Ibraim Abi-Akel celebra seu centenário entre poucos amigos pessoais - créditos: dep. federal Paulo Abi-Akel
02-03-2026 às 08h28
Soelson B. Araújo*
Ibrahim Abi-Ackel é uma das mais marcantes e respeitadas figuras da vida pública brasileira do século XX e início do XXI — um homem cuja trajetória política e intelectual ajudou a moldar momentos cruciais da história do país e a representou com dignidade o estado de Minas Gerais no cenário nacional.
Nascido em 2 de março de 1926, em Manhumirim (MG), Abi-Ackel construiu uma carreira pautada pelo compromisso com o Estado de direito, pelas causas jurídicas e pelo desenvolvimento institucional do Brasil. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele se destacou tanto no campo acadêmico quanto no jurídico antes mesmo de ingressar efetivamente na política.
A trajetória política de Abi-Ackel começou ainda na década de 1950, quando foi eleito vereador em Manhuaçu (MG) e, logo depois, deputado estadual em Minas Gerais, onde permaneceu por mais de uma década. Sua atuação na Assembleia Legislativa consolidou sua reputação como um parlamentar dedicado e articulado, sintonizado com os anseios da sociedade de Minas.
Em 1975, elevou-se ao plano federal ao ser eleito deputado federal, representando Minas Gerais na Câmara dos Deputados. Seus mandatos no Congresso abrangeram várias décadas, marcados por um profundo conhecimento jurídico e compromisso com o debate legislativo e constitucional.

Em Minas Novas, Vale do Jequitinhonha com amigos e correligionários: da esquerda para direita, Zé Branco, desembargador Lincoln Rocha, dr. José Jorge (Nenem de Agenor) Ibraim Abi-Akel e desembargador Eustáquio da Cunha Peixoto
Uma das passagens mais significativas de sua vida pública foi como Ministro da Justiça do Brasil, cargo que exerceu de 1980 a 1985 no governo do presidente João Figueiredo. Nessa função, Abi-Ackel esteve à frente de uma das pastas mais sensíveis da administração pública, envolvida em questões de ordem institucional, direitos legais e garantias democráticas.
Esse período exigiu dele não apenas uma visão jurídica apurada, mas também um espírito de diálogo e negociação que marcou sua atuação em momentos de transição e desafios políticos nacionais. Sua atuação foi lembrada por muitos como pautada pelo equilíbrio e pelo respeito às instituições, valores que ainda hoje inspiram juristas e legisladores brasileiros.
Retornando ao Congresso Federal após sua passagem pelo Executivo, Abi-Ackel foi reeleito sucessivamente deputado federal, ocupando com distinção sua cadeira e participando das principais comissões da Câmara, como as de Constituição e Justiça, além de relatar projetos e debater importantes reformas constitucionais e legais.
Durante sua passagem no Legislativo, ele se destacou pela forma articulada de conduzir o debate, sempre em busca de construir pontes e soluções que beneficiassem o Brasil e, de modo especial, o seu estado de Minas Gerais. Foi reconhecido por seus pares como um dos oradores mais habilidosos e respeitados no Parlamento brasileiro.
Jornal Diário de Minas: Diálogo com a Sociedade
Além de sua atuação parlamentar e ministerial, Ibrahim Abi-Ackel teve uma passagem importante pelo jornal Diário de Minas, quando, a convite do ex-governador de Minas Newton Cardoso, assumiu a presidência dessa tradicional publicação. Nesse período, aproximou ainda mais seu engajamento político do universo da imprensa e da opinião pública. Além disso, ao conviver com mais de uma dezena de jornalistas do PT – Partido dos Trabalhadores na redação do jornal, manteve uma relação marcada pela resiliência e pelo diálogo propositivo. Dessa forma, reforçou o papel da comunicação como instrumento de cidadania e de interlocução entre seus pares, a sociedade e o Estado.
