Créditos: Divulgação
25-02-2026 às 08h10
Luís Carlos Eiras*
Em um mundo em constante estado de crise, a informação sempre foi o ativo mais caro. Durante décadas, para saber o que realmente estava acontecendo em uma zona de conflito ou nos bastidores dos mercados globais, era necessário um crachá de agência de inteligência ou, no mínimo, uma assinatura de US$ 24.000 por ano de um terminal Bloomberg. Mas, como aconteceu com as enciclopédias e os táxis, a tecnologia está prestes a derrubar mais um muro. O mais novo invasor de privilégios atende pelo nome de World Monitor.
Lançado recentemente por Elie Habib — o empreendedor libanês mais conhecido por co-fundar a Anghami, o “Spotify do mundo árabe” —, o World Monitor (worldmonitor.app) é o que os entusiastas chamam de “interface de consciência situacional”.
Na prática, é um painel digital que parece ter saído diretamente de um filme de ficção científica ou de uma sala de guerra do Pentágono. Ele agrega, em tempo real, dados de mais de 100 fontes de notícias, movimentos militares, flutuações de mercado e até monitoramento de infraestrutura crítica, tudo visualizado sobre um mapa global interativo.
O que torna o World Monitor notável não é apenas a quantidade de dados, mas a sua curadoria. Vivemos na era da obesidade de informação, onde o ruído muitas vezes soterra o sinal.
Aqui, a inteligência artificial entra como o filtro mestre. A ferramenta utiliza modelos de linguagem para sintetizar relatos de conflitos, classificar níveis de ameaça e gerar resumos que permitem a um usuário comum entender, em segundos, por que o preço do petróleo subiu ou por que há uma movimentação incomum de tropas na Europa Oriental.
Do terminal para o navegador
Historicamente, o mercado de inteligência geopolítica foi dominado por gigantes como Jane’s ou as divisões de análise de risco da Economist Intelligence Unit.
O World Monitor representa a “uberização” desse setor. Ao ser uma ferramenta de código aberto e gratuita, ele democratiza o acesso ao que antes era reservado à elite decisória.
É a culminação do movimento OSINT (Open Source Intelligence), que ganhou força durante a guerra na Ucrânia, onde analistas de poltrona no Twitter muitas vezes superavam as agências de notícias tradicionais em velocidade.
Há uma ironia poética em o projeto ter nascido no Líbano, um país que frequentemente se encontra no epicentro de crises regionais. Para Habib, o projeto parece ser tanto uma ferramenta técnica quanto uma resposta à incerteza. Em um país onde o caos é a norma, ter um painel que organize esse caos não é apenas útil; é uma forma de controle psicológico.
Os perigos da transparência total
No entanto, a democratização da “visão de Deus” não vem sem riscos. A The Economist sempre viu com bons olhos a queda de monopólios, mas a transparência total pode ser uma faca de dois gumes.
Primeiro, há o risco da desinformação: se a IA que alimenta o World Monitor for enganada por fake news em tempo real, o pânico pode ser amplificado em escala global.
Segundo, existe a questão da vigilância: ferramentas que rastreiam movimentos militares e infraestrutura podem ser usadas por atores mal-intencionados com a mesma facilidade que por investidores ou jornalistas.
Além disso, há o perigo da simplificação. Geopolítica é uma ciência de nuances, história e contextos profundos. Reduzi-la a pontos vermelhos em um mapa e resumos de IA pode criar uma ilusão de compreensão. O fato de podermos ver o mundo pegando fogo em alta definição não significa que saibamos como apagar o incêndio.
O novo normal
Ainda assim, o World Monitor é um marco. Ele sinaliza que a era em que governos e grandes corporações tinham o monopólio da visão global acabou. O terminal de US$ 2.000 por mês agora tem um concorrente que roda em um navegador de internet comum.
Para os otimistas, é uma ferramenta de transparência radical que pode cobrar responsabilidade de governantes. Para os pessimistas, é apenas mais uma tela para assistirmos ao fim do mundo em tempo real. Para o investidor astuto ou o cidadão curioso, é simplesmente indispensável. A janela para o mundo está aberta; o desafio, agora, é não se perder na vista.
*Luís Carlos Silva Eiras é jornalista

