Créditos: Divulgação
19-03-2026 às 08h10
Tadeu Martins*
Em 1986, depois do Festivale de Almenara, eu publiquei uma carta aos companheiros do Movimento Cultural do Vale, fazendo algumas críticas e sugerindo mudanças nos rumos do Festivale e de outras atividades desenvolvidas na época. A carta repercutiu em muitos jornais e graças a Deus, me ouviram.
Graças à divulgação das “intrigas do Festivale”, uma jornalista de Belo Horizonte fez uma entrevista comigo, e me fez uma pergunta bem interessante: “sabemos da sua caminhada, você fala muito em cultura, mas deixando de lado o Jequitinhonha, você pode citar um filme, uma música e um livro que te influenciaram?” Não foi difícil responder, sempre fui apaixonado por cinema, música, e livros.
Citei o que ela pediu, mas sem dar maiores explicações. Hoje, aproximando o Oscar 2026, revendo algumas publicações me deparei com aquilo. E vou lhes responder o que respondi a ela, com maiores detalhes. Três coisas que ajudaram a mudar para melhor a minha vida.
UM FILME: Ao Mestre com Carinho – com Sidney Poitier.
Explico: em 1967, quando eu tinha 14 anos, vi esse filme. Chorei muito. Em Teófilo Otoni, onde eu morava, o filme ficou em cartaz por alguns dias. Assisti várias vezes, chorei em todas elas. Quem não viu, eu recomendo: vejam. Ali defini o meu sonho de ser professor, para fazer o que aquele Mestre fez, ajudar na melhoria da vida dos alunos.
Um ano depois, em 1968. com quinze anos, comecei a realizar o sonho. Fui professor particular de Matemática, tive alguns alunos e alunas. Mas vou me recordar de uma aluna inteligentíssima, que estava mal na matéria, e acabou se formando em engenharia, virou uma excelente profissional e, um dia me mandou uma mensagem que me levou a chorar: Rita Lauar.
Ao longo da vida tive mais de 16.000 alunos, aulas particulares, aulas na Escola Normal de Itaobim; em Belo Horizonte, professor de Química por 10 anos, nos cursinhos Aprova, Master e Carrier; e nos muitos cursos de Formação de Agentes Culturais. Aquele filme me marcou: professor é quem ensina uma disciplina, mas Mestre é aquele que além disso, trabalha com os alunos, para que aprendam a respeitar a sua história e a valorizar a própria vida. Hoje, aos quase 73 anos, que completo em 26 de abril, eu penso: será que dei conta de fazer aquilo que sonhei? Só os meus alunos e alunas poderão responder.
UMA MÚSICA: My way – Frank Sinatra
Em 1970 na minha Itaobim, o meu avô que era o prefeito, transformou o nosso campo de peladas em uma bela Praça. Hoje é a principal de Itaobim e leva o seu nome: Praça Afonso Martins da Silva. No meio da Praça construiu um imóvel, onde se instalou o Redond’s Bar, que foi administrado muitos anos pelo itaobinense Bisson Gilbert. Naquele ano de 1970 eu cheguei ao bar e encontrei o artista plástico, poeta e exímio declamador, Octacílio Matos, ouvindo uma fita cassete de Frank Sinatra. New York, New York, Strangers in the night, e… My Way. Sobre a última, comentei que achei a canção maravilhosa. Ele comentou que considerava uma das melhores canções do mundo. Entre uma cerveja e outra, ouvimos umas três vezes aquela música, uma versão que o Sinatra fez da canção francesa “Comme d’habitude”, de Claude François. Voltando a Teófilo Otoni, onde eu estudava, comprei um LP de Sinatra e ouvi My Way umas trocentas vezes. A música me tocou. A música e a letra, que parece ter sido feita com base no que sempre pensei: “vivo intensamente, acertei, errei, cai, levantei, mas fiz do meu jeito”. Ouço a canção até hoje. E até já falei com minha esposa, meus filhos, netos e irmãos, que quando eu partir da terra, quero ouvir essa canção no meu velório. Recomendo a vocês: ouçam My Way e vejam a tradução, tenho a certeza de que serão tocados como eu fui.
UM LIVRO – Subterrâneos da Liberdade – Jorge Amado
A trilogia Subterrâneos da Liberdade é constituída dos livros “Os Ásperos tempos”, “Agonia da noite” e “A luz no túnel”, nessa ordem. Vocês precisam ler essa trilogia, que Jorge Amado escreveu durante a ditadura Vargas. Jorge era militante comunista, chegou a ser deputado. Nessa obra ele mistura realidade e ficção, trocando nomes e lugares, para não colocar em risco os seus camaradas. Ali, por exemplo, o arquiteto Oscar Niemeyer, que dava abrigo e proteção aos camaradas, vira Marcos de Souza; o governador mineiro imposto pelo Vargas, Benedito Valadares, vira Venâncio Florival, e muitos outros brasileiros viram a sua história ser contada com personagens de nomes diferentes.
O movimento comunista era forte no Vale do Rio Doce, e Jorge contou muito bem essa história como se acontecesse em uma região fictícia, Vale do Rio Doce – MG vira Vale do Rio Salgado – Mato Grosso.
Aos 15 anos, em julho de 1968, comecei a trabalhar nos Correios e Telégrafos, em Teófilo Otoni, pois fui aprovado no concurso dos Correios como Entregador de Telegramas, em 11º lugar em Minas Gerais. Foi lá que conheci essa obra de Jorge Amado. Também lá eu li o Manifesto Comunista, de Karl Marx e outros livros importantes. Mas a trilogia eu conheci em 1970, quando eu tinha 17 anos; Estudava no Colégio São José, 1º ano científico, e era contra a cruel ditadura militar que assassinou tantos brasileiros, de 1964 a 1985.
Confesso que ”Subterrâneos da Liberdade”, me despertou para o comunismo. Ali percebi que era o que eu queria para a minha vida, lutar por um ideal, por um Brasil onde a distância entre ricos e pobres não fosse tão grande; que educação, saúde, lazer e moradia digna fossem direitos de todos os brasileiros.
Por pensar assim, em 1978, me juntei a três bravos companheiros para desenvolver um trabalho no Vale do Jequitinhonha, a nossa região, que era conhecida como Vale da Miséria. Juntos, eu (de Itaobim), Aurélio Silby (de Santana do Araçuaí), Carlos Figueiredo Castilin (pernambucano que desde criança morava em Itaobim) e George Abner (de Pedra Azul), criamos o Jornal Geraes, que circulou nas 52 cidades do Vale, defendendo a dignidade do povo da região. Em 1980 criamos o Festivale – Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha; em 1984 criamos o Encontro anual das Entidades Culturais do Vale. Essa união do povo do Vale em defesa da sua dignidade e de melhores condições de vida, realmente ajudou a mudar a situação da região, hoje reconhecida nacionalmente como Vale da Cultura.
Essa história eu conto no meu livro mais recente “Jequitinhonha 46 anos de Travessia – De Vale da Miséria a Vale da Cultura”, de 888 páginas, lançado em 30 de maio de 2025.
Viajei no tempo, recordando a pergunta da jornalista, em 1986, e respondo agora mais detalhadamente sobre um filme, uma música e um livro que influenciaram na minha vida.
Recomendo a vocês os três: o filme Ao Mestre com carinho, a música My Way, com Frank Sinatra, e a trilogia Subterrâneos da Liberdade. Eu sei que vão gostar.
*Tadeu Martins é Jornalista