Sob sua liderança, o jornal manteve a tradição de ser um espaço de reflexão sobre os grandes temas nacionais e mineiros, contribuindo para o esclarecimento público e o fortalecimento do debate democrático. Fez com que, o legado deste, que foi o primeiro jornal diário dos mineiros, desde 1866, continuasse defendendo bandeiras importantes para Minas e o Brasil, e se manter fiel à segurança nas informações e independência nos comentários.
Tendo dedicado décadas de sua vida ao serviço público, à reflexão jurídica e à educação — além de possuir dezenas de obras publicadas em temas como direito, história e política — Abi-Ackel foi eleito membro da Academia Mineira de Letras, ocupando a cadeira nº 17, como reconhecimento de sua vida intelectual. Essa honraria, conferida a poucos expoentes das letras e do pensamento brasileiro, simboliza o reconhecimento de sua contribuição intelectual e cívica ao Brasil e à cultura mineira.
Ao longo de sua vida pública, Ibrahim Abi-Ackel manteve relações de respeito e colaboração com líderes políticos de Minas e do Brasil, destacando-se por seu diálogo franco e construtivo com figuras centrais da vida nacional — de governadores a líderes parlamentares e presidentes de partido. Sua atuação inspirou gerações de políticos, advogados e cidadãos comprometidos com o bem-estar coletivo.
Seu legado é perpetuado não apenas pelos anos de serviço prestados ao país, mas também pela influência que exerceu em colegas, na imprensa, na academia e na formação de novas lideranças, incluindo a própria trajetória política de seu filho, o deputado federal Paulo Abi-Ackel.
Um dos momentos mais relevantes e simbólicos da trajetória pública de Ibrahim Abi-Ackel ocorreu no período de 1987 a 1988, quando foi eleito Deputado Federal Constituinte, integrando a histórica Assembleia Nacional Constituinte responsável pela elaboração da Constituição Federal de 1988, consagrada como a Constituição Cidadã.
Nesse momento decisivo da história brasileira, Abi-Ackel levou à Constituinte toda a sua sólida formação jurídica, sua experiência acumulada no Parlamento e no Poder Executivo, além de sua reconhecida capacidade de diálogo e construção de consensos. Atuou com firmeza e equilíbrio em um ambiente plural, marcado por intensos debates e pela necessidade de conciliar diferentes visões de país, sempre guiado pelo compromisso com o fortalecimento das instituições democráticas e com a garantia dos direitos fundamentais.
Sua contribuição foi especialmente relevante nos debates de natureza constitucional e jurídica, nos quais sua voz era respeitada por pares de diferentes correntes ideológicas. Defensor do Estado de Direito, da segurança jurídica e do equilíbrio entre os Poderes, Abi-Ackel ajudou a moldar dispositivos fundamentais da nova Carta Magna, contribuindo para a consolidação de um texto constitucional que refletisse os anseios da sociedade brasileira no processo de redemocratização.
A participação de Ibrahim Abi-Ackel na Constituinte representa, assim, um dos pontos mais altos de sua vida pública: o de ter colaborado diretamente na construção do principal instrumento legal do país, que até hoje sustenta a democracia brasileira. Seu legado nesse período permanece como testemunho de seu profundo compromisso com o Brasil, com Minas Gerais e com os valores republicanos.
A vida de Ibrahim Abi-Ackel é uma história de dignidade, serviço e testemunho de dedicação, coragem e compromisso com o Brasil. Sua trajetória política — que atravessou regimes, transformações sociais e desafios institucionais — permanece como exemplo de como a atuação pública pode ser uma forma de serviço ao bem comum, sempre pautada pela ética, pelo conhecimento e pela vontade de construir um país mais justo e sólido para todos.
Sua história, rica em experiências e contribuições, merece ser lembrada e celebrada neste dia quando completa 100 anos de vida como parte essencial da memória política de Minas Gerais e do Brasil. Parabéns!
*Soelson B. Araújo é jornalista e CEO do Diário de Minas

