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23-01-2026 às 10h38
Philippe Oliveira de Almeida*
[CUIDADO: o texto a seguir contém spoilers!]
Em dado momento de Hamlet, a mais célebre peça do Bardo inglês (e epicentro da literatura ocidental, ao lado da Divina Comédia, de Dante, do Dom Quixote de Cervantes e do Fausto de Goethe), o protagonista vê um ator comovendo-se por uma personagem fictícia, e exclama, zombeteiro: “Tudo por nada, por Hécuba! O que Hécuba tem a ver com ele, ou ele, com Hécuba, para que ele chore por ela?”. Ironicamente, o personagem fictício Hamlet, mais de quatrocentos anos depois de sua criação, segue nos arrancando lágrimas – e não duvido que, se ele de fato existisse e caminhasse entre nós, também caçoaria da nossa fraqueza.
Assisti ontem a Hamnet: a vida antes de Hamlet, da cineasta chinesa Chloé Zhao. Ao final da sessão, a sala estava em prantos, mais uma prova de que muitas criações literárias e artísticas são mais reais, para nós, que a própria realidade – é esse, vale dizer, um dos grandes temas da peça Hamlet (e de outras peças de Shakespeare, como Sonho de uma noite de verão e A tempestade). Onde termina o palco e começa a vida? Os dramas que se passam no The Globe – o teatro no qual Shakespeare montou suas peças – importam menos que aqueles que atravessam o globo? Como Harold Bloom, maior crítico literário do século XX, apontava, nenhum escritor foi tão hábil quanto Shakespeare na arte de produzir pessoas: Falstaff, Shylock e Lady Macbeth estão mais vivos que a maioria de nós, e ainda choramos as mortes de Julieta e de Cleópatra. Shakespeare é a prova de que não há diferença entre arte e magia – o artista é um necromante, conjura espíritos, coloca-nos em contato com seres que evoca das zonas abissais.
É esse o pano de fundo de Hamnet. Tendo dirigido poucos longas-metragens, Chloé Zhao já se tornou uma das mais conceituadas cineastas do século XXI, responsável, entre outros, pelo incontornável Nomadland (retrato visceral do colapso financeiro dos EUA). E, com Hamnet, atinge um novo patamar. Inspirado no livro de mesmo nome escrito por Maggie O’Farrell (que assina o roteiro juntamente com Zhao), Hamnet especula sobre a vida privada de Shakespeare. É curioso o descompasso entre a abundância de informações que temos acerca do Shakespeare-artista e a pobreza de material sobre o Shakespeare-indivíduo. 38 peças e 154 sonetos de Shakespeare sobreviveram ao tempo. Conhecemos detalhes sobre as encenações no The Globe – o célebre historiador Stephen Greenblatt escreveu um livro inteiro analisando um único ano da história desse teatro. Todavia, ainda temos poucos dados sobre as relações de Shakespeare com os amigos e a família.
O que de fato sabemos? Como a grande Bárbara Heliodora – maior especialista em Shakespeare em língua portuguesa – aponta, Shakespeare foi filho de um fabricante de luvas que prosperou durante a Era Tudor. Beneficiou-se da “Renascença Inglesa”, recebendo educação sofisticada que, noutros tempos, seria incompatível com a classe social em que nasceu. Casou-se com Anne (Agnes) Hathaway, e teve três filhos: Susanna, Judith e Hamnet (que morreu muito jovem). Passava longas temporadas distante da família, trabalhando em Londres. Conseguiu prosperar com o teatro, e manteve a esposa e os filhos em situação de conforto. Não era indiferente a dinheiro ou títulos, e valeu-se de seu sucesso para galgar posições. Tinha grande admiração pelo dramaturgo Christopher Marlowe (autor da Trágica história do Doutor Fausto). Não gostava de advogados. E, a julgar pelos poemas eróticos que dedicou a alguns homens da corte elizabetana, era bissexual. Para além desses registros, o que resta é especulação.
