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25-03-2026 às 16h46
Mayara Rodrigues*
Um estudo conduzido em nove países da América Latina identificou que obesidade grave e sintomas intensos da menopausa estão associados a maior risco de comprometimento cognitivo em mulheres após a menopausa. A pesquisa foi publicada em 2025 na revista científica Climacteric e analisou 722 mulheres, avaliadas por meio do teste Montreal Cognitive Assessment (MoCA), instrumento utilizado para rastrear alterações de memória, atenção e raciocínio.
A média de idade das participantes foi de 56 anos. O índice de massa corporal (IMC) médio foi de 26 kg/m² e o tempo médio de estudo, de 13 anos. Entre as mulheres que apresentaram comprometimento cognitivo, os pesquisadores observaram peso corporal mais elevado, maior número de filhos, sintomas menopausais mais intensos, mais doenças associadas, menor escolaridade, menor prática de atividade física e menor uso prévio de terapia hormonal da menopausa.
Na análise estatística, mulheres com IMC igual ou superior a 35 kg/m² apresentaram mais que o dobro do risco de comprometimento cognitivo e sintomas menopausais graves também duplicaram esse risco. Por outro lado, maior escolaridade e uso prévio de terapia hormonal apareceram como fatores de proteção.
Para a médica, pesquisadora e mestranda em climatério Fabiane Berta, os dados ajudam a explicar uma queixa cada vez mais comum nos consultórios: a chamada “névoa mental” da menopausa. “Muitas mulheres relatam dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes e sensação de lentidão no raciocínio. Isso não é frescura nem exagero, pois o cérebro também sente a queda hormonal”, afirma.
Segundo ela, o excesso de peso agrava esse cenário. “A obesidade não é apenas uma questão estética. O tecido de gordura produz substâncias inflamatórias que circulam no organismo e podem afetar vasos sanguíneos e funcionamento cerebral. Quando isso se soma às mudanças hormonais da menopausa, o impacto pode ser maior.”
Fabiane ressalta que o estudo não estabelece causa direta, mas reforça a importância de olhar para a menopausa de forma integral. “Estamos falando de saúde metabólica, saúde cerebral e qualidade de vida. Controlar o peso, manter atividade física regular, tratar sintomas intensos e discutir, quando indicado, a terapia hormonal, são medidas que podem fazer diferença no futuro cognitivo dessa mulher.”
Ela também chama atenção para o papel da educação e do estímulo intelectual. “Anos de estudo estão relacionados à chamada reserva cognitiva, que funciona como uma proteção adicional para o cérebro. Aprender, ler, se manter intelectualmente ativa ao longo da vida tem impacto real.”
Para a especialista, o estudo tem relevância especial para o Brasil, por trazer dados de mulheres latino-americanas, com realidades sociais semelhantes às nossas. Mas ela faz uma provocação. “São nove países analisados e o Brasil não está entre eles. Onde estão os nossos dados? Onde está a menopausa brasileira nas grandes pesquisas? Se não produzimos informação sobre as nossas mulheres, continuaremos importando respostas para perguntas que talvez nem estejam sendo feitas aqui.”

