15-03-2026 às 11h48
Por Marcos de Noronha*
A súmula da final do Campeonato Mineiro de Futebol, que consagrou o Cruzeiro vencedor após 7 anos de tentativas, registrou 23 expulsões. A confusão que se instalou, já no final do jogo, levou-me a diversas reflexões sobre a essência do comportamento humano.
Ao tomar conhecimento do fato, despertou-me, primeiramente, curiosidade. Além disso, no Cruzeiro jogam alguns dos meus ídolos do Corinthians. A cena teve início com um choque do atacante do Cruzeiro, já com o título quase garantido, que provocou a reação desproporcional e grosseira do goleiro do Atlético. A partir de então, iniciou-se uma pancadaria generalizada.
A curiosidade e o interesse não foram apenas meus, pois, principalmente pelo fato de as imagens terem sido registradas, o público deverá recordar mais deste tumulto do que de como foi o jogo naquele 8 de março de 2026. Veículos de comunicação classificaram o evento como “A Briga do Século”. Portanto, não se tratou apenas do recorde de expulsões em um jogo de futebol, mas de um acontecimento que gerou grande repercussão. Na Espanha, Inglaterra e França, a manchete estampou: “vergonha e batalha campal”.
O caso também chegou à justiça, onde a Polícia Civil de Minas e o Ministério Público iniciaram a investigação do “crime de rixa”. Com certeza, a Justiça Desportiva poderá aplicar punições que podem chegar a 12 jogos de suspensão aos jogadores mais comprometidos com a agressão. Mesmo assim, ainda caberão sanções internas desses clubes sobre seus jogadores.
O que, na essência, somos todos nós em relação ao temperamento? A violência é inibida em diversas partes do planeta, geralmente por sanções e diversas medidas preventivas. Em São Paulo, os organizadores desistiram de promover postura e educação para que as torcidas se conciliem e se respeitem, optando por jogos de torcida única.
Como psiquiatra, sei que o comportamento varia individualmente, seguindo as influências do temperamento de cada pessoa. Agucei minha noção sociocultural a partir da obra de Margaret Mead, “Sexo e Temperamento”, ao conhecer como viviam os povos de uma determinada localidade na Oceania: os Arapesh das Montanhas, os Mundugumor, que habitavam às margens do rio, e os Tchambuli, moradores do lago. Não apenas algumas pessoas vivem melhor, mas também algumas famílias e, consequentemente, algumas comunidades.
No meu próximo livro, Polarização (e atenção, tenho uma grande novidade sobre ele aqui para você), minha reflexão sobre os conflitos recorreu a Rutger Bregman, um autor otimista sobre o tema. Ele contraria a crença de que o homem, em sua essência, é mau e egoísta. Assim como ocorreu com o jogo da final do Campeonato Mineiro, que se popularizou pela pancadaria, os meios de comunicação, acompanhando o interesse popular, dão mais atenção a esses momentos de tensão, em comparação com notícias de ações solidárias e positivas. Isso explica, em parte, o mito de sermos todos nós maus.
No final do mês passado, realizei uma conferência na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires e tive a honra de compartilhá-la com Luis Ignacio Brusco, diretor da faculdade e professor decano daquele consagrado espaço acadêmico. O professor demonstrou que o cérebro humano possui áreas específicas que comprovam nossa necessidade de sociabilidade. Se recorrermos à paleontologia, chegaremos à conclusão de que somos assim ao longo de nossa existência, remontando a 400 mil anos, período em que, na África, o Homo sapiens e o Homo naledi, um hominídeo com características ainda de um Australopithecus, recorriam a ritos e aspectos simbólicos, fomentando a convivência social.
O ser humano, passível de ter sentimentos e emoções como outros mamíferos, reage de forma positiva quando suas necessidades são atendidas. Isso é confortável, gera confiança e autoconfiança, enchendo-nos de energia e esperança. Pode proporcionar alegria e aliviar tensões, quaisquer que sejam elas.
Ao contrário, quando nossas necessidades são frustradas, podemos reagir com tristeza, mas também com raiva. Decepcionados, podemos ficar angustiados e indefesos, às vezes confusos ou desesperados. Enquanto o atendimento de nossas expectativas gera em nós o desejo de estarmos juntos, a frustração nos isola dos demais e é desconfortável.
Frequentemente, em meu consultório, em sessões de psicoterapia, ajudo pacientes a entenderem prioridades para sua recuperação. Uma delas é lidar melhor com situações de frustração, estabelecendo a si próprio como prioridade e não o conforto, que, inconscientemente, pode levar a pessoa a obter mais prejuízo. Nesses casos, o paciente ajusta sua expectativa pessoal e sobre os outros, compreendendo que, nesse argumento, há possibilidade de deslanchar. Passa a confirmar o poder de diminuir as expectativas sobre os outros e abandona tentativas de querer controlar o ambiente.
Com treino, recobramos nossa autonomia e o poder de escolhas mais coerentes. Podemos treinar para sermos autênticos e criativos, a partir de uma postura de aceitação e proximidade. O mundo polarizado atual tornou-se mais cruel. Temos um número acentuado de pessoas adoentadas, que não lidam bem com suas emoções, devido à inabilidade em lidar com as divergências quando suas necessidades não são atendidas e sem saberem que estão doentes. Rígidas na postura que adotaram e sem condições de enriquecerem diálogos sobre temas divergentes, tensionando também seus interlocutores.
Por entender que o tema da polarização patológica é pertinente e pode nos ajudar a superar as provocações que nos levam a uma postura polarizada — postura essa que estimula nossos piores sentimentos e nos faz agir como uma manada, fomentando nossa preguiça de “pensar” —, o leitor do Diário de Minas irá ganhar um presente. Estou tratando com o jornalista Soelson Barbosa Araújo, CEO deste jornal, o lançamento do livro Polarização – Sintoma de uma Doença Social em forma de fascículos, totalmente gratuito. Vocês terão acesso a ele por meio de minha coluna. Estou criando também um espaço para saber, de cada um de vocês, o que pensam. Estou ansioso por este momento. Quem sabe, um dia, teremos mais disposição para lembrar de como foi o jogo dos nossos times do coração, em vez de uma batalha vergonhosa em campo.
*Marcos de Noronha é Psiquiatra Titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Conselho Federal de Medicina Psicoterapeuta e Psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama, Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural, Membro da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural Associado da Seção de Psiquiatria Transcultural da Associação Mundial de Psiquiatria, Membro do Grupo Latino Americano de Estudos Transculturais (GLADET) ,Com formação em diversas técnicas psicoterapêuticas, dedicou-se ao estudo de disciplinas que fazem fronteira com a psiquiatria, como sociologia e etnologia. É um dos fundadores da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, tendo publicado artigos pioneiros nos principais periódicos científicos nacionais e livros sobre o tema.
Entre suas obras, destacam-se: Terapia Social – um relato intimista de sua trajetória e técnica.


