Mulheres multifunções - créditos: grupo Lach
28-03-2026 às 14h18
Giovana Devisate*
Cresci no meio de lugares que viam o futuro como um pequeno traço contínuo, onde só se tem sucesso atuando em carreiras específicas e que a escolha do trabalho define a vida. Esse pensamento engessa os criativos, os artistas, os inventivos, os imaginativos. Esse pensamento corrói a alma!
Com o passar dos anos, amadurecer também torna-se sinônimo de entender que ser alguém de muitos interesses e de habilidades múltiplas tem vantagens imensas no mundo, tanto quanto ser absurdamente boa em uma coisa só, com perfil mais especialista. Muitas vezes, no entanto, ouvi que deveria focar em apenas uma coisa, que não dá pra ter síndrome de “barbie profissões” e querer ser tudo, que só ganha dinheiro quem abre mão do equilíbrio entre o prazer e o trabalho e que só vale a pena ser médico ou engenheiro (ou trabalhar no universo da tecnologia, atualmente), que só cresce profissionalmente quem “se enquadra no sistema”.
Não sei se tudo isso de fato é verdade, mas gosto de olhar pra história de uma das personalidades mais importantes da humanidade: Da Vinci. Ele era pintor, ilustrador, inventor, cientista, filósofo, engenheiro, arquiteto… Multi-habilidades, em sua totalidade. Num tempo, claro, em que não haviam grandes distrações como hoje e que o foco e o investimento de tempo eram absolutos nos seus interesses, o que com certeza lhe permitia explorar de tudo com alguma profundidade.
Entendo o nosso tempo, a facilidade de dispersão, o modo do pensamento voar enquanto tentamos executar uma tarefa, o que faz com que seja mais difícil ser tudo que queremos. O nosso tempo, acredito, é muito mais curto e me parece uma das maiores injustiças dizer a uma criança que o futuro precisa vir acompanhado de decisões que giram em torno do dinheiro, apenas, como se a criatividade fosse um território instintivo da infância, que deve ser abandonado com o tempo, não um modo de ser, pensar, agir e ver o mundo, também capaz de ser fonte de renda. Penso que muito da desvalorização que a sociedade imprime em cima do artista e da arte está atrelada a esse pensamento.
Me lembrei da Lucy Liu, atriz e diretora que também é artista visual. Ela pinta desde a adolescência e nunca abandonou esse território, tendo começado no universo das artes visuais pela fotografia e pela colagem. Existem muitos nomes que poderiam estar aqui, porque os seres humanos são múltiplos e cultivam variados interesses, habilidades e hobbies.
Outro dia, ouvi de um senhor que “a arte e a moda são diferentes da medicina e do direito porque o médico e o advogado precisam estudar para sempre”. Enquanto ele ainda falava a última sílaba, eu começava a dizer que todas as profissões exigem que se estude pra sempre. Na moda e na arte, estudar continuamente é uma exigência também, de forma muito intensa inclusive, porque a gente tá no meio do burburinho da vida, dando conta de coisas que refletem a história, a sociedade, seus comportamentos, suas ambições…
A arte espelha o mundo, seja retratando a realidade, a combatendo ou criando cenários utópicos. Isso é muito difícil e trabalhar com arte também é trabalho, também exige tempo, dedicação e, como evidenciei, muito estudo.
Tenho entendido, com o tempo, que para viver de arte a gente precisa estudar, a prática e a teoria, mas também ser insistente e um pouco ignorante. Colocar a alma no que faz já é cansativo demais e se escutamos o mundo de fora, as opiniões, o que as pessoas pensam, a gente mata um pouquinho o que somos de verdade. Ou melhor: a gente espreme o que somos no fundo da gente, até ficarmos cheios de pequenas coisas não exploradas, que vão explodir quando a gente menos esperar.
É super difícil viver de arte, especialmente em um país como o nosso, mas a rebeldia do artista vem da insistência de criar apesar de tudo e talvez os melhores sejam os que criam sem pensar no mercado, na venda, no dinheiro, apesar da arte ser um mercado e precisar ser encarada como um negócio.
Viver de arte, acredito, também é um privilégio e é muito importante falarmos sobre isso. Essa é uma constatação atravessada por uma realidade: na periferia, criar quase sempre vem depois do trabalho, do cansaço, do barulho, da urgência… Existe um custo invisível em sustentar a criação, em ter continuidade, em acreditar que aquilo pode existir e que de fato é possível, especialmente em cenários de escassez.
Quando falo de privilégio, não é só sobre quem consegue ou não fazer arte por causa da própria realidade, mas também sobre quem consegue permanecer na arte, sem se perder no caminho montanhoso que é a vida de um artista, especialmente daqueles que precisam, o tempo todo, desviar da linha reta na qual a sociedade insiste em encaixá-los.
Eu sou esse caso e, por muito tempo, pensei que todas as minhas multi-habiliddes eram hobbies e que eu deveria ter um trabalho como o das outras pessoas, como o das minhas amigas, como o da maioria das pessoas que convivem comigo. É difícil o outro entender que nós, artistas, habitamos o mundo falando sobre ele.
Em participação no programa “Bom Dia, Obvious”, a cantora Duda Beat conta que escreve e faz música do jeito que quer, o que às vezes acaba não dando bons resultados em relação ao número de ouvintes, mas que o mais importante é ela ter a liberdade de criar.
Esses dias, escrevi um negócio, me gravei falando e sobrepus em um vídeo lindo que montei, que vou postar no meu novo Instagram, @culturaemcamadas. Eu disse: ter sempre uma câmera na mão me faz estar preparada pra tudo, que escrever no tempo não é só sobre palavras, mas também sobre o poder de congelar a luz, registrar os momentos e sobre fazê-los durar para além da própria existência.
A sensibilidade do artista é muito pouco valorizada, mas volto a dizer, algo que já disse em outros artigos também: na hora da crise, quando o bicho pega, a gente recorre ao universo das artes para conseguir respirar de novo.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

