Manifestações públicas de apoiadores de Bolsonaro e apoiadores de Flávio Bolsonaro se frustram com pouca adesão popular, segundo defensores de Lula - créditos: Folha
02-03-2026 às 16h16
Samuel Arruda*
São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e outras capitais brasileiras registraram ontem (1º) atos de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de críticos ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em mobilizações marcadas por críticas ao governo federal, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e pela projeção de lideranças conservadoras para as eleições de 2026.
Em Avenida Paulista, cerca de 20 mil pessoas se reuniram em uma manifestação bolsonarista, segundo estudo de contagem feito pela Universidade de São Paulo (USP). Organizado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o ato incluiu críticas ao presidente Lula, ao STF e apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
No Copacabana, um protesto bolsonarista reuniu cerca de 4,7 mil pessoas, segundo estimativas acadêmicas, com discursos semelhantes e pedidos de anistia a apoiadores condenados por atos de 8 de janeiro de 2023.
Em Parcão (Parque Moinhos de Vento), outra manifestação com pautas similares encerrou o domingo com presença de políticos estaduais e federais da oposição ao governo.
Além dessas capitais, atos menores foram registrados em cidades como no Grande ABC (carreata com cores verde e amarela) e também em outras capitais brasileiras conforme apuração.
Os protestos ocorreram em meio a um cenário de forte polarização no Brasil. Muitos manifestantes manifestaram apoio ao ex-presidente, que cumpre pena após condenação relacionada à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022 — algo que seus apoiadores veem como injusto, enquanto críticos afirmam que ele atentou contra a democracia.
Além de críticas ao governo Lula e ao STF, as manifestações também serviram como plataforma para posicionamentos eleitorais antecipados, reforçando a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto em 2026.
Embora a manifestação de ontem tenha sido, em grande parte, pacífica, análises de especialistas e de setores da imprensa apontam alguns fatores que merecem reflexão crítica:
Em comparação com protestos bolsonaristas de anos anteriores, como os realizados em 2024 e 2025, os números em várias cidades indicam aderência menor ou mediana, deixando clara a dificuldade de mobilização mais ampla fora de núcleos já politizados;
O uso de slogans polarizadores, ataques frequentes ao STF e ao governo e a defesa de anistias para participantes de atos antidemocráticos do passado podem intensificar divisões na sociedade, afastando setores moderados da discussão política e reforçando a percepção de que apenas “nós contra eles” define o debate. Isso representa um risco para o diálogo democrático saudável. Especialistas em ciência política destacam que discursos polarizados podem afastar consensos e criar ambientes propícios à intolerância. (análise contextual);
Movimentos da sociedade civil, sindicatos, partidos e grupos pró-democracia tendem a responder a esses atos com seus próprios protestos, em uma dinâmica que pode amplificar tensões sociais em vez de promover entendimento ou soluções para desafios comuns do país, como segurança, inflação e emprego. Esse ciclo de ação e reação tende a aprofundar divisões, segundo cientistas políticos. (contexto geral).
As manifestações de ontem, realizadas por apoiadores bolsonaristas em várias partes do Brasil, refletem não apenas a continuidade de um engajamento político significativo entre uma parcela da população, mas também os desafios que o país enfrenta em termos de polarização. Enquanto o direito à livre expressão e à manifestação é um pilar de qualquer democracia, observadores e analistas chamam a atenção para a necessidade de debates menos hostis e mais focados em propostas que possam reduzir tensões e permitir que diferentes segmentos da sociedade encontrem pontos de convergência, em vez de aprofundar divisões políticas.
*Samuel Arruda é jornalista e articulista

