa o campo pessoal e passa a simbolizar uma disputa maior: a relação entre política, Justiça e liberdade de crítica no Brasil contemporâneo.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