E não faltaram, nos últimos anos, especulações sobre a vida privada de Shakespeare. O filme A pura verdade (2018), dirigido por Kenneth Branagh, retrata um Shakespeare já envelhecido, de volta ao seio familiar, mediando acerca dos ganhos e das perdas de sua trajetória. Já a película Anônimo (2011) volta a um tema recorrente na crítica literária: seria Shakespeare, de fato, o autor de suas obras? [há um subtexto profundamente elitista por trás dessa pergunta: a crença de que, plebeu, o Bardo Inglês não seria de fato capaz de redigir seus trabalhos, e teria, na verdade, servido como “laranja” para pessoas mais “instruídas”, como Francis Bacon, Visconde de Alban]. Por fim, o superestimado Shakespeare apaixonado (1998) arrematou diversos Oscars produzindo uma comédia romântica sobre as desventuras de um jovem Shakespeare tentando encontrar um lugar ao sol na cena artística da Londres elizabetana. Mantendo-se extremamente discreto a respeito de seu universo particular, Shakespeare fascinou críticos, historiadores, escritores e artistas, tornando-se, ele próprio, um personagem ficcional tão popular quanto seus personagens ficcionais.
É por essas sendas que Hamnet se envereda. O filme explora a coincidência entre o nome do único filho homem de Shakespeare (o garoto que faleceu cedo, por razões ainda discutidas) e o nome do mais famoso personagem por ele escrito. Hamnet, Hamlet. Teria Shakespeare redigido Hamlet como um modo de lidar com a dor do luto, e prestar uma homenagem póstuma à criança? O filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreve, em Ecce homo, a propósito de Hamlet: “Não conheço nenhuma leitura mais dilacerante que Shakespeare: o que um homem deve ter sofrido para ter tamanha necessidade de ser um bobo!”. Foi o sofrimento da perda do filho que guiou a pena de Shakespeare, aqui? A especulação apresentada em Hamnet abre novas possibilidades de interpretação para Hamlet – ajudando inclusive a explicar a razão de um drama de capa e espada sobre vingança converter-se numa soturna reflexão sobre a relação entre pais e filhos e as nossas responsabilidades frente à morte. Shakespeare buscaria, por meio da arte, “ressuscitar” seu filho, dar a ele uma nova existência, mas agora feita de papel e tinta?
O filme opta por conduzir-nos através da perspectiva da esposa de Shakespeare, Anne (ou Agnes). Por muito tempo, ela foi retratada como uma megera – por que outro motivo Shakespeare teria escolhido manter-se tanto tempo longe de Stratford-upon-Avon, sua cidade-natal? Mas, nos últimos anos, a imagem de Agnes tem sido redefinida. Foi ela que administrou as propriedades da família. Em seu testamento, Shakespeare fez questão absoluta de frisar que (para além da meação que lhe era devida) Agnes ficaria com a cama nupcial do casal. Esses elementos têm levado a esforços historiográficos para reconstituir detalhes do relacionamento entre William e Agnes. Talvez a mais instigante obra a esse respeito seja A esposa de Shakespeare, biografia de Agnes publicada em 2007 pela brilhante filósofa australiana Germaine Greer.
No filme de Chloé Zhao, características de personagens femininas de Shakespeare são articuladas para construir a personalidade de Agnes. Brilhantemente interpretada por Jessie Buckley, Agnes surge, aqui, não como uma tirana ignorante que menospreza a sensibilidade do marido – como alguns críticos, ao longo dos séculos, tentaram retratá-la –, mas como uma força primal, um espírito da floresta, que poderia estar ao lado das fadas de Sonho de uma noite de verão ou das bruxas de Macbeth. É notório o encantamento de Shakespeare por Agnes, e o carinho que nutre pela família que eles constroem juntos. Assim como é notória a agonia do escritor com a rotina de Stratford-upon-Avon, que o força a se mudar para Londres. Tais componentes, costurados com delicadeza e precisão por Zhao, possibilitam que sintamos toda a extensão da dor de Shakespeare e Agnes, com a partida de Hamnet.
E revisitar a peça Hamlet pelos os olhos da esposa de Shakespeare (seu incômodo inicial ao entrar no The Globe, sua gradual compreensão do significado que a obra tem para o marido…) é um deleite! A arte é capaz de nos consolar diante da miséria humana? Freud – que, como Harold Bloom gostava de enfatizar, era um grande shakespeariano – dizia que a arte é histeria sublimada, tentativa de converter nossos transtornos e aflições em beleza. Ostra feliz não faz pérola: produzimos arte porque precisamos aprender a morrer, a lidar com o horror da finitude (da nossa e a dos nossos entes queridos). O ator chorou por Hécuba. Os londrinos do século XVI, reunidos no The Globe, choraram por Hamlet. E nós, aglomerados no cinema, choramos por Hamnet e por Shakespeare. Ao chorar por eles, choramos por nós – pela nossa humanidade, que eles espelham, condensam, sublimam.
*Philippe Oliveira de Almeida é Professor de Filosofia do Direito na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ)

