Vista aérea do campus da UFVJM-Diamantina - créditos: UFVJM
12-04-2026 às 13h40
Por Carlos Mota*
Embora nascido e morando em Minas Novas, só passei a me dar conta de que eu era de uma região denominada Vale do Jequitinhonha na altura de meus quinze anos de idade, embora sabendo da existência do querido rio, mesmo ele então banhando o meu município, mas distante da sede em que eu morava.
E esse “não senso” de pertença ou pertencimento ao Jequitinhonha não era apenas meu, a começar que nas aulas de Geografia aprendíamos que morávamos no Norte de Minas Gerais, além do que não tínhamos intimidade com o rio, pois das sedes de municípios em nosso entorno, nenhuma era (nem é) banhada pelo Jequitinhonha, pois o Rei de Portugal, no afã de proteger diamantes e ouro, proibiu, no hoje dito Alto Jequitinhonha, quaisquer edificações numa longa distância do leito dele. E como povoados são precedidos obviamente das primeiras casas, nisso resultou que o Jequitinhonha não seguiu o exemplo do Sena banhando Paris, o Tejo Lisboa, o Tâmisa Londres e por aí afora.
Além disso, a região do Jequitinhonha não é tão uniforme como os estranhos dela pensam, nem no sentido de seu relevo, clima, economia, idioma/sotaque, hábitos , costumes e cultura, a saber, fatores esses que definem a identidade de um povo.
O Alto Jequitinhonha, por exemplo, se situa majoritariamente na Cordilheira do Espinhaço (o nosso viralatismo a chama de reles Serra), prenhe de cursos d’água, cachoeiras, clima ameno e terras férteis, enquanto no Médio Jequitinhonha prevalece uma espécie de caatinga ou carrasco, situação que se modifica no Baixo Jequitinhonha, com chuvas mais intensas e com terras férteis. [E não digo isso fazendo juízo de valor, pois todas essas três regiões (na Europa seriam três países) têm os seus pontos positivos e negativos, à certa medida parelhos!]
Além do mais, sendo os carreiros, picadas, trilhas, estradas e hoje br’s fatores de integração populacional, Minas Novas, por exemplo, foi mais ligada a Grão-Mogol e Montes Claros, e a Diamantina (nos anos 1950, quando da abertura da Rodovia Definitiva, hoje trecho da BR 367, tendo pouquíssima ligação com o seus ex-distritos localizados no Médio e Baixo Jequitinhonha, pois nem mesmo a abertura da Rio-Bahia fez com que Minas Novas e seu entorno abandonassem Diamantina e Montes Claros como as suas capitais ou polos regionais.
E como surgiu então essa região que tanto amamos e nominada Vale do Jequitinhonha? Começo respondendo que de propósito escrevi a palavra “nominada”, não denominada, porque o Vale do Jequitinhonha começou de forma retórica, discursiva ou como narrativa de um jovem deputado federal, nascido Minas Novas, Murilo Badaró, movido pela ótima intenção de chamar a atenção de Minas e do próprio Brasil por conta do abandono que até hoje ainda está relegada.
Minas Gerais, porque não deu bolas nos anos 1700 pela profusão de diamantes no Tejuco e de ouro nas minas novas dos rios Bonsucesso e Fanado, prontamente abiscoitados pela nada boba Bahia.
Minas Gerais, puxa-saco de Portugal, emputecida porque a Inconfidência Mineira brotou em Minas Novas, com um alferes que não saía de lá, porque em Minas Novas tinha uma namorada (sobrinha ou filha do Padre Rolim) e fez amizade com futuros inconfidentes, como Domingos Vieira da Mota, João Mota e Vicente Mota, todos os três enterrados no Museu da Inconfidência em Ouro Preto e todos os três meus parentes, o que não vem ao caso, mesmo porque o opróbio a que foram relegados fizeram com que os Xavier, os Vieira e os Mota, por justo receio de perseguições, escondessem ou renegassem um parentesco tão abominável quanto o é o dos Vorcaro de Belo Horizonte, ora morrendo de vergonha do parente mais famoso! Kkk
E isso fez com que o nosso amado e admirado JK enfatizasse a sua condição de diamantinense e só se lembrasse do Jequitinhonha quando ía se encontrar com a sua amante Vera Brant, num disfarce de hotel (motel?) que ele mandou construir em Acauã, então território de Minas Novas, para a inauguração da Definitiva, hoje trecho da BR 367! JK era nosso primo, e de parentes não é pecado se falar mal!?!
JK que implantou dez universidades federais pelo Brasil afora, mas não se lembrou do Vale, COISA QUE SOBROU PARA ESTE POBRE COITADO FAZER e nem ser reconhecido, mas phodas, pois isso também não vem ao caso!!!
E se a birra de Minas era com os inconfidentes, a do Brasil e seu Imperador Pedro II, era com o serrano Teófilo Otone e seu tio, professor de Latim em Minas Novas, por conta disso meu patrono da ALVA, José Eloy Otone, pelo tanto que pegaram no pé do imperador, inclusive liderando a Revolução Liberal de 1842, sufocada em Pé do Morro pelo próprio Duque de Caxias. A Revolução foi em grande parte tramada no hoje Solar dos Badaró em Minas Novas, tombado pelo IPHAN! Foi que o minasnovense Senador José Bento Nogueira, avô de Badaró, estava entre os revolucionários anti-monarquista, republicanos!
Tendo sido preso, Teófilo Otone foi degredado em Minas Novas, pelo imperador, num sítio de nome Degredo de Magalhães, herança de meu tataravô que o acolheu ou acoitou, não na cidade, mas naquele ermo. Magalhães foi o codinome com que Teófilo Otone chegou às Minas Novas e lá reuniu várias famílias, para depois povoar Philadelfia de Minas Novas, hoje a cidade que leva o seu nome, bem assim construir a primeira estrada carroçável do Brasil, ligando Minas Novas (Alto dos Bois, hoje em Angelândia) a Santa Clara (Nanuque) e de lá até Ponta de Areia, na Bahia.
E esse espicho de texto o fiz, não para renegar um gentílico de que tanto orgulho – JEQUITINHONHENSE – mas para dizer o quanto necessitamos para nos considerarmos um só povo ou uma só nação: A NAÇÃO JEQUITINHONHA.
Aliás, quando lutei e venci ao chamar a “minha” universidade, não de UFD – D de Diamantina – foi justamente para afirmar o Jequimucuri como uma unidade do Estado de Minas Gerais, mais pujante do que várias outras!
Mas isso, que também não vem ao caso, talvez EXPLIQUE A BIRRA DE MUITOS DIAMANTINENSES PARA COM ESTE VELHO E RESSENTIDO CARLOS MOTA! Não estou nem aí e phodas!
Pronto, falei!
*Carlos Mota e procurador federal, ex-deputado federal que trouxe a UFVJM para o Vale, escritor e membro da ALVA – academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

