Vladimir Lênin, líder da revolução Russa - créditos: Russia Beyond
22-03-2026 às 13h46
Joaquim Carlos Salgado*
Pensadores e correntes formaram o que se denominou direita (Croce, Gentile, Mussolini) e esquerda (Marx, Gramsci, Lênin) hegeliana. Contudo, o único que, tendo lido Hegel com afinco, tornou efetiva sua ideia central através de uma revolução e da construção e conservação do Estado como poder político permanente, foi Lênin. Antes de ser leitor de Marx, é leitor de Hegel, cuja ciência por ele assumida supera a tática da ideologia marxista. [1]
Lênin é um estadista que, com notória independência intelectual, soube unir o pensamento de Hegel com a efetividade na construção do Estado russo de seu tempo. O ponto fundamental a partir do qual se deve desenvolver os estudos de Lênin é a unidade de pensamento e ação, de que não desfrutou Marx nas clausuras das bibliotecas. Lênin não só aprofundou a essência de qualquer postulado teórico, mas executou empiricamente as teses desse conhecimento novo, a dar unidade dessas duas vertentes do conhecimento (pensamento e ação) na forma dialética, pela qual o pensamento ilumina e dirige a ação que se desenvolve materialmente.
Entretanto, viu que a realidade da revolução punha em evidência três “classes”, soldados, operários e camponeses, cujos interesses eram convergentes e não antagônicos e cuja unidade se efetivou na forma política do soviete. A unidade da iniciativa das massas, que ainda não é povo, e do conhecimento teórico, este na mente dos líderes, é o sujeito da história.[2]
Na verdade, não se pode falar em revolução do campesinato, mas apenas em levante ou assemelhados, pois seu interesse é imediatista, isto é, é privado e econômico, não público ou político no sentido de assumir o Estado. Também não se pode entender uma consciência revolucionária no soldado, pois seu status é de interior da instituição estatal e seu interesse e reivindicações são de natureza privada. Restaria o proletariado na situação de operário, cuja ação poderia ser revolucionária, pois não tem propriedade produtiva nem tem vínculo de trabalho com o Estado. No entanto, isoladamente, pode apenas movimentar-se para melhores condições de trabalho e melhores salários.
Então constitui Lênin os sovietes de soldados, camponeses e operários, ainda que o operariado fosse insignificante para a revolução, pois para ele onde está o operário está a possibilidade da revolução.[3]Essas três classes e adjacências constituem as massas, a matéria da revolução, cuja forma é dada pela ideia norteadora dos seus líderes.
Não é possível, pois, uma revolução apenas das massas; essas se aglomeram sem fins políticos definidos. Esses fins são dados pelos que têm delas o pensamento e lhes dão unidade nas suas dispersas ações: os líderes.
Estes operam as massas através de um grupo coeso e sistematicamente organizado, o partido, que Lênin formou por depuração e cisão do Partido Social Democrata Russo, cujo programa inseria a revolução e assunção do poder do Estado para a construção do socialismo denominado bolchevique (facção minoritária resultante da cisão), contrário aos mencheviques (facção majoritária), que defendiam a construção do socialismo não por revolução, mas por evolução gradativa do próprio capitalismo, que os partidos sociais democráticos do Ocidente de tendencia liberal adotaram. Pode-se entender que Lênin concebia, segundo a teoria maquiavélica, que quem está no poder, dele não abre mão, a menos que seja dele desapossado violentamente.
Embora a revolução fosse a finalidade imediata do programa do proletariado, na Rússia não poderia ser iniciada, senão pela união dos que compunham um grupo de classes socialmente inferiores e nela interessados naquela situação histórica, a dos soldados, dos camponeses e dos proletários, que por elas mesmas e representando as demais camadas conscientes ou na mesma situação, formavam as massas revolucionárias, as quais, segundo o pensamento hegeliano, constituem o “espírito objetivo” da revolução; no comando dessas massas, o partido que é a sua consciência revolucionaria, que se pode denominar “espírito subjetivo” da revolução na concepção de Hegel. Os sovietes constituiriam a unidade da ação revolucionária e da administração do Estado depois de conquistado.
Lênin entendeu que a dialética, sendo uma forma da lógica, era também uma teoria do conhecimento na medida em que unia sujeito e objeto, e que era a ciência exposta na sua profundidade na Ciência da Lógica de Hegel, a qual, ao mesmo tempo, constituía uma doutrina do pensar e uma ontologia, possibilitando uma teoria do conhecimento.
Marx ficou no “lugar de nascimento da filosofia de Hegel” (citado por Lima Vaz). Lênin adentrou profundamente nessa filosofia pelo estudo da Ciência da Lógica, ou seja, Marx ficou aos pés do pensamento de Hegel, Lênin estudou a cabeça desse pensamento. Um contemplou-o de cabeça para cima (Lênin), o outro viu-o de cabeça para baixo.
Com isso, Lênin revoga dois princípios da pregação de Marx: (a) o da revolução universal, pois a revolução seria feita na Rússia, e a (b) de que somente o proletariado poderia fazê-la numa situação avançada do capitalismo.
A tese de Lênin era que a) a revolução estava localizada em um país, a Rússia, b) que não tinha de esperar por um capitalismo desenvolvido e c) que não tinha de ser feita somente pelo proletariado, mas d) pela união do proletariado com os camponeses e soldados, sendo de lembrar que e) o antagonismo entre soldados e proletários segundo pensava Marx não se confirmava na Rússia, e, ainda, f) que o Estado não se definha, é permanente.
