Dona Edite, artesã da Chapada Diamantina - créditos: Guia Chapada Diamantina
21-03-2026 às 08h08
Giovana Devisate*
A vida é movida pelos encontros que temos e eu, que viajo muito, sou frequentemente atravessada por pessoas e histórias. A gente cultiva relações por onde passa, até quem não é tão comunicativo, simpático ou extrovertido. No fim, somos também um pouco delas e carregamos marcas de cada encontro.
Na quinta, 19 de Março, voltei à casa de uma senhora artesã que faz trabalhos com palha. O seu nome é Edith e ela fica especificamente em Lençois, na Chapada Diamantina, lugar que amo e visito com frequência, há mais de dez anos.
Me sentei com ela para prosear, saber como anda, como vai, o que tem feito e contar sobre minhas andanças, dos meus projetos e trabalhos também. Ela sempre conta muitas histórias, fala sobre a roça, os filhos, os netos e, claro, sobre o seu precioso trabalho.
Em todas as vezes que estive com ela, ouvi a mesma história: ninguém na região faz algo semelhante ao que ela sabe fazer e nenhuma das filhas ou netas quis aprender a técnica do seu artesanato. Isso é de conhecimento geral por toda a Chapada Diamantina! O que ela faz é único e vai acabar no momento em que ela partir. Conhecida por todos dali, Dona Edith construiu um legado, um nome, uma reputação. A sua arte, infelizmente, não vai perdurar por novas gerações.
Me lembro bem, inclusive, que em 2016, quando ainda estava no início da faculdade de design de moda, ela me ajudou com um projeto em que falei sobre a Chapada e o cerrado, usando palha de licuri. Especial demais!
No dia 19 de março, quando a visitei e também escrevi este artigo, comemora-se o Dia do Artesão, daqueles que transformam matéria-prima em objetos de forma tão carinhosa. A data coincide com o dia de São José, padroeiro dos trabalhadores e artesãos!
Em qualquer lugar do país, ando observando que os artesanatos locais, feitos por gente que conta histórias dos lugares de onde produzem e que fazem parte da história daquele lugar, sendo substituídos por objetos provenientes de fábricas de produção em massa, muitas vezes de países estrangeiros.
Garanto, entretanto, que nenhum tapete de palha feito em fábrica assim pode ser comparado ao tapete de palha de licuri que a Dona Edith faz. Ela quem colhe a palha na roça, deixa para secar, tinge se precisar e costura, corta, rasga, trama, imagina e cria, com esse material que, como ela mesma diz, é precioso.
Através das mãos, mulheres e homens transmutam os seus costumes e crenças em objetos, que continuam contando histórias por onde forem. O produzir com as mãos e todo o processo que envolve o artesanato, é um símbolo de resistência para o povo brasileiro e para as mentes criativas que precisam continuar criando, fazendo, inventando e produzindo para existir.
A cultura popular é a base para que o artesanato exista, porque o artesanato nasce exatamente da vivência, dos saberes, das práticas, dos materiais e das tradições de um povo. O artesanato, portanto, não é só um objeto, mas uma materialização de histórias, de técnicas que foram passadas de geração em geração e aos que se interessaram em aprender, de referências culturais específicas de um determinado lugar e de criação com sentido, amor e cuidado.
A cultura, sabemos, é um bem imaterial da humanidade. Nesse sentido, podemos pensar no artesanato como uma expressão tangível desse bem, feito por pessoas que moldam o futuro, o presente e o passado com as mãos de uma só vez, em um mesmo objeto.
Falo isso porque existe um contexto para que o artesanato nasça, com significado e identidade, necessidade e técnica, coisas que só são possíveis de existir no produto de hoje porque houve história ontem e porque vai haver história amanhã.
É o tempo que conta essa história, que permite que as pessoas perdurem criando, resistindo à pressa, à padronização, ao apagamento de culturas e costumes. O dia 19 de Março serve para nos fazer pensar sobre o que é que mantém o artesanato vivo e, principalmente, para nos fazer reconhecer o seu valor cultural, social e econômico – visto que o artesanato movimenta muitos milhões de reais anualmente em todo o país.
Fica, então, o meu pedido: comprem de quem faz, comprem os produtos feitos a mão, comprem produtos brasileiros, comprem de quem quer contar uma história e continuar uma tradição. Comprar de um artesão não é só consumir ou cultivar uma lembrança de algum lugar, mas sustentar uma história, manter vivo um modo de existir e produzir. Comprem dos que preservam o passado e reverenciam os processos e o fazer com calma.
Por último, fica mais um pedido: escutem as histórias que os artesãos têm para contar. A sabedoria, eu prometo, é sempre infinita, emocionante e linda.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