Nada de “proletários do mundo inteiro, uni-vos!”, mas “operários, soldados e camponeses da Rússia, uni-vos!”. Diante dessa visão realista de Lênin, foi ele acusado de nacionalista.[4]Essa a grande cisão doutrinária entre Lênin e Marx quanto à teoria da revolução.
Quanto à base científica dessa teoria, uma discrepância profunda se instalou entre esses dois teóricos do socialismo no que se refere a sua construção. Trata-se da dialética como ciência.
Marx ficou na leitura da Fenomenologia do Espírito, que é uma dialética aplicada, impregnada de certos traços românticos, e uma espécie de introdução à própria dialética e ao pensamento de Hegel.
Lênin estudou e comentou o que era realmente o cerne do pensamento dialético de Hegel, a Ciência da Lógica. E o que faz Lênin é desontologizar a Lógica de Hegel, recorrendo à filosofia de Kant, porém assumindo a coisa em si como a natureza, transformando a lógica em epistemologia, cujo objeto é a natureza oposta a consciência.
Com isso, o absoluto de Hegel é considerado no significado de permanente, como ocorre com as verdades das leis científicas ou de fatos históricos e espaciais como “Napoleão morreu a 5 de maio de 1821” e com a asserção “Paris é em França.”[5]
Com base nesse realismo, que ele denomina de materialismo, expressa um conceito de absoluto, diferente do de Hegel.
E afirma: “Desse modo o pensamento humano é, pela sua natureza, capaz de dar, e dá, a verdade absoluta, que se compõe da soma de verdades relativas.”[6]
O objeto desse conhecimento é a “realidade objetiva que existe fora de nós, que há muito em gnosiologia se chama matéria e é estudada pelas ciências naturais”[7]
E pondera, peremptório:
“Porque a única ‘propriedade’ da matéria a cujo reconhecimento o materialismo filosófico está ligado é a propriedade de ser uma realidade objetiva, de existir fora da nossa consciência .“[8]
O materialismo filosófico de Lênin, ou materialismo dialético, é uma ideologia que serve de instrumento tático para combater a ideologia dita reacionária dos idealismos, como o pensamento de Mach. Isso é fácil constatar na doutrina revolucionaria de Lênin segundo a qual o sujeito da história é a unidade das massas e da sua consciência, os seus líderes organizados no partido.
Um ponto de partida para bem entender Lênin é o conceito de dialética como pensamento e ação em movimento de unidade. Lênin não só aprofundou a essência de qualquer postulado teórico, mas executou as teses desse conhecimento de modo a dar unidade do pensamento e da ação, unidade dialética pela qual o pensamento ilumina a ação e a ação alimenta o pensamento materialmente.
A unidade das iniciativas das massas, que ainda não são povo, e do conhecimento teórico, este na mente dos líderes, são o sujeito da história.[9]
Pois bem. Não se pode falar em revolução do campesinato, mas apenas em levantes ou assemelhados, pois seu interesse é privado e econômico, não público ou político, isto é, de assunção do Estado. Também não se pode entender que os soldados façam revolução pois seu status é de pertença ao Estado e apenas podem reivindicar coisas do seu interesse internamente. Restaria o proletariado na situação de operariado, únicos cuja ação poderia ser política, portanto, revolucionária, já que motivado pela última posição na escala social; nada disso, as três classes estão na mesma situação social. É preciso uni-las politicamente.
O traço romântico ou literário da Fenomenologia do Espírito impediu a Marx de captar o sentido de dialética concebido por Hegel, o qual se desenvolve de modo acabado na Ciência da Lógica.
Aparelhado com esse poderoso instrumento filosófico, Lênin compreendeu que o materialismo dialético e o histórico são retóricos e ideológicos, imprestáveis para uma ciência.
Nada de esperar condições objetivas do capitalismo para a revolução, pois em seu lugar está a vontade política do partido e as condições históricas do momento. O soviete como união de soldados, camponeses e operários é que forma a base da vanguarda revolucionária do povo, que instaura um Estado forte sem perspectiva de definhamento.
Deixar de lado a ficção inversa da Bíblia de fundar ou restaurar o paraíso na terra, nomeando messias a classe operária, assenta as bases do realismo político do leninismo.
[1] Cfr. FRESU, Gianni. Lênin Leitor de Marx: Dialética e determinismo na história do movimento operário. São Paulo: Editora e Livraria Anita Ltda, 2016, 269 págs. SILVA, Marcos Aurélio. Apresentação – O maior teórico da filosofia da práxis; In: FRESU, Gianni, Ibidem, p. 12, diz: “De fato , estamos diante de um Lênin para o qual a filosofia hegeliana e a ideia de superação dialética ‘Aufhebung’ que lhe é cara, aparecem muito cedo e aparecem vivas por todo o tempo de sua atividade política…”
[2] Cfr. GAREAUDY,.Roger. Lênin Paris:P.U.F.,1968 ,p. 55
[3] Id.Ibid.,p.55
[4] FISCHER, LOUIS. A Vida de LÊNIN. Tradução de Pedro Ferraz e Maurício Quadros. Rio de Janeiro: ED. Civilização Brasileira,v. I, p.
[5] LÊNIN,W.I. Materialismo e Empirocriticismo. Lisboa: Avante Edições,1982, p. 99-100.
[6] Id.Ibid.,p.101.
[7] Id. Ibid.,p. 131.
[8] Id.Ibid., p. 198.
[9] GARAUDY, Op.Cit P. 95.
*Joaquim Carlos Salgado é jusfilósofo

